Sarau Cultura Alternativa 2026 com Marcos Fabrício e Anand Rao - Cultura Alternativa

Marcos Fabrício e Anand Rao transformam reencontro em diálogo sobre poesia, educação e encantamento

Um encontro macro, leia tudo e assista a live

Tempo de Leitura: 8 minutos

O Sarau Cultura Alternativa 2026 promoveu um reencontro entre Marcos Fabrício e Anand Rao marcado por literatura, música, jornalismo, educação e memória. Cerca de dez anos depois de uma conversa anterior registrada em vídeo, os dois voltaram a dividir a tela para percorrer passado, presente e futuro. A proposta, entretanto, foi além de uma entrevista convencional e ganhou contornos de recital, conversa afetiva e reflexão sobre o papel da arte.

Poeta nascido em Brasília, o convidado apresentou uma trajetória que atravessa diferentes campos do conhecimento. Formado em Jornalismo, com mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, ele contou que atualmente realiza pós doutorado no Instituto de Letras da Universidade de Brasília. Sua formação, ao mesmo tempo, permite aproximar comunicação, pesquisa acadêmica, docência e criação literária.

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O encontro também reservou espaço para a música. Anand apresentou composições desenvolvidas em parceria com escritores e poetas, entre elas trabalhos com Fabrício Carpinejar, Marcos Linhares e Sérgio Albuquerque. A palavra, nesse contexto, deixou de permanecer apenas no papel e encontrou ritmo, melodia e interpretação. O sarau, dessa maneira, estabeleceu pontes entre diferentes linguagens artísticas.

Leituras capazes de “desfazer” a cabeça

Ao recordar sua formação como leitor, o escritor estabeleceu uma diferença entre as leituras realizadas por distração e aquelas incorporadas posteriormente como instrumento de formação. Os livros da infância e adolescência tiveram importância, porém a universidade provocou uma mudança mais profunda. Algumas obras, segundo ele, não simplesmente fizeram sua cabeça, mas conseguiram “desfazê-la”, expressão que despertou imediatamente a atenção do anfitrião.

A ideia sintetiza uma concepção de literatura que não serve somente para confirmar convicções. Um livro pode, nesse sentido, desorganizar certezas, ampliar perguntas e provocar deslocamentos intelectuais. A aventura literária começa, para o poeta, justamente quando autores e autoras conseguem bagunçar sistemas anteriormente estabelecidos e levam o leitor para territórios ainda desconhecidos.

Essa percepção apareceu em diferentes momentos da conversa. A literatura, afinal, foi tratada como experiência de transformação, enquanto a poesia surgiu como espaço privilegiado para o encantamento. Anand, por sua vez, relacionou essas reflexões à própria experiência como compositor e poeta, criando uma conversa em que memória pessoal e produção artística se encontraram constantemente.

Jornalismo e literatura como escolas da palavra

Uma das questões propostas pelo apresentador tratou das diferenças entre a escrita jornalística e a literária. O entrevistado respondeu que ambas podem ser compreendidas como escolas do texto. O jornalismo, contudo, trabalha fundamentalmente com a difusão da informação, utilizando referências informativas, opinativas e interpretativas para oferecer ao público elementos de compreensão da realidade.

A literatura percorre outro caminho e, ainda assim, mantém proximidade com o trabalho rigoroso da linguagem. Metáforas, figuras de linguagem, fantasia, estética e entrelinhas assumem maior protagonismo. O pesquisador definiu a criação literária, nesse ponto, como uma oportunidade permanente de lapidação das palavras e de aproximação com aquilo que não está necessariamente explícito.

As duas atividades, portanto, encontram-se na autoria. O professor construiu uma imagem para explicar essa relação: o jornalismo ajuda a manter os pés no chão, enquanto a literatura permite colocar a cabeça nas nuvens. A metáfora, além disso, resumiu um dos eixos do sarau, no qual informação e imaginação apareceram menos como adversárias e mais como possibilidades distintas de utilização da palavra.

Machado de Assis, ironia e crítica social

Machado de Assis ganhou um bloco específico da conversa. Pesquisador dedicado ao escritor brasileiro, o convidado respondeu a um questionamento sobre as discussões em torno da maneira pela qual o autor tratou a escravidão e as elites de seu tempo. Para o entrevistado, a crítica machadiana deve ser observada principalmente por meio da ironia e da construção dos personagens.

O especialista citou Brás Cubas como exemplo de personagem pertencente a uma elite que não recebe tratamento exemplar ou elogioso. A narrativa machadiana, segundo sua interpretação, expõe ociosidade, exploração, mediocridade intelectual e ausência de princípios éticos. A denúncia, portanto, estaria incorporada à arquitetura literária, sem necessariamente assumir a forma direta ou panfletária esperada por determinados leitores.

A análise avançou para o contexto brasileiro do século XIX, marcado pela escravidão, pela fome e por índices elevados de analfabetismo. O pesquisador mencionou ainda “Conto de Escola” ao tratar da educação e das relações de poder. Machado permanece atual, em sua leitura, justamente porque sua obra continua oferecendo instrumentos para observar contradições sociais brasileiras.

Educação, sonho e encantamento

A atividade docente ocupou outro momento importante do programa. Anand recordou a trajetória de seu pai, Bhaskara Rao, professor e PhD ligado à Universidade de Brasília, falecido em 2003. A lembrança abriu espaço para uma discussão sobre valorização dos professores e sobre a capacidade da educação de produzir transformações individuais e coletivas.

O educador definiu o professor como agente do esclarecimento plural. O docente precisa, segundo ele, aproximar estudantes do fazer científico, estimular dúvidas, contribuir para a cidadania e auxiliar na formação profissional. A sala de aula, ao mesmo tempo, deve oferecer diferentes leituras de mundo e incorporar livros, tecnologias de comunicação e outras formas de produção do conhecimento.

O convidado introduziu então uma palavra recorrente no encontro: encantamento. O mundo lhe parece excessivamente desencantado, enquanto poucas pessoas falam publicamente de seus sonhos. A educação, nessa perspectiva, funciona como plataforma capaz de impulsionar projetos de vida. O realismo, afinal, não precisaria significar abandono da imaginação, sobretudo quando conhecimento e sonho podem trabalhar juntos.

Síntese, livros e poesia

A produção recente do escritor também entrou em pauta. Entre os trabalhos apresentados está “Te Ver Me Faz Livro”, publicação formada por aforismos e textos curtos. O autor chamou atenção, entretanto, para um equívoco frequente: síntese não significa facilidade. Escrever pouco pode exigir intenso processo de elaboração, análise, escolha vocabular e exclusão.

“Por dentro de um minuto de síntese, existem 60 segundos de análise”, afirmou durante a conversa. A frase, nesse sentido, conduziu uma troca sobre micropoemas e formas breves. Anand lembrou exemplos de autores que trabalham com poucos versos, enquanto seu interlocutor destacou a importância das entrelinhas e daquilo que permanece deliberadamente sem ser dito.

O poeta também leu trabalhos durante o sarau. Amor, paixão, solidão, equilíbrio e cotidiano apareceram condensados em pequenas construções poéticas. A brevidade, portanto, não eliminou a complexidade. O encontro demonstrou, ao contrário, como algumas palavras podem abrir diferentes interpretações quando existe trabalho cuidadoso sobre ritmo, imagem e significado.

Live

O Sarau Cultura Alternativa 2026 com Marcos Fabrício e Anand Rao está disponível para quem deseja acompanhar integralmente esse encontro sobre literatura, música, jornalismo, educação, livros e poesia. A gravação, além disso, permite assistir às interpretações musicais, às leituras de poemas e às reflexões que surgiram espontaneamente durante quase uma hora de conversa.

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Ao final, o brasiliense apresentou outros trabalhos, homenageou a companheira Edivânia Raquel e deixou uma reflexão sobre envelhecimento e criação. Continuar fazendo arte seria, para ele, uma maneira de atravessar o tempo preservando movimento, curiosidade e capacidade de encantamento. O sarau terminou, assim, como começou: celebrando encontros.

Anand Rao – Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa