Sérgio Albuquerque transforma Brasília em poesia, batuque e memória
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Sérgio Farias de Albuquerque carrega Brasília dentro da própria linguagem. Economista, cientista da informação, consultor e poeta, ele construiu uma trajetória onde a observação cotidiana se mistura à musicalidade, à cultura popular e à reflexão social. Além disso, suas lembranças da capital federal aparecem convertidas em versos rimados, métricas precisas e imagens carregadas de afeto.
Morador de Brasília desde menino, Sérgio viveu uma cidade muito diferente da atual. Jogou futebol no gramado das quadras, andou de bicicleta no eixão quase vazio e soltou pipa nos balões residenciais quando ainda não existiam postes ocupando os espaços abertos. Entretanto, essas experiências não ficaram presas apenas à memória afetiva. Elas se transformaram em matéria-prima poética.
O escritor define sua criação como um movimento contínuo de observar, sentir e representar. Portanto, sua poesia nasce tanto da experiência íntima quanto da leitura crítica da sociedade. Meio ambiente, desigualdade social, cultura popular, música, economia, geopolítica e comportamento humano aparecem frequentemente combinados dentro da mesma composição literária.
Tabela de conteúdos
- Sérgio Albuquerque transforma Brasília em poesia, batuque e memória
- Infância brasiliense molda cenários poéticos
- Música, métricas e poesia caminham juntas
- A poesia como crônica da realidade brasileira
- Orquestra Alada muda trajetória artística do poeta
- Formação intelectual amplia visão artística e social
- Brasília afetiva inspira versos e manifestações culturais
- Cultura Alternativa Agradece
Infância brasiliense molda cenários poéticos
As lembranças da infância aparecem nos poemas de Sérgio como verdadeiros retratos emocionais de Brasília. Segundo ele, a memória funciona como um mecanismo capaz de resgatar detalhes específicos da cidade que ajudaram a formar sua sensibilidade artística. Dessa maneira, episódios aparentemente simples acabaram desenvolvendo sua capacidade de observação.
O poeta recorda, por exemplo, da figura de “Graminha”, fiscal da prefeitura que perseguia os meninos para impedir partidas de futebol nos gramados das quadras residenciais. Ao mesmo tempo, os balões das superquadras viravam espaço ideal para empinar pipas, já que ainda não existiam fios elétricos cortando o céu. O eixão dos anos 60 e 70 também funcionava como área de lazer para a juventude brasiliense.
Essas imagens ajudaram Sérgio Albuquerque a construir cenários poéticos fortemente ligados à identidade cultural da capital federal. Conforme explica, a imaginação trabalha sobre aquilo que a memória consegue preservar. Por isso, a mente treinada encontra mais facilidade para captar percepções e transformá-las em literatura.
Música, métricas e poesia caminham juntas
A relação entre música e poesia ocupa posição central na obra do escritor. Sérgio afirma que presta atenção constante às letras das canções, às sílabas tônicas e às estruturas melódicas. Consequentemente, muitos de seus poemas surgem praticamente como composições musicais.
O poeta revela que costuma criar letras para melodias instrumentais. Um dos exemplos citados por ele é “Sicilienne”, de Maria Theresia Von Paradis. Nesse exercício criativo, cada nota musical corresponde a uma sílaba do poema. Segundo Sérgio, ouvir a música enquanto declama os versos produz uma sensação extremamente prazerosa.
Além disso, ele demonstra admiração por artistas brasileiros que trabalham rimas e métricas de maneira sofisticada, como Zé Ramalho e Antonio Nóbrega. A prática constante da leitura investigativa permitiu ao escritor construir um amplo repertório de palavras rimadas. Assim, suas composições ganharam fluidez sonora e declamação melodiosa.
A poesia como crônica da realidade brasileira
Os poemas de Sérgio Albuquerque frequentemente funcionam como registros críticos do cotidiano. Questões sociais, ambientais e humanas aparecem lado a lado em composições que misturam análise e emoção. Dessa forma, a poesia se transforma em ferramenta de interpretação da realidade.
