O que é ser homem hoje - Cultura Alternativa

O que é ser homem hoje? Pesquisa revela crise de referências

O que é ser homem hoje? Pesquisa revela crise de referências

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O que é ser homem hoje? A pergunta deixou de ser apenas filosófica e passou a aparecer em pesquisas sobre juventude, comportamento, saúde mental e relações familiares. Um dado divulgado em 2026 chamou atenção: 68% dos jovens de 18 a 30 anos afirmariam não possuir um modelo claro do significado de ser homem atualmente. O número foi atribuído à Pesquisa Juventude e Masculinidade de 2024, realizada com apoio do Pacto Global da ONU. A informação ganhou repercussão porque, de fato, traduz uma transformação que pesquisadores vêm observando por diferentes caminhos.

Uma investigação mais ampla e com metodologia publicamente descrita reforça esse cenário. O projeto “Meninos: Sonhando os Homens do Futuro”, idealizado pelo Instituto PDH e PapodeHomem, contou com apoio institucional do Pacto Global – Rede Brasil e envolveu mais de 11 mil participantes no Brasil, Argentina e México. No recorte brasileiro divulgado em 2024, foram ouvidos cerca de quatro mil adolescentes entre 13 e 17 anos, além de meninas, mães, pais e responsáveis. O estudo, além disso, combinou etapas qualitativas e quantitativas para compreender como os garotos percebem masculinidade, afeto, futuro e referências adultas.

Os resultados mostram uma geração que não necessariamente rejeita ser homem, mas encontra dificuldade para definir como exercer essa identidade. Seis em cada dez meninos disseram não encontrar referências positivas de masculinidade entre homens próximos. Além disso, somente cinco em cada dez adolescentes de 15 a 17 anos declararam ter certeza de que são amados pelo pai. Entre os entrevistados, entretanto, a figura paterna continua aparecendo como importante referência masculina, criando um paradoxo: o pai permanece central, enquanto parte expressiva dos filhos não reconhece nele proximidade afetiva suficiente.

O modelo masculino tradicional perdeu exclusividade

Durante gerações, muitos garotos receberam um roteiro relativamente rígido. O homem deveria sustentar a família, demonstrar força, controlar emoções, proteger os seus, conquistar independência financeira e evitar comportamentos associados à fragilidade. Esse padrão, contudo, perdeu a condição de única referência socialmente aceita. Mulheres ampliaram sua participação econômica, famílias assumiram configurações diferentes e pais passaram a ser cobrados pela presença cotidiana. Paralelamente, relações afetivas passaram a exigir diálogo, reciprocidade e divisão de responsabilidades.

A transformação não significa que trabalhar, prover ou proteger tenham perdido valor. O problema surge, por outro lado, quando essas características se transformam em obrigação absoluta e impedem outras dimensões humanas. Um homem pode desejar sustentar financeiramente a família e, simultaneamente, trocar fraldas, cozinhar, demonstrar carinho, admitir medo ou procurar ajuda. Assim, o debate contemporâneo desloca a questão: em vez de substituir uma caixa masculina antiga por outra nova, pesquisadores discutem a possibilidade de ampliar as formas legítimas de viver a masculinidade.

Essa mudança encontra respaldo nos próprios adolescentes. O estudo “Meninos” identificou interesses que contrariam estereótipos consolidados. Seis em cada dez responsáveis gostariam, por exemplo, que os garotos aprendessem sobre cuidados estéticos, enquanto os próprios jovens demonstraram interesse pelo assunto. Entre estudantes de escolas públicas, 63% manifestaram interesse por estética e beleza, ante 56% nas particulares. Portanto, comportamentos anteriormente classificados como incompatíveis com a masculinidade já convivem com novas expectativas entre os mais jovens.

Silêncio emocional também produz consequências

A discussão ultrapassa costumes e alcança a saúde. Pesquisa brasileira publicada em 2025 na revista científica Interface – Comunicação, Saúde, Educação analisou masculinidades, sofrimento mental e autocuidado entre homens atendidos em Centros de Atenção Psicossocial. Os pesquisadores observaram que muitos homens chegam aos serviços de saúde somente em situações-limite, quando a dor se torna difícil de suportar. Nesse contexto, demonstrar sofrimento psicológico pode entrar em conflito com ideais masculinos de resistência, autonomia e controle.

O fenômeno não aparece apenas no Brasil. Uma revisão da Organização Mundial da Saúde examinou como construções socioculturais da masculinidade interferem na procura masculina por assistência em saúde mental. Normas relacionadas à autossuficiência, ao controle emocional e à resistência podem, nesse sentido, funcionar como obstáculos ao pedido de ajuda. Em contrapartida, intervenções adaptadas à linguagem e aos ambientes masculinos, bem como exemplos oferecidos por homens reconhecidos socialmente, podem favorecer a procura por cuidado.

Isso ajuda a compreender por que discutir masculinidade não significa atacar homens ou transformar características masculinas em problemas. A questão científica, na realidade, está em identificar quando expectativas sociais restringem comportamentos necessários ao bem-estar. Coragem continua sendo uma qualidade; ainda assim, procurar auxílio diante de sofrimento psicológico também pode exigir coragem. Independência permanece valiosa; ao mesmo tempo, vínculos afetivos e redes de apoio protegem pessoas em períodos de vulnerabilidade.

Redes sociais disputam a resposta sobre ser homem

Se a família e as instituições tradicionais oferecem referências menos homogêneas, a internet ocupa rapidamente esse espaço. Plataformas digitais reúnem influenciadores que apresentam respostas prontas sobre sucesso, dinheiro, relacionamentos, corpo e sexualidade. Algumas comunidades oferecem pertencimento a jovens solitários; outras, porém, transformam frustrações amorosas e inseguranças em discursos baseados na hostilidade contra mulheres ou na ideia de uma guerra permanente entre os sexos.

Essa disputa torna especialmente relevante a ausência de modelos próximos. Um adolescente sem referências positivas em casa, na escola ou em sua comunidade pode, consequentemente, procurar respostas no ambiente digital. A pesquisa sobre os homens do futuro sugere justamente essa lacuna. O estudo verificou que seis em cada dez meninos possuem poucas referências positivas de masculinidade no cotidiano, enquanto seis em cada dez apontam o pai como uma referência importante, positiva ou negativa. A internet, desse modo, não cria sozinha a crise de identidade, mas pode ocupar espaços deixados vagos pelas relações presenciais.

Há, finalmente, um dado que aponta uma direção possível. Nove em cada dez pais, mães e responsáveis consultados no projeto apoiaram a criação de programas educativos voltados à inteligência emocional de adolescentes. A demanda indica que famílias reconhecem a necessidade de oferecer ferramentas que gerações anteriores raramente receberam. Ser homem no século XXI, portanto, talvez não exija encontrar um novo manual universal. As pesquisas apontam, sobretudo, para algo mais amplo: construir masculinidades nas quais responsabilidade, coragem e autonomia possam coexistir com afeto, cuidado, diálogo e vulnerabilidade. O homem contemporâneo, em outras palavras, não precisa abandonar sua identidade masculina; precisa ter liberdade para vivê-la sem permanecer prisioneiro de um único modelo.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa