Jorge Amâncio transforma Brasília em linguagem, memória e ancestralidade
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A trajetória de Jorge Amâncio representa uma das experiências mais originais da literatura produzida na capital federal. Entre fórmulas da Física, raciocínios matemáticos e intensa criação artística, o autor consolidou uma produção marcada pela experimentação estética, pela oralidade afro-brasileira e pela observação sensível do cotidiano urbano. Além disso, sua atuação como curador, incentivador cultural e organizador de encontros literários ajudou a fortalecer a cena criativa do Distrito Federal.
Graduado em Física pela Universidade de Brasília, com especializações em Matemática para Professores e Problemas de Geometria, o escritor afirma que o contato inicial com as palavras surgiu ainda na juventude. Nos fins de semana, lia o caderno B do Jornal do Brasil, onde descobriu nomes como Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e Mario Quintana. Paralelamente, cresceu ouvindo artistas como Lupicínio Rodrigues, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Angela Maria e Carlos Galhardo.
Entretanto, foi ao escutar os versos declamados de J. G. de Araújo Jorge que nasceu o desejo de escrever. Na adolescência, produzia composições românticas para impressionar garotas. Posteriormente, a escrita ganhou profundidade e passou a ocupar espaço definitivo em sua existência. Consequentemente, o interesse artístico começou a dialogar com suas experiências acadêmicas e sociais.
Tabela de conteúdos
Uma capital em construção e o despertar artístico
A chegada à nova capital, durante os anos 1970, modificou completamente sua percepção criativa. Segundo o autor, a cidade parecia uma folha em branco sendo preenchida diariamente. Nesse período, conheceu a obra do pernambucano Solano Trindade, referência decisiva para sua aproximação com temas ligados à ancestralidade negra e às questões sociais brasileiras. Ao mesmo tempo, Brasília apresentava um ambiente cultural efervescente, repleto de novas possibilidades estéticas.
Enquanto frequentava a Universidade de Brasília, mergulhou na movimentação artística daquele momento histórico. Além do ambiente acadêmico, aproximou-se do Movimento Negro Unificado e passou a enxergar os versos como instrumento de afirmação coletiva. Apesar disso, a docência e os estudos científicos ainda eram prioridades naquele instante. Mesmo assim, o universo cultural da capital começava a ocupar um espaço cada vez maior em sua rotina.
Na década de 1980, já formado e atuando como professor, começou a conviver com escritores da cidade. Dessa maneira, abriu portas para universos literários diversos. Entre as influências recebidas aparecem Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Jack Kerouac, Augusto de Campos, Haroldo Campos, Décio Pignatari e Paulo Leminski.
Mesmo cercado por referências importantes, ainda não imaginava seguir carreira literária. Somente em 2007 publicou NEGROJORGEN, graças ao incentivo da então companheira Jurema Martins, responsável por presentear o autor com a primeira edição impressa. A partir daquele momento, sua produção ganhou visibilidade crescente dentro da cena cultural brasiliense.
Livros atravessados por identidade, boemia e resistência
NEGROJORGEN apresenta textos marcados pela indignação diante do preconceito racial e das desigualdades sociais existentes no país. O volume denuncia exclusão, miséria e discriminação, abordando tanto a violência simbólica quanto a ausência de oportunidades educacionais e culturais. Além disso, o livro discute a invisibilidade social vivida por grande parte da população brasileira.
Conforme destacou o escritor Menezes y Moraes, parceiro do autor e responsável pela apresentação da obra, o livro reúne esperança, liberdade, solidão e sede de justiça. Dessa forma, o lançamento consolidou Jorge Amâncio entre os nomes relevantes da produção contemporânea brasiliense. Simultaneamente, a publicação ampliou o reconhecimento do escritor em diferentes círculos literários.
Mais tarde surgiu Batom d’Amor e Morte, reunião de textos produzidos entre os anos 1970 e 1980. A publicação funciona como retrato afetivo da vida noturna da capital naquele período. Muitos fragmentos nasceram em guardanapos, folhas avulsas e papéis datilografados espalhados pelos bares frequentados por jornalistas, artistas, músicos e boêmios. Consequentemente, o livro preserva uma memória afetiva da cidade.
Entre os espaços lembrados aparecem o Beirute, o Jangadeiro, o Sereia, o Castelinho e o Cavalo de Ferro, administrado por Messias. O escritor também cita lugares históricos como o Chorão, o Bom Demais de Cristina Roberto, o Bar da Raimunda, o subsolo do Conic, o Cervejinha e o bar do Kareca, em Taguatinga. Nesse contexto, todo esse circuito ajudou a moldar a identidade cultural da cidade.
Ancestralidade africana e sofisticação estética
Depois da aposentadoria, a criação literária passou a ocupar papel central em sua rotina. Desde 2019, dedica-se integralmente às leituras, oficinas, debates e experimentações textuais. Segundo ele, foi nesse momento que compreendeu a dimensão técnica da arte verbal, baseada em ritmo, musicalidade, estrutura e construção imagética. Assim, a escrita ganhou características ainda mais elaboradas.
Essa fase resultou em trabalhos como Haikus em Preto e Branco e O Leopardo que Mata Moscas Inoportunas. O livro mais recente dialoga diretamente com os orikis da tradição iorubá, narrativas orais de louvor aos orixás preservadas nos terreiros de candomblé. Além disso, a obra busca aproximar oralidade ancestral e construção contemporânea.
Na publicação, o escritor explora recursos sonoros e estilísticos como anáforas, aliterações, assonâncias, metonímias e trocadilhos. O objetivo foi construir uma escrita sensual, misteriosa e ritualística, inspirada na musicalidade africana ancestral. Dessa maneira, o autor procura transformar linguagem em experiência sensorial.
Além disso, Jorge Amâncio destaca a importância de participar de coletâneas como Novas Vozes da Poesia Brasileira, organizada por Claudio Daniel, e Constelação, homenagem dedicada a Haroldo Campos. A publicação reúne nomes como Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Augusto de Campos e Francisco K. Consequentemente, essas participações ampliaram o alcance nacional de sua obra.
Bienal do B, Poemação e os novos caminhos literários
O escritor também construiu forte atuação como articulador cultural. Ao lado do Açougue Cultural T-Bone, participou da criação da Bienal do B, considerada a única bienal de versos de rua do país. O encontro começou reunindo 25 participantes e alcançou 100 autores nas últimas edições. Além disso, a iniciativa aproximou diferentes gerações de escritores do Distrito Federal.
Conforme explica Jorge Amâncio, a proposta permitiu que criadores de várias regiões administrativas do Distrito Federal se encontrassem, trocassem experiências e formassem novos coletivos culturais. Ainda hoje, o projeto continua gerando frutos importantes para a produção artística local. Da mesma forma, muitos saraus e encontros independentes nasceram a partir dessas conexões.
Outro trabalho relevante foi o Poemação, sarau videoliteromusical coordenado juntamente com Marcos Freitas na Biblioteca Nacional de Brasília. O evento revelou talentos de São Sebastião, Samambaia, Planaltina e diversas outras regiões do DF, consolidando um verdadeiro mapa criativo da capital. Assim, o projeto ampliou a visibilidade de autores periféricos.
Durante a pandemia, Jorge Amâncio criou o grupo Os Três Mal-Amados ao lado de Fernando Freire e Josafá Santana. O coletivo realizou 75 transmissões online e contou com participações de Luciana Barreto, Marli Fróes e Jussara Resende. Além disso, o grupo ajudou diversos artistas a manterem suas atividades culturais durante o isolamento social.
Para o escritor, a arte verbal seguirá atravessando gerações, tecnologias e linguagens. Ele acredita que a ancestralidade, aliada às ferramentas digitais contemporâneas, poderá abrir horizontes inéditos para a literatura brasileira nas próximas décadas. Portanto, o futuro da criação artística dependerá da capacidade de unir memória, inovação e diversidade cultural.

Cultura Alternativa Agradece
O Cultura Alternativa agradece ao escritor Jorge Amâncio pela entrevista exclusiva, pela valorização da produção artística nacional e pela contribuição histórica à cena cultural do Distrito Federal. A equipe também reconhece todos os autores, músicos, intelectuais e produtores culturais citados nesta reportagem, fundamentais para a preservação da memória criativa brasiliense.
O Cultura Alternativa também agradece o trabalho de Fernando Araújo, responsável pela coordenação da equipe de criação e arte do portal, formada por profissionais freelancers contratados pelo Cultura Alternativa em diversas regiões do Brasil e do mundo.
Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

