IA e emprego dos jovens: se o primeiro emprego desaparecer, como se ganha experiência?
As empresas costumam pedir experiência até para vagas destinadas a iniciantes. No entanto, essa experiência precisa ser adquirida em algum lugar.
Agora, com o avanço da inteligência artificial sobre tarefas administrativas, atendimento, vendas e atividades técnicas básicas, surge uma questão importante: se a IA reduzir os empregos de entrada, onde os jovens começarão a carreira?
O alerta aparece no Global Employment Trends for Youth 2026, divulgado pela Organização Internacional do Trabalho, a OIT, em 11 de agosto.
O desemprego juvenil mundial chegou a 12,4% em 2025, o equivalente a cerca de 67 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos.
Além disso, aproximadamente 20% dos jovens estavam fora do emprego, da educação ou de programas de treinamento.
Por aqui saiba o que temos no texto
- A IA pode reduzir os empregos de entrada, gerando dificuldades para os jovens ganharem experiência profissional.
- O desemprego juvenil mundial atingiu 12,4% em 2025, com 67 milhões de jovens sem trabalho.
- Estágios e programas de aprendizagem se tornam essenciais para preparar os jovens para o mercado de trabalho.
- As empresas precisam desenvolver novas oportunidades de formação, focando em habilidades além das tarefas repetitivas.
- O desafio será garantir que a inovação não elimine as chances de aprendizado prático para os jovens.
IA e emprego dos jovens
IA e emprego dos jovens mudam o início da carreira
Durante décadas, funções como auxiliar administrativo, vendedor, atendente e técnico iniciante funcionaram como portas de entrada para o mercado de trabalho.
Nesses postos, o jovem aprendia rotinas, observava colegas mais experientes, desenvolvia disciplina profissional e adquiria competências que dificilmente aparecem apenas na formação teórica.
Agora, porém, muitas dessas funções estão entre as mais expostas à automação. A OIT estima que 6,1% dos empregos ocupados por jovens de 15 a 29 anos estejam em ocupações altamente expostas às transformações associadas à IA.
Isso não significa que todos esses empregos desaparecerão. Em muitos casos, a mudança ocorre dentro da própria função, com softwares assumindo tarefas básicas antes realizadas por trabalhadores iniciantes.
Sem primeiro emprego, como o jovem consegue experiência?
Esse é o principal paradoxo.
Se sistemas de IA passam a produzir relatórios simples, organizar documentos, preencher planilhas, responder dúvidas básicas, fazer pesquisas iniciais e executar partes do atendimento, o jovem pode perder justamente as tarefas usadas para aprender.
Ao mesmo tempo, as empresas continuam buscando profissionais capazes de tomar decisões, lidar com clientes, resolver problemas e trabalhar com autonomia.
No entanto, essas competências costumam ser desenvolvidas ao longo da experiência profissional.
Por isso, o risco não se resume à eliminação de determinados cargos. O problema pode estar no enfraquecimento do primeiro degrau da trajetória profissional.
IA e emprego dos jovens
Estágio e Jovem Aprendiz ganham nova importância
No Brasil, estágio e programas de aprendizagem podem assumir um papel ainda mais relevante.
A Aprendizagem Profissional combina formação teórica e prática e atende jovens de 14 a 24 anos. Além disso, o estágio continua sendo uma das principais pontes entre formação acadêmica e mercado de trabalho.
Nesse contexto, essas oportunidades não deveriam oferecer apenas tarefas repetitivas. Empresas e instituições de ensino precisarão pensar em experiências que realmente preparem os jovens para funções mais complexas.
Isso inclui acompanhamento de profissionais experientes, participação em projetos, contato com clientes, resolução de problemas reais e uso supervisionado de ferramentas de inteligência artificial.
Novas competências podem redefinir o primeiro emprego
A IA tende a alterar também o significado de uma vaga de entrada.
Em vez de contratar alguém somente para executar atividades operacionais, as empresas podem passar a procurar jovens capazes de interpretar informações, verificar respostas produzidas por sistemas automatizados e combinar conhecimento técnico com habilidades humanas.
Nesse sentido, comunicação, pensamento crítico, criatividade, capacidade de colaboração e resolução de problemas ganham importância.
Saber utilizar inteligência artificial poderá ser tão relevante quanto saber identificar quando a ferramenta erra.
O desafio, portanto, será evitar uma contradição: exigir trabalhadores preparados para utilizar novas tecnologias sem oferecer oportunidades para que eles aprendam dentro das próprias organizações.
IA e emprego dos jovens
Quem formará os profissionais experientes de amanhã?
O debate sobre IA e emprego dos jovens não deveria considerar apenas quantos empregos poderão desaparecer ou surgir.
Também é necessário perguntar onde serão formados os profissionais experientes do futuro.
Se empresas automatizarem grande parte das tarefas destinadas aos iniciantes, precisarão criar novas formas de treinamento, mentoria e progressão profissional.
Caso contrário, poderão reduzir custos no curto prazo e enfrentar falta de profissionais qualificados mais adiante.
A inteligência artificial pode transformar o primeiro emprego. Entretanto, o desafio será garantir que a inovação não elimine justamente o espaço onde milhares de jovens aprendem a trabalhar.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes: Organização Internacional do Trabalho (OIT), Ministério do Trabalho e Emprego e Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE).
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