João Batista de Melo Neto (JBMN) - Cultura Alternativa

Entrevista com o escritor João Batista de Melo Neto (JBMN)

Entrevista Exclusiva com o escritor, professor, historiador e cozinheiro João Batista de Melo Neto (JBMN)

Cultura Alternativa segue promovendo entrevistas exclusivas e por escrito com escritores brasileiros. Nesta edição, conversamos com João Batista de Melo Neto (JBMN), professor, bacharel em História, especializado em História da Arte, cozinheiro, barista, gremista, bambista e brizolista. Um autor que encontra poesia na vida cotidiana, nas pessoas e nos campos, transformando o simples em arte.

A entrevista em tópicos:

  • João Batista de Melo Neto (JBMN) é um poeta, historiador e cozinheiro que integra gastronomia, arte e literatura em suas obras.
  • Ele acredita que a poesia está presente no cotidiano e reflete a humanidade, incluindo as esperanças e dores das pessoas.
  • Sua escrita é influenciada pela estética, e ele vê conexões entre a história e a literatura, especialmente na resistência social.
  • JBMN destaca a importância da poesia como forma de resistência e crítica à opressão e desigualdade.
  • Ele observa que a internet ampliou o acesso à poesia, permitindo que vozes de fora dos grandes centros sejam ouvidas.

As conexões entre a cozinha, a arte e a literatura

João, você é professor, historiador, cozinheiro e barista. Como essas diferentes vivências se misturam no seu processo de escrita literária?

A gastronomia também é história. A partir do fogo, o homem passou a assar; juntando água, começou a cozinhar. Desde então, a culinária tornou-se parte da cultura dos povos, ligada ao território e à identidade de cada um. Além disso, tudo está interligado. Quando vemos filmes como O Chefe, Estômago ou Como Água para Chocolate, percebemos como a gastronomia se faz presente na arte. Mesmo antes do Banquete de Platão, o ato de degustar já aparecia em obras como Gilgamesh, Ilíada e nos versos de Virgílio e Ovídio. E, claro, é impossível não lembrar das mesas postas nas pinturas de Murilo e Caravaggio.

Sua formação em História da Arte certamente influencia seu olhar poético. De que forma a estética e a arte aparecem como inspiração nas suas obras?

Em praticamente tudo. Uma tela, seja de Leonardo ou de Dalí, já contém versos intrínsecos. Do mesmo modo, uma fachada colonial ou um paredão de concreto também inspiram poesia. Além disso, os grafites que desafiam o cinza da cidade são poesia visual. A poesia é cotidiana e ela não sobrevive sem a arte.

Você costuma dizer que escreve sobre o cotidiano, o povo e os campos. O que mais o motiva a transformar a vida simples em poesia?

Não transformo: a poesia é inerente à vida (risos). Aliás, ela nos oferece toda motivação possível. Reflete nossas esperanças, dores, sonhos e ilusões. Assim, espelha nossa humanidade. É impossível fazer poesia sendo indiferente ao que se passa ao redor.


Política, samba e resistência em versos

Como gremista, bambista e brizolista, sua identidade cultural e política é marcante. De que maneira essas paixões aparecem em seus textos?

O Grêmio me acompanha desde sempre. O primeiro desenho que fiz na infância era eu com uma camiseta tricolor e, nos anos 1970, assumir o gremismo era complicado. Além disso, quanto a Brizola, ele representa uma ideologia forte: a vontade de ver uma educação inclusiva, universal e tecnológica, acessível a todos. Essa visão sempre influenciou minhas linhas. Já o Bambas é uma magia. É uma escola de samba que seduziu um roqueiro, um mistério total. E mistérios sempre alimentaram a literatura (risos).

Da história acadêmica à poesia popular

Além de autor de dois livros de História, você participou de cinco antologias poéticas. Como foi a transição da escrita acadêmica para a poesia?

Escrevo desde a pré-adolescência. Descobri Ana Cristina Cesar aos onze anos, foi um amor platônico e avassalador. Quando ela se foi jovem, quase perdi a razão, mas os versos serviram para orientar o coração partido. Durante a faculdade, a poesia adormeceu um pouco, pois era tempo de teorias, métodos e técnicas. Contudo, a História sempre esteve alinhada à literatura. Por isso, era só uma questão de tempo para eu voltar a versejar.

Entretanto, muitos escritores afirmam que o ato de versejar é também uma forma de resistência. Você concorda? Sua poesia tem esse caráter?

Sempre. Tenho muitos poemas que denunciam a opressão, o preconceito, a desigualdade, a miséria e a intolerância contra minorias. Sim, sou homem, branco, hétero e cis, mas isso não me torna diferente ou igual a ninguém. Cada pessoa é única e, portanto, para que isso exista é preciso respeitar as diferenças e enfrentar o opressor. Além disso, o amor também é resistência. Desde Osíris e Ísis, passando por Helena e Páris, chegando a Paolo e Francesca, até Romeu e Julieta de Sarajevo: Admira Bošić, bósnia muçulmana, e Bozo Brkić, sérvio. O amor enfrenta tudo. Ele também é resistência.


O café, a poesia e o tempo de maturar ideias

Por outro lado, a cozinha e o café são espaços de criação e contemplação. Há alguma relação entre preparar um prato ou um café e o ato de escrever um poema?

Sim. Afinal, café é um poema preparado, aquecido, degustado e espraiado (risos).

Quais autores brasileiros ou estrangeiros o inspiram e o acompanham nas suas leituras e reflexões poéticas?

São muitos. Mas, para citar alguns que sempre me vêm à mente e que lembram café e arte, diria Baudelaire, Lorca, Leminski, Drummond, Borges e Gerson Nagel. Além disso, gosto de descobrir novos autores e ver como o tempo atual reinventa a sensibilidade.

Como você enxerga a cena literária contemporânea, especialmente a poesia produzida fora dos grandes centros?

Atualmente, a internet e as redes sociais permitiram que poetas de todos os cantos fossem lidos. Assim, universalizou-se a poesia, criando conexões antes impossíveis. Entretanto, ainda há muito o que melhorar. É necessário que mais gente escreva, leia e tenha acesso a publicações. Desse modo, a poesia continuará sendo viva, plural e acessível.

Para finalizar, quais são seus próximos projetos literários e o que o público pode esperar do escritor João Batista nos próximos anos?

Meu livro solo já está amadurecido há algum tempo, preciso servir antes que passe do ponto (risos). Além disso, talvez venha um livro de crônicas ou até um gastronômico. O importante é que, em tudo o que faço, estejam presentes a literatura, a história, a gastronomia e a justiça social.


Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa