Luciana Mallon une lendas RAP e memória de Curitiba - Cultura Alternativa

Luciana Mallon une lendas, RAP e memória de Curitiba

Luciana do Rocio Mallon une lendas, RAP e memória de Curitiba

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Luciana Mallon une lendas, RAP e memória de Curitiba em uma trajetória construída entre literatura, folclore, dança, ensino, comunicação e experiências profissionais que, à primeira vista, poderiam parecer distantes. Escritora, professora, pesquisadora, rapper de batalhas de rimas e estudiosa da Vesteterapia, ela encontrou justamente nessa diversidade matéria-prima para observar pessoas, recolher histórias e produzir cultura.

Formada em Letras Português com Espanhol pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Magistério pelo Colégio São José, a autora também estudou Hospitalidade no CEP e realizou cursos livres de Danças Artísticas, Folclore, Vesteterapia e Música. Trabalhou como vendedora, balconista, redatora e professora de Literatura, Redação e Dança. Além disso, participou de coletâneas e recebeu diferentes prêmios nas áreas literária e artística.

Uma das experiências mais singulares aconteceu quando trabalhava como vendedora no comércio de Curitiba. Ao preencher o cadastro das clientes para o crediário, aproveitava a conversa para perguntar se conheciam alguma lenda ou causo sobrenatural do bairro onde moravam. As freguesas, então, compartilhavam histórias espontaneamente, e a jovem anotava tudo no papel. Posteriormente, esse material ajudaria nas pesquisas de Lendas Curitibanas 1 e Lendas Curitibanas 2. Até mesmo a dança colaborou com seu olhar investigativo, pois muitos balés nasceram de mitos e narrativas lendárias.

Lendas e memória

A paixão pelos relatos misteriosos começou na infância. A escritora não se encantava com os contos de fadas narrados pela mãe e por outras mulheres mais velhas porque considerava previsíveis as histórias de príncipes, princesas, castelos, beijos e casamentos. Em contrapartida, pedia lendas de terror. Assim, conheceu causos como Loira-Fantasma, Noiva do Belvedere, Lobisomem, Espírito da Bailarina do Casarão, Milagreira Maria Bueno e Gato Costureiro Kiko.

Na juventude, o emprego no comércio ampliou esse repertório por meio das histórias contadas pelas clientes. Durante suas investigações, a folclorista também identificou narrativas indígenas associadas à origem dos nomes de bairros curitibanos. Em 2002, entretanto, uma exigência profissional acabou abrindo outra porta: ela precisou fazer um curso de Informática. Uma professora sugeriu que publicasse as lendas em um blog e, dessa maneira, conseguiu espaço gratuito no portal Usina de Letras. Os leitores passaram a incentivá-la a transformar o material em livro, mas os custos cobrados pelas editoras dificultavam o projeto.

A situação mudou em 2012, quando o jornalista Helio Puglielli indicou o Instituto Memória, editora que, segundo seu relato, publicava obras selecionadas sem cobrar dos autores. Ela enviou os textos e, em 2013, o editor Anthony Leahy lançou Lendas Curitibanas 1. O título saiu de catálogo em 2015; posteriormente, em abril de 2019, chegou Lendas Curitibanas 2, reunindo causos antigos e novos. Ter conseguido publicar ambos sem pagar pela edição está entre os momentos que mais marcaram sua vida artística, sobretudo porque, naquele período, considerava difícil para um escritor sem recursos financiar sozinho uma publicação. Para a pesquisadora, as lendas urbanas preservam crenças populares, costumes de diferentes épocas, tradições dos antepassados e aspectos da história regional.

Roupa, rima e expressão

Outro campo de interesse é a Vesteterapia, definida por ela como estudo da personalidade por meio das roupas. A própria entrevistada ressalta que se trata de uma prática holística ligada muito mais ao universo místico do que à ciência. Segundo sua interpretação, a tradição teria raízes entre mulheres da Grécia Antiga, milênios antes de Cristo, e peças de vestuário possuiriam significados espirituais capazes de influenciar quem as usa. Ela também relaciona o renovado interesse pelo assunto a pesquisas arqueológicas.

Para explicar como aplica esse conceito, recorda uma cliente que chama de “Maria” para preservar sua identidade. A mulher, viúva desde os 25 anos, vestia somente preto e roupas de gola alta. Certo dia, profundamente triste porque o filho adulto havia partido com uma companheira e interrompido o contato, começou a chorar na loja. A então vendedora sugeriu, contudo, que experimentasse algo que sempre tivera vontade de usar. Maria resistiu à ideia de cores e decotes por considerar inadequados para sua idade, mas aceitou provar uma blusa colorida com decote discreto. Gostou da imagem no espelho, comprou a peça e pediu para sair vestida com ela. Na interpretação da estudiosa, a experiência proporcionou à cliente um momento de contentamento.

A relação com o RAP, por sua vez, começou muito antes das batalhas de rimas. Aos cinco anos, uma vizinha propôs uma brincadeira de rimar e despertou um interesse que continuou sendo praticado de maneira espontânea. Em abril de 2024, a artista publicou nas redes o RAP Não Quero Fazer Demonização Facial e afirma que o conteúdo alcançou mais de sete milhões de visualizações no TikTok. Para ela, o improviso treina o raciocínio, desenvolve habilidades com a linguagem oral, estimula a criatividade, dá voz aos excluídos e aproxima pessoas de diferentes classes sociais.

Cultura e pertencimento

Na visão da poeta, RAP e literatura possuem uma ligação natural. Ela recorre ao significado da sigla em inglês — ritmo e poesia — para sustentar essa aproximação. Antes de escrever, o autor organiza palavras mentalmente; no improviso oral, entretanto, pensamento e expressão acontecem quase simultaneamente. Literatura, música e dança também dialogam em sua concepção artística. Um escritor precisa de didática para comunicar uma mensagem ao público; as lendas urbanas se relacionam ao folclore; já a Dança-Poesia permite que o corpo interprete versos e letras musicais.

Sua experiência com comunicação ampliou essa percepção. Foi apresentadora do programa virtual Cultura Com Luciana do Rocio, na rádio Web Amor e Vida, entrevistadora da Revista Sarau das Artes, colunista da revista A Empreendedora, blogueira do site Lendas da Tia Lu e integrante do Conselho de Leitores da Gazeta do Povo. Nessas atividades, concluiu que as pessoas procuram manifestações culturais capazes de dar voz aos próprios sentimentos. O espectador precisa, segundo ela, reconhecer algo de si no palco ou na obra, mesmo quando está diante de uma ficção. Desse reconhecimento podem surgir acolhimento e pertencimento.

Em 2026, seu novo projeto volta-se às antigas danças de Curitiba, desde o período em que a localidade era chamada Vila Nossa Senhora da Luz até o século XIX. A investigação procura manifestações que desapareceram e hoje começam a ser recuperadas, como Dança do Curitibano, Dança das Lavadeiras do Rio Atuba, Dança da Colheita do Pinhão e Dança da Quirera. Para a folclorista, aliás, tecnologia não precisa representar ameaça à tradição: pesquisadores podem utilizar redes sociais para divulgar lendas, artesanato e danças típicas. Essa perspectiva resume sua própria trajetória, da coleta oral de causos aos livros e às plataformas digitais. Em sua concepção, arte e cultura conseguem aproximar até pessoas com pensamentos e objetivos opostos, quebrar preconceitos, revelar sentimentos desconhecidos, construir emoções coletivas, incentivar empatia e despertar uma sensibilidade muitas vezes encoberta pela dureza cotidiana.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa