Estar sozinho pode fazer bem revela pesquisa - Cultura Alternativa

Estar sozinho pode fazer bem, revela pesquisa

Estar sozinho pode fazer bem, revela pesquisa

Tempo de Leitura – 7 minutos

Estar sozinho pode fazer bem quando esse momento é uma escolha e ganha significado na rotina. Essa é a principal conclusão de uma pesquisa conduzida por Mark Adams, Anna Tovmasyan e Netta Weinstein, da Universidade de Reading, no Reino Unido. Os cientistas investigaram jovens adultos para descobrir se aprender a aproveitar períodos sem companhia poderia melhorar o bem-estar emocional.

Publicado no The Journal of Social Psychology, o estudo recebeu o título Crafting solitude: an intentional approach to solitude in emerging adults’ everyday life. A pesquisa começou com um experimento envolvendo 120 participantes e, posteriormente, realizou uma segunda etapa com outros 75 jovens. Ao todo, portanto, os pesquisadores observaram 195 participações nas duas fases do trabalho.

A diferença entre estar sozinho e sentir solidão ocupa o centro da investigação. Uma pessoa pode passar algumas horas sem companhia e sentir tranquilidade, enquanto outra pode estar cercada de gente e experimentar profunda desconexão. Nesse sentido, os pesquisadores estudaram a solitude, entendida como um período sem interação social, e não o isolamento involuntário que provoca sofrimento.

Pesquisadores ensinaram jovens a aproveitar a solitude

Para realizar o experimento, os cientistas desenvolveram uma estratégia chamada Solitude Crafting, expressão que pode ser compreendida como aprender a organizar conscientemente os momentos passados sozinho. A proposta buscava modificar a ideia de que ficar sem companhia representa necessariamente algo negativo.

Os participantes foram incentivados a escolher atividades que considerassem agradáveis ou significativas para realizar nesses períodos. Além disso, precisavam pensar em maneiras práticas de reservar espaço para elas na rotina. A intenção não era afastá-los das outras pessoas, mas ajudá-los a utilizar melhor momentos em que naturalmente estariam sozinhos.

Cada pessoa poderia encontrar sua própria maneira de aproveitar esse período. Ler, ouvir música, caminhar, descansar, refletir ou dedicar-se a interesses pessoais são exemplos de experiências compatíveis com a proposta. Entretanto, o aspecto fundamental estava na escolha consciente: em vez de simplesmente sofrer com a ausência de companhia, o participante deveria atribuir sentido àquele momento.

Primeiro experimento acompanhou 120 pessoas

Na primeira etapa, 120 participantes experimentaram a estratégia durante cinco dias. Os pesquisadores descobriram que criar um plano pessoal para aproveitar a solitude foi relativamente fácil. Colocá-lo em prática diariamente, por outro lado, mostrou-se um pouco mais difícil.

Ainda assim, os resultados foram expressivos. Cerca de 84% dos participantes conseguiram seguir a proposta durante pelo menos três dos cinco dias. Além disso, aproximadamente 83% disseram que utilizariam novamente a estratégia no futuro.

Os jovens também avaliaram positivamente a experiência. Depois da intervenção, além disso, os pesquisadores observaram redução do estresse e de sentimentos desagradáveis, como tristeza, tédio e solidão. Ao mesmo tempo, apareceram mais relatos de tranquilidade, relaxamento, felicidade e prazer.

Tranquilidade foi um dos principais resultados

Os participantes também responderam se acreditavam que as atividades realizadas sozinhos haviam contribuído para aquilo que estavam sentindo. A associação mais evidente apareceu justamente nos estados positivos.

Muitos relacionaram os períodos de solitude a sentimentos de paz e tranquilidade. Da mesma forma, felicidade e prazer foram frequentemente associados às atividades escolhidas para aqueles momentos. Os resultados sugeriram, portanto, que não basta simplesmente estar sozinho: o modo como esse tempo é utilizado parece fazer diferença.

Entretanto, essa primeira etapa tinha uma limitação importante. Como não existia um grupo de comparação, os cientistas não poderiam afirmar que todas as mudanças emocionais aconteceram exclusivamente por causa da estratégia. Por isso, realizaram uma segunda investigação com um método mais rigoroso.

Segundo estudo analisou jovens adultos

A nova etapa reuniu 75 pessoas, principalmente jovens adultos entre 18 e 26 anos. A idade média ficou próxima dos 22 anos. O grupo incluía estudantes universitários e participantes recrutados por uma plataforma especializada em pesquisas acadêmicas.

Novamente, elaborar um plano para aproveitar o tempo sozinho foi considerado relativamente simples, enquanto incorporá-lo à rotina exigiu maior esforço. Mesmo assim, mais de 80% conseguiram realizar as atividades planejadas durante a maior parte do período proposto.

Além disso, quase três quartos afirmaram que voltariam a utilizar a estratégia. A avaliação do prazer experimentado durante esses momentos também permaneceu elevada, reforçando aquilo que os pesquisadores haviam encontrado na primeira etapa.

Menos estresse e mais felicidade

Os resultados da segunda investigação ajudaram a confirmar algumas das descobertas anteriores. Depois da experiência, os participantes apresentaram redução significativa do estresse. Ao mesmo tempo, aumentaram sentimentos relacionados à calma, paz, felicidade e prazer.

Nem todos os resultados, contudo, foram igualmente fortes. A redução de sentimentos como solidão, tristeza e tédio apareceu novamente, mas nessa segunda experiência não foi suficiente para que os cientistas considerassem a mudança estatisticamente conclusiva.

Essa diferença é importante porque mostra a cautela necessária ao interpretar pesquisas científicas. Os dados sustentam melhor a conclusão de que a solitude planejada pode favorecer tranquilidade e reduzir estresse. Por outro lado, ainda não permitem afirmar que ficar sozinho elimina sentimentos de solidão ou tristeza.

Outra pesquisa de 2026 amplia a discussão

Uma segunda investigação, publicada em fevereiro de 2026 no Journal of Health Psychology, analisou 569 universitários. O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados à Universidade de Haifa e à Universidade Bar-Ilan, em Israel.

Nesse estudo, os cientistas avaliaram satisfação com a vida, emoções positivas e negativas e aquilo que chamaram de habilidades de solitude positiva. Em outras palavras, investigaram a capacidade de uma pessoa vivenciar de maneira saudável os momentos em que está sozinha.

Os resultados reforçaram a percepção de que saber lidar com esses períodos pode estar relacionado ao bem-estar. Entretanto, os pesquisadores não defendem que alguém deva abandonar amizades, família ou relacionamentos. A questão central, novamente, está em aprender a aproveitar os momentos individuais que fazem parte da vida cotidiana.

Estar sozinho não significa estar solitário

A distinção talvez seja a informação mais importante dessas pesquisas. Solitude e solidão não são sinônimos. A primeira pode envolver escolha, autonomia, descanso e prazer. A segunda representa uma sensação de desconexão que pode surgir inclusive quando alguém está acompanhado.

Da mesma maneira, os estudos não afirmam que quanto mais tempo uma pessoa passar sozinha, melhor será sua vida. Os cientistas investigaram principalmente a qualidade desses momentos, e não uma quantidade ideal de horas de isolamento.

A conclusão, portanto, é mais equilibrada. Relações sociais continuam fundamentais para o ser humano; contudo, saber aproveitar a própria companhia também pode contribuir para o equilíbrio emocional. Em uma sociedade permanentemente conectada, aprender a transformar alguns momentos sozinho em oportunidades de descanso, reflexão e prazer pode ser uma habilidade valiosa.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa