Jovens vestem outra personalidade no trabalho - Cultura Alternativa

Jovens vestem outra personalidade no trabalho?

Jovens vestem outra personalidade no trabalho?

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Jovens vestem outra personalidade no trabalho? Para grande parte da Geração Z, a resposta parece ser sim. Pesquisa realizada pelo The Harris Poll para a Express Employment Professionals revelou que 80% dos jovens dessa geração disseram já ter modificado aspectos da própria personalidade para se adaptar à cultura do local onde trabalham. Além disso, 75% afirmaram que sua personalidade profissional difere daquela apresentada na vida cotidiana.

O fenômeno não significa necessariamente falsidade ou falta de personalidade. Todo ambiente social exige algum grau de adaptação: funcionários controlam impulsos, respeitam hierarquias, escolhem palavras e cumprem regras coletivas. O problema surge, entretanto, quando adaptação deixa de representar comportamento profissional e passa a exigir que alguém esconda permanentemente características pessoais para ser aceito.

A questão ganha importância porque as empresas continuam atribuindo grande peso à personalidade. Outro levantamento Express/Harris Poll mostrou que 91% dos gestores americanos consideram personalidade tão importante quanto competências profissionais. Entre os recrutadores, 86% disseram, inclusive, que determinadas características pessoais podem compensar lacunas de habilidades.

Entre profissionalismo e personagem

Usar determinada linguagem numa reunião e conversar de outra forma com amigos constitui algo habitual. A psicologia social reconhece, por exemplo, o chamado code-switching, expressão usada para descrever mudanças de linguagem, comportamento ou apresentação conforme o contexto. Essa capacidade, em determinadas situações, facilita relações profissionais e permite que pessoas circulem entre diferentes grupos.

Uma fronteira aparece, contudo, quando o profissional sente que precisa representar diariamente alguém que não é. O jovem reservado pode acreditar que necessita demonstrar entusiasmo permanente. O introvertido tenta parecer extremamente sociável. Quem possui estilo informal pode adotar gestos, vocabulário e aparência corporativa que considera artificiais. Assim, aquilo que começou como adaptação transforma-se progressivamente em atuação.

O levantamento do Harris Poll reforça essa percepção. Entre todos os candidatos a emprego pesquisados, 67% disseram já ter alterado aspectos de sua personalidade para se enquadrar na cultura empresarial, enquanto 63% afirmaram comportar-se no trabalho de maneira muito diferente da vida cotidiana. A proporção, entretanto, diminui com a idade: entre baby boomers e idosos, 50% relataram mudanças de personalidade, contra os 80% registrados na Geração Z.

O masking pode cobrar um preço emocional

Outro conceito ajuda a compreender o fenômeno: masking, ou mascaramento. A palavra costuma aparecer em estudos relacionados à neurodiversidade, mas também descreve, em sentido mais amplo, situações nas quais alguém monitora intensamente comportamentos para evitar rejeição. A pessoa pode controlar expressões, esconder preferências, ensaiar respostas ou imitar padrões que considera socialmente desejáveis.

Essa representação permanente pode aproximar-se do chamado trabalho emocional, conceito utilizado para analisar o esforço necessário para demonstrar sentimentos esperados pela organização. Um funcionário, por exemplo, pode parecer alegre diante do cliente mesmo quando se sente irritado ou esgotado. Uma meta-análise publicada na revista Public Administration, reunindo 175 estudos, constatou que os efeitos dependem da estratégia utilizada; fingir emoções superficialmente apresenta consequências diferentes de tentar modificar genuinamente o estado emocional.

Resultados mais recentes reforçam o alerta. Meta-análise publicada em 2024 na BMC Psychology encontrou associação positiva entre trabalho emocional e burnout. Já uma revisão sistemática publicada em 2026 na revista Safety Science, depois de analisar 115 estudos produzidos entre 2002 e 2024, descreveu o gerenciamento contínuo das emoções como possível risco ocupacional capaz de consumir recursos cognitivos e emocionais.

Autenticidade também influencia o trabalho

Ser autêntico no emprego não significa dizer tudo o que se pensa, rejeitar regras ou agir como se estivesse em casa. Pesquisadores definem autenticidade profissional principalmente como a possibilidade de permanecer conectado à própria identidade enquanto se exercem funções sociais diferentes. Dessa maneira, profissionalismo e autenticidade não precisam representar forças opostas.

Um estudo com 867 trabalhadores, publicado no Journal of Psychology, diferenciou claramente autenticidade no trabalho de simples adequação entre pessoa e ambiente. Os pesquisadores observaram, sobretudo, relações relevantes entre autenticidade, burnout, tédio, engajamento e satisfação profissional. Isso sugere que sentir-se integrado ao ambiente não significa necessariamente sentir-se livre para ser quem se é.

Pesquisa envolvendo participantes dos Estados Unidos e do Brasil chegou a conclusão semelhante. Os autores estudaram o chamado “clima psicológico de autenticidade”, ou seja, a percepção de que a organização oferece segurança para que funcionários expressem suas identidades. Esse clima, por sua vez, apresentou relações com satisfação profissional, identificação organizacional, comportamentos colaborativos e burnout.

Quando adequação cultural vira pressão

Empresas procuram pessoas capazes de trabalhar em equipe e compartilhar determinados padrões de convivência. A chamada “adequação cultural”, portanto, pode ter função prática. Ela se torna problemática, todavia, quando recrutadores confundem competência profissional com preferência por um único tipo de personalidade, comportamento ou forma de comunicação.

Os próprios números revelam essa contradição. No levantamento Express/Harris Poll, 98% dos candidatos consideraram importante adaptar-se à cultura do emprego. Ao mesmo tempo, mais da metade classificou como injusta a expectativa de modificar a personalidade para conseguir se encaixar. Consequentemente, muitos jovens parecem aceitar a adaptação como requisito profissional, embora questionem até onde ela deveria chegar.

Um estudo divulgado em agosto de 2026 sobre “fachadas de conformidade” oferece outro sinal de alerta. Pesquisadores analisaram 452 profissionais de bancos em Istambul e encontraram associação entre esconder valores pessoais para aparentar alinhamento organizacional e maior exaustão emocional, despersonalização e intenção de deixar o emprego. Embora o estudo não permita generalizar seus resultados para todos os setores ou países, ele acrescenta evidências sobre os possíveis custos da inautenticidade prolongada.

A empresa também precisa se adaptar

A discussão costuma colocar toda a responsabilidade sobre o jovem: ele precisaria aprender a falar, vestir-se e comportar-se conforme expectativas empresariais. As pesquisas indicam, entretanto, que organizações também possuem responsabilidade na criação de ambientes em que diferentes personalidades consigam trabalhar sem representar personagens durante oito horas por dia.

O equilíbrio talvez esteja na diferença entre ajustar comportamentos e esconder identidades. Controlar o tom de voz numa reunião demonstra maturidade profissional; fingir extroversão permanentemente pode representar desgaste. Aprender protocolos corporativos faz parte do trabalho; acreditar que só existe uma personalidade aceitável, em contraste, reduz a diversidade humana existente nas equipes.

A Geração Z pode não estar simplesmente rejeitando normas profissionais. Seus integrantes talvez estejam tornando explícita uma pergunta que trabalhadores de várias gerações enfrentaram silenciosamente: quanto de nós mesmos precisamos esconder para crescer na carreira? O desafio das empresas será perceber que profissionalismo exige adaptação, mas não deveria exigir o desaparecimento da pessoa atrás do funcionário.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa
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