Elias Antunes: literatura, memória e poesia no Sarau Cultura Alternativa 2026
Tempo de Leitura – 7 minutos
Das origens humildes à descoberta da leitura
Literatura, memória e experiência se encontraram no Sarau Cultura Alternativa 2026 com Elias Antunes e Anand Rao. Durante o encontro, o escritor percorreu diferentes momentos de sua trajetória e mostrou como trabalho, leitura e poesia acabaram formando partes inseparáveis de sua história.
Nascido em Goiânia, em 1964, Elias veio de uma família humilde. O pai, lavrador mineiro, esteve em Brasília no período de formação da nova capital. A mãe trabalhou como lavadeira. Além disso, a família enfrentou dificuldades financeiras e perdas que marcaram seus primeiros anos.
Nesse contexto, entretanto, a leitura tornou-se uma possibilidade de transformação. Como não tinha condições de comprar muitos livros, buscava bibliotecas e outras maneiras de acessar conhecimento. Aos 15 anos, portanto, já desejava ser escritor e começava a construir uma relação permanente com a literatura.
Polícia Civil e experiências que chegaram aos livros
Aos 19 anos, Elias foi aprovado em concurso para a Polícia Civil de Goiás. Trabalhou como identificador, função equivalente à atividade de papiloscopista. Embora realizasse serviços burocráticos, também participou de procedimentos de identificação criminal.
Além disso, atuou na identificação cadavérica. Enquanto muitos colegas evitavam esse tipo de trabalho, ele se apresentava como voluntário. Posteriormente, essas experiências profissionais forneceram elementos para sua produção ficcional.
Dessa maneira, a realidade policial acabou chegando aos livros. Um exemplo é “Sobre Deuses e Pássaros”, romance que combina elementos policiais e metafísicos. Também escreveu “Descrição de uma Cidade Morta”, obra contemplada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC).
Direito, Brasília e o trabalho no Judiciário
Paralelamente à atividade profissional, Elias continuou estudando. Em 1986, ingressou na faculdade de Direito e, posteriormente, concluiu a graduação. Depois disso, prestou concurso para o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios e mudou-se para Brasília em 1993.
No Judiciário, trabalhou durante décadas como analista. Durante o sarau, porém, a conversa foi além das lembranças pessoais e abordou a demora de determinados processos. Segundo ele, cada ação possui características específicas que podem influenciar diretamente sua duração.
Além disso, recursos, conflitos entre partes e procedimentos envolvendo órgãos públicos podem aumentar os prazos. Por outro lado, Elias destacou que procurava manter suas próprias atividades profissionais rigorosamente em dia, cumprindo os prazos exigidos.
Mais de 300 premiações
Se o serviço público garantiu estabilidade, a literatura permaneceu como vocação. Aos 17 anos, Elias conquistou uma premiação literária e, a partir daquele momento, percebeu que os concursos poderiam representar um caminho para divulgar sua produção.
Em 1985, aos 20 anos, venceu o Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, importante reconhecimento literário de Goiás. Posteriormente, conquistou a mesma premiação outras quatro vezes. Ao longo da carreira, segundo contou, acumulou mais de 300 prêmios e publicou mais de 20 livros.
Entre os reconhecimentos mencionados está também o Prêmio Cláudio Willer, relacionado ao livro “Um Caminho na Terra”. Entretanto, o escritor ressaltou que os concursos representam apenas uma possibilidade. Outros autores, afinal, constroem trajetórias independentes e igualmente legítimas.
Quando a poesia encontra a música
A poesia ocupou espaço central no programa. Logo no início, Anand musicou de improviso “O Pescador”, poema de Elias encontrado na internet. Assim, versos originalmente concebidos para a página ganharam melodia e uma interpretação criada durante a própria gravação.
Posteriormente, Elias leu “Cigarras”. Em seguida, o mesmo poema recebeu outra interpretação, abrindo uma conversa sobre oralidade, entonação, silêncio e pausas. Além disso, foram apresentados textos como “Chuvas”, “A Canção Proletária”, “Os Birros” e “Os Abróleos”.
Nesse sentido, o sarau mostrou que um poema não precisa ficar limitado ao papel. Quando passa pela voz de diferentes leitores, pode assumir outros ritmos e significados. Consequentemente, cada interpretação estabelece uma relação particular entre autor, texto e público.
Um poema atravessa gerações
Outro momento marcante ocorreu quando Anand apresentou a tradução de um poema escrito originalmente em telugu por seu pai. Indiano e geólogo, ele veio para o Brasil e deixou cadernos manuscritos com poemas preservados pela família.
Décadas depois, entretanto, novas tecnologias permitiram aproximar aqueles versos do português. Com auxílio da inteligência artificial, um dos textos pôde ser traduzido e apresentado durante o programa, recuperando parte de uma produção familiar que permanecia inacessível linguisticamente.
Assim, o encontro estabeleceu uma ponte entre passado e presente. Enquanto Elias recuperava experiências pessoais por meio da literatura, os antigos manuscritos mostravam como a palavra também preserva histórias familiares e atravessa gerações.
O futuro continua nos livros
Atualmente, Elias participa da Academia Taguatinguense de Letras e continua escrevendo. Além disso, mantém livros inéditos em permanente processo de revisão. Para ele, enquanto uma obra não é publicada, permanece no “mundo espiritual”, ainda sujeita a transformações.
A leitura, por sua vez, continua fundamental. O escritor afirmou ter lido uma quantidade expressiva de obras ao longo da vida e contou que já doou centenas de livros. Dessa forma, conhecimento e literatura permanecem associados tanto à formação pessoal quanto ao compartilhamento.
Ao falar aos novos autores, entretanto, sua mensagem foi principalmente de persistência: não abandonar o escritor nem o artista existente dentro de cada pessoa. Afinal, como resumiu no encerramento, na poesia algumas pessoas não simplesmente se acham: elas se encontram.

Assista o sarau
O Sarau Cultura Alternativa 2026 com Elias Antunes e Anand Rao reúne poesia, música, literatura e histórias de uma trajetória construída entre Goiás e Brasília. Além da conversa, o programa apresenta poemas e reflexões sobre criação, leitura e vida artística.
O programa completo estreou em 23/08/2026 às 21 h na TV Cultura Alternativa no YouTube. Assista pelo endereço:
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Fernando Araújo e equipe
Assessoria Geral
Cultura Alternativa

