Sarau Cultura Alternativa 2026 reúne Angélica Torres e Anand Rao em encontro sobre poesia, memória e futuro
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O Sarau Cultura Alternativa 2026 recebeu Angélica Torres para um encontro com Anand Rao marcado por poesia, música, memória e reflexões sobre o presente. Ao longo de pouco mais de uma hora, ambos revisitaram décadas de efervescência cultural em Brasília e, ao mesmo tempo, discutiram literatura, jornalismo, inteligência artificial, protagonismo feminino nas artes, política e envelhecimento. O programa, dessa maneira, construiu uma narrativa apoiada em três tempos: ontem, hoje e amanhã.
A abertura deixou claro que a criação poética seria o fio condutor. O anfitrião interpretou “Tomara que caia um haikai na tua saia”, composição feita a partir de versos da convidada. A parceria remonta a décadas anteriores e funcionou, nesse sentido, como porta de entrada para lembranças de uma época de intensa movimentação artística. Entre acordes e conversa, portanto, os dois recuperaram episódios que ajudaram a compor parte da cena brasiliense.
Tabela de conteúdos
Da poemação à edição de livros
A escritora recordou sua participação na Bienal Internacional de Poesia, na Biblioteca Nacional de Brasília, ao lado de Antônio Miranda. Naquele período organizava, além disso, “poemações” em diferentes pontos da cidade e participava de recitais em bares. Segundo seu relato, havia maior disposição para ocupar as ruas e reunir grupos em torno das letras. A maturidade, contudo, trouxe uma rotina mais caseira, embora ela continue presente em atividades culturais.
A entrevistada também destacou sua trajetória no jornalismo e, paralelamente, na edição de livros. Seu trabalho envolve preparação de originais, organização de obras e acompanhamento dos conteúdos até que estejam prontos para a produção gráfica. Sua relação com o universo literário, dessa maneira, não se limita à autoria, mas alcança igualmente os bastidores das publicações e, consequentemente, a colaboração com outros autores.
Recentemente, a poeta participou de atividades relacionadas ao Mulherio das Letras e, por exemplo, de antologias organizadas pelo escritor e editor Soter. Nesse contexto, destacou uma coletânea que reuniu mulheres de diferentes idades. A iniciativa colocou, portanto, lado a lado distintas gerações e estimulou no sarau uma reflexão sobre renovação, permanência e diversidade na produção poética de Brasília.
Mulheres ampliam presença na cena cultural
O protagonismo feminino nas artes ganhou destaque durante a entrevista. Para a convidada, as mulheres conquistaram espaço consideravelmente maior no ambiente cultural depois de enfrentarem, historicamente, barreiras impostas por estruturas marcadas pelo machismo. Ela observou, ainda assim, que desigualdades persistem e relacionou essa discussão à violência de gênero e, consequentemente, aos desafios sociais contemporâneos.
O apresentador, por sua vez, relatou perceber expressiva participação feminina nos projetos do Cultura Alternativa e nas entrevistas realizadas nos últimos anos. Afirmou identificar, além disso, forte atuação das mulheres nos processos de criação, questionamento e inovação. O diálogo não buscou, entretanto, esgotar o assunto, mas utilizou vivências pessoais como ponto de partida para compreender transformações sociais mais abrangentes.
Ao mencionar encontros promovidos pelo Mulherio das Letras, a jornalista reconheceu também que mantém maior proximidade com autores de sua geração. Demonstrou, porém, interesse em conhecer o trabalho desenvolvido por escritores mais jovens. Coletâneas capazes de aproximar diferentes faixas etárias tornam-se, nesse sentido, relevantes para estabelecer pontes e, consequentemente, impedir que cada grupo permaneça restrito ao próprio circuito.
Inteligência artificial provoca debate
A tecnologia abriu um dos momentos mais instigantes do sarau. A autora contou que experimentou inteligência artificial para traduzir dois poemas para o inglês. Embora tenha mantido um longo diálogo com a ferramenta, considerou, contudo, o resultado insuficiente. Segundo sua avaliação, a versão produzida não conseguia preservar simultaneamente metáforas, ritmo, rimas, aliterações e assonâncias. Acabou, por isso, desistindo da tentativa.
Anand apresentou uma vivência diferente. Usuário frequente de recursos digitais, afirmou empregar IA em pesquisas, organização de informações e acompanhamento de diversas áreas do cotidiano. A divergência tornou, entretanto, a conversa produtiva: enquanto ele enfatizou as possibilidades abertas pelo uso contínuo e contextualizado, sua interlocutora chamou atenção, por outro lado, para obstáculos que surgem quando a máquina enfrenta características específicas da linguagem poética.
A escritora levantou ainda a questão ambiental relacionada aos centros de dados e ao consumo de água e energia. O músico concordou que o problema precisa ser enfrentado e considerou, ao mesmo tempo, a inteligência artificial um caminho tecnológico sem retorno. A discussão evitou, dessa forma, apresentar a inovação apenas como solução ou ameaça, preferindo colocar benefícios, restrições e custos ambientais na mesma análise.
Poesia, política e memória brasileira
Outro momento central ocorreu quando a entrevistada apresentou “Poemas de Terror”, livro construído a partir de sua vivência diante de acontecimentos políticos brasileiros entre 2015 e 2023. Durante esse período, além de atuar tradicionalmente na área cultural, escreveu sobre política em veículos da mídia independente. Versos produzidos ao longo daqueles anos acabaram, consequentemente, formando uma espécie de registro literário daquele contexto histórico.
A obra reúne referências à crise política, à pandemia, à ditadura militar e ao avanço de movimentos autoritários. A autora leu “Masmorra da Memória”, texto em que aborda tortura, censura e lembrança coletiva. Em seguida, apresentou outra criação relacionada ao período da Covid-19. Sua escrita aparece, desse modo, não apenas como exercício estético, mas também como testemunho e posicionamento diante do tempo vivido.
O anfitrião contrapôs essa perspectiva com sua experiência de 40 anos no Senado Federal. Segundo ele, trabalhar com parlamentares de diferentes tendências fortaleceu seu hábito de observar versões distintas antes de formular conclusões. Defendeu, por isso, a comparação entre veículos de comunicação e reiterou que preserva publicamente seu voto. O encontro colocou, assim, lado a lado militância, análise crítica e liberdade de posicionamento.
O amanhã continua sendo poesia
Na reta final, as expectativas para o futuro substituíram as recordações. Anand falou sobre viagens, novos projetos, música, produção jornalística e a intenção de continuar abrindo o Sarau para diferentes vozes. Para ele, viver intensamente significa, sobretudo, preservar a curiosidade e ampliar espaços de expressão. A iniciativa pretende, consequentemente, receber tanto artistas experientes quanto pessoas que jamais participaram de uma leitura pública.
A convidada, por outro lado, revelou ter dois livros praticamente prontos. Um recupera vivências entre a cidade e a área rural de Goiás, onde nasceu. O outro aborda a chegada aos 70 anos e, por sua vez, as mudanças provocadas pelo envelhecimento. Embora reconheça, portanto, alterações de ritmo e perspectiva, a escritora demonstra que seu trabalho permanece ativo e direcionado a novas maneiras de interpretar a própria trajetória.
Por fim, a poeta leu “Salve Musa”, celebrando a multiplicidade da palavra literária. O encerramento sintetizou o espírito da conversa: depois de percorrer passado, política, tecnologia, perdas, maturidade e futuro, os participantes retornaram aos versos. No Sarau Cultura Alternativa 2026, afinal, a poesia não apareceu como simples lembrança de uma geração, mas, ao contrário, como linguagem capaz de atravessar épocas, estimular discussões e continuar inventando caminhos.

Assista o Sarau
O encontro entre Angélica Torres e Anand Rao estreia na quarta-feira, 26 de agosto de 2026, às 21 horas, na TV Cultura Alternativa, no YouTube. A atração permite, além disso, acompanhar na íntegra um diálogo que atravessa poesia, música, jornalismo, memória, inteligência artificial, política, maturidade e, ao mesmo tempo, novos rumos da criação cultural.
Assista pelo link abaixo:
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A participação do público contribui, portanto, para ampliar o alcance da produção cultural independente e possibilita que novos espectadores conheçam artistas e personagens apresentados pelo projeto. Compartilhe a edição, participe, também, do diálogo nos comentários e acompanhe, por fim, os próximos encontros do Sarau Cultura Alternativa 2026.
Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa
culturaalternativa.com.br

