“Ter e Não Ter”: o retrato das oportunidades no Brasil segundo a OCDE
O relatório “To Have and Have Not: How to Bridge the Gap in Opportunities”, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lança um olhar atento sobre como as oportunidades são distribuídas nas sociedades modernas.
A análise traz uma contribuição valiosa para a formulação de políticas públicas, especialmente em países como o Brasil, onde as desigualdades históricas e regionais ainda moldam o destino de milhões de pessoas.
O Brasil e o desafio das oportunidades desiguais
A OCDE aponta que, em grande parte do mundo, as condições de nascimento — como renda familiar, educação dos pais, gênero e local de moradia — continuam a determinar o acesso a oportunidades. No Brasil, esse cenário é ainda mais evidente.
Mesmo com avanços em inclusão social nas últimas décadas, fatores estruturais mantêm a desigualdade elevada, limitando a mobilidade social.
Segundo o relatório, não basta medir desigualdade apenas pelos resultados, como renda ou escolaridade.
É essencial observar as “circunstâncias herdadas”, que fogem ao controle individual. No caso brasileiro, essas circunstâncias se entrelaçam com um histórico de concentração de renda, diferenças regionais marcantes e um sistema educacional desigual, onde o CEP e a cor da pele ainda influenciam o futuro das pessoas.
Educação e localidade: os pilares da mobilidade social
A OCDE enfatiza que a educação é o principal instrumento de equilíbrio entre as oportunidades. Contudo, o Brasil enfrenta grandes disparidades educacionais.
Escolas públicas de periferias e áreas rurais, por exemplo, têm menos acesso a tecnologia, infraestrutura e professores qualificados do que instituições privadas nos grandes centros.
De acordo com o relatório, países que investem em educação inclusiva desde a infância conseguem reduzir a influência das condições de origem na trajetória dos cidadãos. Por isso, o fortalecimento da educação infantil e a valorização dos profissionais da área são estratégias prioritárias.
Além disso, o relatório ressalta o papel da localidade: morar em uma região com baixo acesso a transporte, saúde e emprego limita não apenas a renda, mas também as perspectivas de desenvolvimento pessoal.
No Brasil, estados do Norte e Nordeste apresentam os maiores índices de vulnerabilidade, o que reforça a necessidade de políticas regionais específicas.
Oportunidades no Brasil
Trabalho, tecnologia e novas desigualdades
O avanço da tecnologia também trouxe um novo tipo de desigualdade. A digitalização do trabalho ampliou oportunidades para alguns, mas excluiu outros que não possuem acesso à internet de qualidade ou formação digital.
A OCDE recomenda que o Brasil invista em capacitação tecnológica e requalificação profissional, especialmente para adultos em transição de carreira, garantindo que as transformações do mercado de trabalho não aprofundem as exclusões já existentes.
Políticas públicas integradas e ações prioritárias
Para reduzir as lacunas de oportunidade, o relatório defende políticas interligadas e sustentadas ao longo do tempo. No contexto brasileiro, isso significa:
- Expandir o acesso à educação infantil, especialmente em comunidades vulneráveis;
- Melhorar a infraestrutura e a qualidade do ensino público, garantindo oportunidades reais de aprendizado;
- Aprimorar o acesso ao emprego formal e à requalificação profissional, reduzindo a informalidade;
- Promover o desenvolvimento regional equilibrado, assegurando serviços básicos de saúde, transporte e saneamento em todo o território;
- Monitorar dados sobre desigualdade de oportunidades, fortalecendo a base de evidências para novas políticas.
Essas medidas, integradas, podem reduzir o peso das circunstâncias iniciais na vida de cada indivíduo e criar um ciclo de mobilidade social mais justo.

Caminhos para um futuro mais equitativo
O relatório “Ter e Não Ter” reforça que promover igualdade de oportunidades não é apenas uma questão econômica, mas também moral e social.
No Brasil, investir em políticas que garantam acesso equitativo à educação, saúde e trabalho é investir em desenvolvimento sustentável.
A mensagem da OCDE é clara: quando as oportunidades são distribuídas de forma justa, a sociedade como um todo prospera. O desafio está em transformar o potencial humano brasileiro em realidade, superando as barreiras estruturais que ainda limitam o progresso.
Com planejamento, investimento contínuo e comprometimento coletivo, o Brasil pode reduzir as distâncias entre o “ter” e o “não ter”, abrindo caminho para um futuro mais inclusivo, equilibrado e humano.
Por Agnes Adusumilli

