Viajar a lazer ainda está longe de fazer parte da rotina de muitas famílias brasileiras. Entre as mães que criam os filhos sem um parceiro, essa distância é ainda maior.
Uma pesquisa recente aponta que 50% das mães solo brasileiras nunca fizeram uma viagem de lazer, percentual superior aos 37% registrados entre pais solo.
O dado ajuda a ampliar uma discussão que vai muito além do turismo. Afinal, para viajar é preciso dinheiro, tempo disponível, planejamento e, muitas vezes, uma rede de apoio.
Para quem concentra trabalho, sustento da casa e cuidado dos filhos, descansar pode se transformar em algo difícil de alcançar.
Um pequeno resumo
- 50% das mães solo brasileiras nunca viajaram a lazer, em comparação a 37% dos pais solo.
- O lazer é muitas vezes retirado do orçamento familiar, especialmente quando se tem uma renda limitada.
- As mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos, superando as 11,7 horas dos homens.
- A falta de uma rede de apoio dificulta as férias, pois as mães solo não têm com quem dividir as responsabilidades.
- O turismo não deve ser visto apenas como lazer, mas também como parte da qualidade de vida, evidenciando desigualdades socioeconômicas.
Mães solo e viagens: quando o descanso fica para depois
A pesquisa da Nexus, divulgada em parceria com o Ministério do Turismo, mostra como as desigualdades também aparecem na possibilidade de aproveitar férias e momentos de lazer.
Na prática, viajar envolve despesas com transporte, alimentação, hospedagem e passeios. Entretanto, para uma mãe solo, existe ainda uma questão adicional: quase todas as decisões e responsabilidades relacionadas aos filhos costumam depender dela.
Por isso, a relação entre mães solo e viagens não pode ser analisada apenas pelo preço das passagens ou da hospedagem.
Antes de pensar no destino, muitas mulheres precisam avaliar orçamento, férias do trabalho, calendário escolar, segurança, deslocamentos e toda a logística necessária para viajar com crianças.
Além disso, quando a renda familiar permite apenas despesas consideradas essenciais, o lazer costuma ser uma das primeiras atividades retiradas do orçamento.

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A desigualdade também aparece no tempo disponível
Outro elemento importante é a chamada pobreza de tempo.
Dados do IBGE mostram que, em 2022, as mulheres dedicaram em média 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas.
Consequentemente, mesmo quando trabalham fora de casa, muitas mulheres continuam responsáveis por grande parte das tarefas domésticas.
Para mães solo, entretanto, essa sobreposição tende a ser ainda mais intensa, porque falta alguém no próprio domicílio com quem dividir diariamente essas responsabilidades.
Assim, férias não significam necessariamente ausência de trabalho. Muitas mães continuam cuidando dos filhos, organizando alimentação, horários, deslocamentos e necessidades da família durante toda a viagem.
Renda e rede de apoio também definem quem consegue viajar
A desigualdade econômica amplia esse cenário.
Segundo dados citados pelo Alma Preta a partir do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2025, cerca de 70% dos domicílios chefiados por mulheres negras vivem com renda de até um salário mínimo.
Portanto, raça, renda, maternidade e estrutura familiar podem se sobrepor e restringir ainda mais o acesso ao lazer.
Da mesma forma, ter uma rede de apoio pode determinar se uma mulher consegue descansar algumas horas, passar um fim de semana fora ou realizar uma viagem mais longa.
Sem familiares, amigos ou serviços acessíveis de cuidado infantil, qualquer período de lazer exige planejamento adicional.

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Turismo também pode ser qualidade de vida
A discussão sobre mães solo e viagens também mostra que lazer não deveria ser tratado apenas como consumo ou luxo.
Descansar, conhecer novos lugares, frequentar espaços culturais e conviver com os filhos fora da rotina diária também fazem parte da qualidade de vida.
Nesse sentido, destinos próximos, viagens durante feriados, turismo regional e atividades culturais gratuitas podem representar alternativas mais acessíveis. No entanto, essas soluções não eliminam o problema estrutural.
Se metade das mães solo nunca conseguiu realizar uma viagem de lazer, a questão deixa de ser apenas “para onde viajar?” e passa a incluir outra pergunta: quem realmente tem tempo, renda e condições para descansar no Brasil?
O turismo revela paisagens, culturas e experiências. Entretanto, também pode revelar desigualdades.
E talvez uma das mais silenciosas seja justamente a diferença entre quem pode planejar as próximas férias e quem ainda precisa tratar o descanso como um privilégio distante.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes consultadas
Alma Preta, Pesquisa revela que 50% das mães solo nunca viajam a lazer, publicada em 20 de setembro de 2026.
IBGE, Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil. Em 2022, mulheres dedicaram 21,3 horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos, ante 11,7 horas dos homens.
REDAÇÃO SITE CULTURA ALTERNATIVA
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