Sarau Cultura Alternativa 2026 com Elias Daher - Cultura Alternativa

Sarau Cultura Alternativa 2026 com Anand Rao e Elias Daher

Elias Daher revisita literatura, empreendedorismo e psicanálise no Sarau Cultura Alternativa 2026

Tempo de Leitura – 9 minutos

O Sarau Cultura Alternativa 2026 recebeu Elias Daher para uma conversa com Anand Rao marcada pela diversidade de experiências acumuladas ao longo da vida. Escritor, professor, ex-presidente do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, empreendedor e psicanalista, o convidado percorreu, ao mesmo tempo, diferentes fases de sua trajetória e mostrou como literatura, trabalho, curiosidade e capacidade de transformação acabaram se encontrando.

O programa, entretanto, não ficou restrito à entrevista tradicional. Poesia e música atravessaram o encontro, enquanto histórias pessoais ajudaram, por sua vez, a reconstruir parte da movimentação cultural de Brasília. Dessa maneira, o sarau transitou entre passado, presente e futuro e, paralelamente, recuperou amizades, projetos, livros e experiências profissionais.

A abertura apresentou “Movimento do Banho”, poema do convidado musicado pelo anfitrião anos atrás. A composição estabeleceu, desde então, o caráter artístico da conversa e antecipou uma característica presente durante todo o encontro: a possibilidade de abordar assuntos diversos e, ainda assim, preservar a poesia como elemento de ligação.

Dos livros técnicos à literatura

O escritor revelou ter publicado 56 livros. A produção começou, contudo, de maneira diretamente relacionada à atividade acadêmica. Durante os anos em que atuou como professor, ministrou cerca de 15 disciplinas e preparava, além disso, materiais destinados a orientar os estudantes. Gradualmente, esse conteúdo adquiriu estrutura suficiente para se transformar em livros técnicos.

As primeiras obras passaram pela avaliação de editoras universitárias. O processo permitiu, inclusive, que especialistas analisassem os originais e apontassem fragilidades. Mesmo quando uma proposta não era inicialmente aceita, os pareceres serviam, posteriormente, como instrumento para aperfeiçoar o trabalho e, consequentemente, apresentar uma nova versão.

A poesia já acompanhava o autor, embora permanecesse distante do mercado editorial. Mais tarde, a publicação sob demanda surgiu como alternativa para colocar os versos em circulação sem depender de grandes tiragens. Nesse contexto, o entrevistado refletiu, igualmente, sobre uma dificuldade histórica: livros de poemas encontram menos espaço comercial e, por outro lado, enfrentam a concorrência de obras com maior apelo popular.

Sindicato aproximou escritores e movimentou Brasília

A participação no Sindicato dos Escritores do Distrito Federal começou em 2006. O autor permaneceu à frente da entidade até 2010 e, nesse período, encontrou uma comunidade formada por escritores, poetas e produtores culturais. Para ele, entretanto, uma das maiores conquistas daquela experiência não pode ser medida em números, pois foram justamente as amizades construídas ao longo da caminhada.

A gestão também produziu resultados concretos. Segundo o ex-presidente, foram realizados cinco concursos literários, cada um deles com aproximadamente dois mil candidatos. Assim, as iniciativas alcançaram cerca de 10 mil participantes de diferentes partes do Brasil e, simultaneamente, ampliaram a projeção da entidade. O sindicato esteve presente, ainda, em feiras do livro e promoveu diversas noites de sarau.

A relação entre os dois participantes nasceu justamente nesse ambiente. O convidado recordou, inclusive, momentos em que o jornalista participou de decisões internas e defendeu melhores condições para as pessoas que trabalhavam nos estandes durante as feiras. A memória revelou, desse modo, como a amizade também se desenvolveu em meio às discussões sobre literatura e, sobretudo, sobre valorização do trabalho cultural.

Empreendedorismo nasceu da necessidade

A trajetória profissional do entrevistado não seguiu uma única direção. Ele trabalhou durante décadas no serviço público e reconheceu, nesse sentido, a importância dessa atividade para seu sustento e segurança previdenciária. A realização pessoal, entretanto, apareceu principalmente em outras experiências e, entre elas, destacaram-se o ensino e diferentes empreendimentos.

Um dos períodos mais curiosos ocorreu durante a construção de sua casa. Quando os recursos ficaram insuficientes para continuar a obra, foi necessário, portanto, encontrar novas fontes de renda. Passou a fabricar sabão, água sanitária e desinfetante e, posteriormente, comercializou esses produtos para condomínios.

A criatividade empresarial não parou aí. O escritor também fabricou mesas de sinuca e comercializou diferentes unidades. Cada iniciativa tinha, afinal, uma finalidade prática: levantar recursos para avançar na construção. O próprio imóvel acabou se transformando, por conseguinte, em outra expressão dessa disposição para experimentar, já que o proprietário participou do desenho, da execução e até do assentamento de tijolos.

Mais de 100 carros passaram por sua garagem

Outro capítulo surpreendente envolve automóveis. O convidado contou ter possuído mais de 100 carros, quantidade relacionada tanto à paixão pelos veículos quanto a uma atividade de compra, recuperação e revenda. Sua familiaridade com esse universo, aliás, começou cedo: o primeiro emprego foi em uma oficina mecânica.

O conhecimento de mecânica, lanternagem e pintura permitia comprar veículos por preços interessantes, realizar melhorias e, posteriormente, revendê-los. Em algumas operações, segundo relatou, a margem poderia chegar a aproximadamente 30%, descontados, naturalmente, custos como transferência e materiais utilizados na recuperação.

Com o tempo, entretanto, a atividade comercial também se transformou em prazer. Chevrolet Omega, Land Rover, Renault Fluence, Hyundai Tucson e Azera aparecem, entre outros, nos relatos apresentados durante a conversa. Atualmente, o escritor dirige um Fiat Fastback e mantém, ainda, o interesse pelas peculiaridades tecnológicas e pelo comportamento de diferentes automóveis.

Assista o Sarau

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Poesia permanece no centro do sarau

Entre as histórias profissionais, o poeta voltou à literatura para ler uma composição inspirada em “Tereza Batista Cansada de Guerra”, de Jorge Amado. Depois, recitou de memória versos de Fernando Pessoa e comentou, nesse percurso, como determinados poemas permanecem guardados mesmo depois de décadas de leitura.

O apresentador, por sua vez, declamou “Suaves Destinos” e reforçou, dessa maneira, a combinação entre entrevista e manifestação artística que caracteriza o projeto. As lembranças conduziram, igualmente, à época da poesia marginal e independente em Brasília, quando escritores ocupavam universidades, bares e espaços alternativos para apresentar sua produção.

O depoimento de Ronaldo Mouzinho, apresentado durante o programa, ampliou essa perspectiva histórica. A memória passou, além disso, pelo Woodstock Cult e pelos encontros de poetas e músicos que procuravam espaços para divulgar uma produção distante dos circuitos convencionais. Naquele cenário, portanto, literatura e música funcionavam também como instrumentos de convivência, resistência e experimentação.

Da educação à psicanálise

Atualmente, o autor dedica parte importante de sua atividade profissional à psicanálise. Durante o encontro, ele explicou diferenças entre psiquiatria, psicologia e psicanálise e destacou, ao mesmo tempo, que cada campo possui formação, instrumentos e abordagens próprias.

A escolha pela psicanálise, segundo contou, está relacionada ao interesse em compreender experiências anteriores que permanecem interferindo na vida presente. O objetivo, nesse sentido, envolve ajudar a pessoa a elaborar sua própria história e, consequentemente, desenvolver novas formas de lidar com conflitos, lembranças e situações ainda não resolvidas.

A discussão avançou, posteriormente, para ansiedade, comportamento e convivência em uma sociedade submetida a um fluxo permanente de informações. Para o psicanalista, notícias capazes de produzir indignação podem afetar o humor mesmo quando, na prática, não interferem diretamente na vida de quem as acompanha. Por isso, em sua avaliação, é necessário desenvolver mecanismos para preservar o equilíbrio diante dessa avalanche cotidiana de estímulos.

O futuro continua aberto às experiências

Ao analisar a polarização política e social contemporânea, o entrevistado afirmou enxergar um mundo estranho e repleto de motivos para indignação. Sua estratégia pessoal, contudo, não consiste em abandonar as notícias, mas em desenvolver disciplina para impedir que acontecimentos externos determinem, permanentemente, seu estado emocional. Afinal, o desgaste provocado por questões distantes pode acabar contaminando relações muito mais próximas.

O futuro, entretanto, permanece associado à curiosidade. Depois de experimentar diferentes profissões e atividades, ele não descarta novas descobertas e, ao mesmo tempo, pretende continuar trabalhando com psicanálise. A produção de livros deverá permanecer presente, sobretudo com obras destinadas tanto a profissionais quanto a leitores interessados em compreender melhor suas próprias experiências.

A música também permanece em sua vida. Mesmo enfrentando dificuldades para tocar violão depois de um acidente doméstico que lesionou a mão, o convidado procura, ainda assim, alternativas para continuar próximo do instrumento. Assim, o Sarau Cultura Alternativa 2026 terminou reafirmando uma ideia que percorreu toda a conversa: mudar de caminho, aprender novamente e experimentar outras possibilidades são, acima de tudo, maneiras de permanecer ativo diante do tempo.

Anand Rao
Editor-Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa