Quintana Gastronomia une sabores, cultura e sustentabilidade
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Quintana Gastronomia nasceu em Curitiba com uma proposta que ultrapassa a cozinha convencional: aproximar alimentação, sustentabilidade e cultura. Instalado no Batel, o restaurante comandado pela chef Gabriela Vilar de Carvalho completa 18 anos em 2026 e desenvolveu, ao longo desse período, uma identidade baseada em produtos orgânicos, fornecedores locais, aproveitamento dos alimentos e referências culturais brasileiras.
A casa funciona na Avenida do Batel, 1440, em um antigo solar e mantém a gastronomia como um de seus três pilares, ao lado das vertentes ecológica e cultural. No cardápio, essa filosofia aparece explicitamente na definição “Eco, Gastronomia, Cultural”, enquanto a cozinha se apresenta como atual, saudável e aberta a ingredientes e inspirações de diferentes culturas. A proposta, nesse sentido, procura estabelecer uma conexão entre o que chega ao prato e a origem de cada matéria-prima.
A ideia ganha materialidade na procedência dos insumos. O restaurante informa que trabalha com verduras orgânicas da Lapa, feijões de Palmeira, melado orgânico de Cerro Azul, ovos caipiras da Lapa, erva-mate de São Mateus do Sul e mel de abelhas sem ferrão de Mandirituba, entre outros fornecedores. Dessa maneira, o discurso de valorização territorial se transforma, efetivamente, em uma cadeia de abastecimento conectada ao Paraná.
Tabela de conteúdos
Uma história iniciada em 2008
A história começou oficialmente em 10 de julho de 2008. Antes disso, o imóvel abrigava o Txai, projeto ligado à valorização de comunidades nativas e da produção orgânica. Naquele período, Gabriela trabalhava em parceria com Rogério Pereira, criador do jornal literário Rascunho, na busca por um espaço destinado a um café literário. Quando o imóvel ficou disponível, surgiu, então, a oportunidade de reunir cozinha e literatura.
O nome homenageia o poeta gaúcho Mario Quintana. Segundo o relato histórico do estabelecimento, Pereira costumava presentear amigos com livros e uma obra do escritor foi o primeiro livro que Gabriela recebeu dele. Além disso, o poeta também fazia parte das referências literárias de seu avô. Assim, o projeto inicialmente concebido como encontro entre café, gastronomia e literatura ganhou, gradualmente, identidade própria.
A trajetória profissional da fundadora ajuda, por sua vez, a compreender a cozinha. Gabriela percebeu aos 15 anos seu interesse pelo ato de cozinhar e servir, formou-se em hotelaria e passou cerca de dez anos fora do Brasil, vivendo e trabalhando em países como China, Suíça e Estados Unidos, além de outros destinos europeus. Depois do retorno, entretanto, atuou como consultora de pequenos restaurantes e aproximou-se dos produtores das feiras orgânicas curitibanas.
Gastronomia conectada ao território
O cardápio à la carte revela uma cozinha de repertório amplo. Entre as preparações está o carpaccio de abobrinha com girassol tostado e molho de pólen e mel de abelha sem ferrão. Também aparecem peixe fresco da estação grelhado, servido com salada orgânica, risoto ou massa, além de filé bovino grelhado com os mesmos acompanhamentos. Nesse sentido, vegetais e produtos sazonais não funcionam apenas como elementos secundários.
Outra alternativa é o risoto de açafrão-da-terra orgânico e castanhas. Já a massa italiana de grano duro recebe molho de tomates e manjericão, acompanhada de parmesão. O restaurante informa, além disso, que oferece alternativas veganas, sem lactose e sem glúten mediante solicitação. Consequentemente, a cozinha amplia as possibilidades para diferentes escolhas e necessidades alimentares.
A utilização de ingredientes frescos disponíveis no dia reforça, paralelamente, o caráter sazonal da proposta. Essa abordagem acompanha uma filosofia mantida desde a fundação: Gabriela identificou que produtores orgânicos da região metropolitana comercializavam diretamente com consumidores, porém tinham participação limitada no fornecimento para restaurantes. O Quintana nasceu, portanto, também com a intenção de aproximar esses diferentes elos.
Filé Sônia Aksamitas e a Boa Lembrança
Um dos principais destaques de 2026 é o Filé Sônia Aksamitas, criação de Gabriela para a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança. O prato combina escalopes de filé mignon grelhados, molho cremoso de mostardas e arroz com amêndoas. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma preparação vinculada à participação anual do Quintana na associação gastronômica.
A receita trabalha com três variedades de mostarda: Dijon, Ancienne e amarela. O molho incorpora ainda nata fresca, manteiga, cebolinha e conhaque, enquanto as amêndoas tostadas complementam o arroz. Desse modo, a construção reúne acidez, cremosidade e notas tostadas em torno da carne grelhada, estabelecendo diferentes camadas de sabor na mesma composição.
O nome carrega igualmente uma dimensão afetiva. Sônia é mãe de Gabriela Carvalho e representa uma referência familiar na cozinha. A criação de 2026 prolonga, por conseguinte, uma coleção iniciada pelo restaurante em 2013, que já abordou ingredientes e preparações como barreado, cordeiro, quirera, feijões, porco, panceta e diferentes produtos paranaenses.
Confeitaria e cafés especiais
A confeitaria constitui outro segmento relevante. A Torta de Cacau Quintana utiliza cacau 100%, lâminas de caramelo, ganache, doce de leite e chocolate meio amargo. Enquanto isso, o Manjar Quintana Amado combina creme de coco fresco e compota de ameixas. Ambas as preparações estabelecem, de maneiras diferentes, uma ligação com sabores presentes na tradição brasileira.
O cardápio apresenta ainda brownie de chocolate e avelã, cheesecake de chocolate branco com compota de frutas vermelhas, pudim de leite, trufa de chocolate e whisky, creme de queijo com goiabada, palha italiana e strudel de maçã com creme de baunilha. Paralelamente, há um docinho de castanhas e frutas secas vegano, sem glúten e sem açúcar, reforçando a diversidade da confeitaria.
Nos cafés, a seleção passa pelo coado individual, espresso, carioca, ristretto, macchiato, doppio, latte e cappuccino. Entretanto, uma preparação carrega diretamente a identidade da casa: o Cappuccino Quintana, feito com espresso e chocolate meio amargo. O estabelecimento utiliza, ainda, cafés da Orfeu, de Minas Gerais, conforme informa sua relação de produtores e fornecedores.
Sucos, chás e ingredientes brasileiros
As bebidas não alcoólicas seguem a mesma lógica de combinações naturais. Um dos sucos especiais reúne laranja, maracujá e gengibre frescos com toque de mel. Outro utiliza abacaxi, erva-doce e gengibre, finalizados com melado orgânico. Há também, entre outras possibilidades, tangerina pura ou com clorofila e uva pura ou combinada com hibisco e especiarias.
Entre as polpas brasileiras aparecem morango, caju, cajá, acerola, graviola, frutas vermelhas, cupuaçu e amora. Além disso, o menu oferece suco de uva Bordô orgânico produzido na Lapa. Assim, frutas tropicais e matérias-primas regionais ocupam espaço relevante na carta de bebidas e, simultaneamente, ampliam a presença de produtos brasileiros na experiência gastronômica.
Os chás gelados seguem caminho semelhante. A composição de hibisco e especiarias incorpora anis-estrelado, canela em rama, cardamomo, noz-moscada e cravo. Outra alternativa mistura mate orgânico batido com limão. A casa oferece ainda kombucha em sabores sazonais e, dessa forma, inclui bebidas fermentadas entre as possibilidades apresentadas ao público.
Sustentabilidade levada à cozinha
A sustentabilidade aparece na operação cotidiana. O Quintana realiza compostagem dos resíduos orgânicos dentro do próprio estabelecimento e transforma esse material em adubo utilizado na horta. O espaço também mantém colmeias de abelhas nativas sem ferrão. Portanto, parte da relação entre gastronomia e meio ambiente pode ser percebida no próprio funcionamento da casa.
A estrutura adota ainda separação de resíduos, reciclagem de materiais e reaproveitamento de diferentes recursos. Há também captação de água da chuva para determinadas utilizações no imóvel. Dessa maneira, práticas ambientais deixam de constituir somente comunicação institucional e integram, efetivamente, diferentes etapas da atividade desenvolvida pelo restaurante.
Esse modelo recebeu reconhecimento ao longo da trajetória da empresa. Gabriela conquistou o segundo lugar na categoria Empresa de Pequeno Porte do Prêmio Empreendedora 2025, promovido em Curitiba. Além disso, a longevidade do empreendimento evidencia a continuidade de um conceito construído em torno da alimentação, da responsabilidade ambiental e da valorização de produtores.

Cultura à mesa
Mario Quintana permanece presente não somente no nome. A casa mantém livros disponíveis em sua biblioteca, promove exposições e incorpora manifestações culturais ao ambiente. Dessa forma, a literatura que participou da origem do empreendimento continua inserida no cotidiano do restaurante e, simultaneamente, estabelece uma conexão entre a experiência gastronômica e outras formas de expressão.
A filosofia é sintetizada pela expressão Ecogastronomia Cultural, construída sobre três eixos que se complementam. A gastronomia trabalha ingredientes e técnicas; a sustentabilidade aproxima produtores e práticas ambientais; a cultura cria conexões com literatura, artes e referências brasileiras. Ao longo de 18 anos, portanto, esses elementos formaram uma identidade particular dentro da cena gastronômica curitibana.
O Quintana Gastronomia chega a 2026 mantendo o endereço onde iniciou sua trajetória e atualizando sua cozinha sem abandonar a origem. Entre filé mignon com mostardas, vegetais orgânicos, castanhas, frutas brasileiras, cafés, cacau, mel e produtos paranaenses, o restaurante constrói, enfim, uma gastronomia na qual procedência e preparo caminham juntos. Mais do que definir um estilo culinário fechado, a casa estabelece uma relação entre alimento, território, sustentabilidade e cultura.
Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