Um dos exemplos apresentados pelo escritor é o poema “Vento de Seca”, que descreve simultaneamente os efeitos climáticos da estiagem brasiliense e a sensação de solidão emocional. Enquanto o texto retrata alergias, baixa umidade e desconforto físico, também fala sobre uma “alma ressecada” em busca de companhia encantada.
Além disso, Sérgio utiliza a literatura como instrumento de conscientização social. Em “Desigualdades”, o poeta aborda temas como acesso precário à moradia, emprego, transporte e educação. Segundo ele, as expressões artísticas podem melhorar o mundo tanto pela beleza quanto pela capacidade de provocar reflexão crítica.
Orquestra Alada muda trajetória artística do poeta
A aproximação com a Orquestra Alada Trovão da Mata provocou profunda transformação na vida de Sérgio Albuquerque. O primeiro contato aconteceu durante uma feira literária em Brasília. Na ocasião, o poeta ouviu os tambores da apresentação e imediatamente correu para descobrir de onde vinha aquele som que descreve como “visceral”.
Depois disso, Sérgio pesquisou sobre o grupo e encontrou o livro do “Mito do Calango Voador”. A leitura despertou fascínio imediato. Posteriormente, vieram dois anos de oficinas de poesia e percussão, período em que acompanhou apresentações da Orquestra sempre com enorme admiração.
O envolvimento cresceu até o convite para participar dos ensaios. Atualmente, Sérgio atua como batuqueiro tocando alfaia na marcação rítmica da Orquestra Alada. Segundo ele, a experiência produz sensação semelhante à de um menino brincando em parque de diversões. Além disso, o contato com a percussão modificou sua percepção sobre ritmo, métrica e liberdade estrutural dentro da poesia.
Formação intelectual amplia visão artística e social
A trajetória acadêmica de Sérgio Albuquerque também influenciou profundamente sua produção literária. Inicialmente estudante de Engenharia Mecânica na Universidade de Brasília, ele mudou completamente de direção após assistir, em 1981, a uma palestra sobre economia política ministrada por Cristóvão Buarque, Décio Garcia Munhoz e Paulo Tim.
Impactado pela amplitude das análises apresentadas, Sérgio procurou Cristóvão Buarque ao final do evento para perguntar como poderia adquirir aquele tipo de conhecimento interdisciplinar. A orientação recebida o levou ao curso de Ciências Econômicas da AEUDF. Dois anos depois, tornou-se economista formado, acumulando estudos em filosofia, sociologia e teoria econômica.
Posteriormente, aprofundou conhecimentos em programação, análise de sistemas e Ciência da Informação. Hoje trabalha com o conceito de Gestão Integrada da Informação e afirma viver permanentemente cercado por múltiplas fontes de mensagens e interpretações. Essa formação multidisciplinar aparece claramente em seus poemas, que transitam entre crítica social, sensibilidade humana e observação analítica.
Brasília afetiva inspira versos e manifestações culturais
Embora Brasília seja frequentemente associada apenas à política e à racionalidade administrativa, Sérgio Albuquerque enxerga uma cidade vibrante culturalmente. O poeta cita manifestações como a Orquestra Alada Trovão da Mata, o Clube do Choro, o projeto Música e Poesia para Todx, o Beirute, o Buraco do Jazz e grupos de pedal espalhados pela capital.
Além disso, ele relembra frase marcante do poeta Tetê Catalão: “Se você não gosta dessa cidade, não se mude dela, mude ela”. Para Sérgio, Brasília reúne enorme diversidade artística e afetiva capaz de desmontar qualquer visão limitada sobre a capital federal.
Nos últimos anos, outra paixão passou a ocupar espaço importante em sua vida: a música erudita. Associado ao ECAI, o escritor mergulhou no estudo dos contextos históricos que deram origem às obras de Bach, Mozart e Vivaldi. Segundo ele, compreender os cenários dessas composições amplia a capacidade de interpretar épocas, culturas e comportamentos humanos.

Cultura Alternativa Agradece
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Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

