Ser “Mai” as mães que são pais nos lares brasileiros - Cultura Alternativa

Ser “Mai”: as mães que são pais nos lares brasileiros

Ser “Mai”: as mães que são pais nos lares brasileiros

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Ser “Mai”, expressão que mistura mãe e pai, traduz uma realidade vivida por milhões de brasileiras que assumem praticamente sozinhas o sustento, a educação, o cuidado e as decisões relacionadas aos filhos. Embora a palavra tenha caráter simbólico, os números revelam um fenômeno social de grandes proporções. Dados recentes mostram, nesse sentido, que a família brasileira mudou profundamente e que a presença feminina como principal referência doméstica ganhou dimensão inédita.

Segundo o Censo Demográfico 2022, divulgado pelo IBGE, 49,1% das famílias brasileiras tinham mulheres como responsáveis, ante 24,9% em 2000. Em pouco mais de duas décadas, portanto, a participação feminina na liderança familiar praticamente dobrou. O modelo tradicional formado por casal e filhos perdeu espaço, ao mesmo tempo, diante de novas configurações domésticas.

Nesse cenário, chefiar uma família não significa necessariamente exercer maternidade solo. O recorte específico revela, contudo, uma situação ainda mais desafiadora. Estudo do FGV IBRE identificou 11,3 milhões de mães solo no país em 2022. Dez anos antes, eram 9,6 milhões. O Brasil ganhou, assim, aproximadamente 1,7 milhão de mulheres nessa condição em apenas uma década, crescimento de 17,8%.

Milhões de brasileiras assumem sozinhas a criação

O Censo 2022 oferece outro retrato importante dessa transformação. Cerca de 7,8 milhões de mulheres viviam sem cônjuge e com filhos, correspondendo a 13,4% das famílias brasileiras. Entre os homens, em contrapartida, a configuração equivalente representava somente 2%. A monoparentalidade continua sendo, dessa forma, uma realidade predominantemente feminina.

A pesquisa do FGV IBRE utiliza um conceito mais amplo de mãe solo, considerando mulheres que são pessoas de referência do domicílio, possuem filhos e não contam com cônjuge. Nesse universo, 72,4% moravam somente com seus descendentes. Grande parte delas, consequentemente, não tinha parentes ou outros agregados dentro de casa capazes de compartilhar rotineiramente os cuidados.

A desigualdade também possui um forte componente racial. Entre 2012 e 2022, o número de mães solo negras passou de aproximadamente 5,4 milhões para 6,9 milhões. Segundo a análise da FGV, cerca de 90% do aumento observado na década ocorreu entre mulheres negras. Compreender a maternidade solo brasileira exige, por conseguinte, considerar simultaneamente gênero, renda, raça, escolaridade e oportunidades profissionais.

Dados de 2024 mostram vulnerabilidade econômica

Informações ainda mais recentes aparecem no Relatório Anual Socioeconômico da Mulher 2026, elaborado pelo Ministério das Mulheres. Com base na PNAD Contínua, o documento mostra que, em 2024, quase 5 milhões de mulheres responsáveis pelo domicílio viviam sem cônjuge e tinham filhos de até 14 anos. Trata-se, porém, de um recorte mais restrito do que aquele utilizado pela FGV e, por isso, os números não são diretamente comparáveis.

Entre essas mulheres com filhos menores de 14 anos, 68,6% eram pretas ou pardas. Além disso, 57,4% viviam em domicílios com rendimento mensal per capita de até meio salário mínimo. A responsabilidade parental aparece, desse modo, frequentemente associada à vulnerabilidade econômica, tornando despesas com alimentação, moradia, transporte, educação e saúde especialmente pesadas para uma única provedora.

O mercado de trabalho amplia essa pressão. Dados da FGV mostraram que, entre mães solo de 15 a 60 anos, 29,4% estavam fora da força de trabalho, enquanto 7,2% estavam desempregadas. Quando havia filhos de até cinco anos, entretanto, 32,4% estavam fora da força de trabalho e 10% permaneciam desempregadas. Entre mães solo negras com crianças pequenas, por sua vez, os percentuais alcançavam 34,6% e 11,6%, respectivamente.

O trabalho invisível de quem cuida

A expressão “Mai” também ganha sentido quando se observa a distribuição das tarefas domésticas. Em 2022, segundo indicadores de gênero do IBGE, as mulheres dedicavam em média 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Os homens destinavam 11,7 horas às mesmas atividades. A diferença chegava, em outras palavras, a 9,6 horas semanais.

Para uma mulher sem companheiro que compartilhe responsabilidades, essa carga pode se somar à jornada profissional. Ela precisa administrar horários escolares, consultas médicas, alimentação, limpeza, orçamento doméstico e inúmeras decisões cotidianas. Precisa, simultaneamente, gerar renda. A disponibilidade de creches, escolas em período adequado e redes comunitárias de apoio interfere, por essa razão, diretamente em sua possibilidade de trabalhar.

Um documento recente do governo federal sobre políticas de cuidado reforça essa conexão. Mais de 30% das mulheres que interromperam a procura por emprego indicaram o trabalho doméstico e de cuidados como principal razão, contra apenas 3% dos homens. Entre mães de crianças de zero a três anos fora do mercado, ademais, mais de 80% não conseguiam procurar emprego ou estar disponíveis para trabalhar devido às responsabilidades de cuidado.

A ausência paterna também aparece nos cartórios

Outro indicador ajuda a dimensionar uma parcela específica do problema. Dados dos Cartórios de Registro Civil mostram que 162.530 crianças foram registradas sem o nome do pai em 2024. Evidentemente, ausência do nome paterno na certidão não equivale automaticamente à maternidade solo, assim como uma paternidade registrada não garante participação financeira, afetiva ou cotidiana. Ainda assim, o número evidencia, sob outra perspectiva, a dimensão da ausência de reconhecimento paterno formal.

Entre janeiro de 2016 e julho de 2024, mais de 1,2 milhão de crianças brasileiras foram registradas somente com o nome da mãe. Nesse período, ocorreram aproximadamente 23,1 milhões de nascimentos. Milhares de mulheres, por consequência, iniciaram a maternidade sem sequer contar, naquele momento, com o reconhecimento formal da paternidade de seus filhos.

O problema ultrapassa a certidão. Paternidade envolve presença, cuidado, responsabilidade financeira, educação e participação nas decisões. Existem mães que possuem o nome do pai dos filhos nos documentos, recebem alguma pensão e, apesar disso, concentram quase toda a chamada carga mental familiar. A maternidade solo, nesse contexto, não pode ser compreendida exclusivamente pelas estatísticas registrais.

Políticas públicas começam a reconhecer o cuidado

O Brasil avançou institucionalmente ao sancionar, em dezembro de 2024, a Lei nº 15.069, que instituiu a Política Nacional de Cuidados. A legislação reconhece o cuidado como questão de interesse público e estabelece, entre outros aspectos, a corresponsabilidade entre homens e mulheres, famílias, Estado, setor privado e sociedade civil.

Esse reconhecimento importa porque políticas de creche, educação integral, qualificação profissional, assistência social e inclusão produtiva podem reduzir obstáculos enfrentados pelas mães solo. Medidas capazes de tornar efetivas as responsabilidades paternas ajudam, além do mais, a impedir que toda a estrutura material e emocional da criação permaneça concentrada sobre uma única pessoa.

Ser “Mai”, afinal, pode representar força, capacidade de adaptação e profundo compromisso com os filhos. Romantizar essa condição, todavia, esconderia uma desigualdade concreta. Milhões de brasileiras não acumulam funções porque escolheram desempenhar dois papéis, mas porque frequentemente faltou alguém para dividir responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Os números recentes mostram, em síntese, que reconhecer essas mulheres significa também discutir renda, trabalho, cuidado, paternidade responsável e políticas públicas capazes de fazer com que nenhuma mãe precise sustentar sozinha todo o peso de uma família.

Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa