IA médica em português: a inteligência artificial entende o brasileiro quando ele fala de saúde?
Você pergunta a uma inteligência artificial: “Estou com uma gastura, moleza e um aperto no peito”. O sistema compreende exatamente o que você quis dizer?
E se a pessoa escrever com erros, usar expressões regionais ou explicar os sintomas de maneira simples, sem conhecer termos médicos?
Essas perguntas ganham importância à medida que ferramentas digitais passam a responder dúvidas sobre doenças, medicamentos, exames e sintomas.
O problema é que uma IA médica em português pode não apresentar o mesmo desempenho observado em inglês.
Um debate publicado recentemente na revista npj Digital Medicine, do grupo Nature, chama atenção para a chamada justiça linguística.
Em saúde, compreender palavras não basta. É preciso interpretar contexto, cultura e diferentes formas de expressão.
Comece por aqui
- A IA médica em português enfrenta desafios de compreensão devido a erros de escrita, expressões regionais e falta de contexto cultural.
- Estudos mostram que modelos de IA têm desempenho inferior em português comparado ao inglês, ressaltando a desigualdade linguística.
- A diversidade linguística no Brasil, com suas 295 línguas indígenas, demanda tecnologia de saúde que reflita essa variedade.
- Pesquisadores defendem que a implementação da IA no SUS deve considerar a equidade e a inclusão de diversas vozes nos testes.
- Entender o português falado no Brasil é essencial para que a IA médica realmente beneficie quem mais precisa.
IA médica em português
Modelos funcionam melhor em alguns idiomas
A desigualdade linguística já aparece em pesquisas internacionais.
Um estudo publicado em 2026 na npj Digital Medicine avaliou diferentes modelos em tarefas clínicas multilíngues e encontrou variações significativas de desempenho entre os idiomas. Em geral, os sistemas avaliados tiveram seus melhores resultados em inglês.
Além disso, outra pesquisa da mesma publicação alertou que ainda faltam metodologias consolidadas para avaliar a precisão de ferramentas de interpretação por IA em situações clínicas.
Os pesquisadores defendem testes considerando idioma, cultura, compreensão do paciente e riscos envolvidos.
Portanto, traduzir uma resposta não significa necessariamente compreender o usuário.
Português brasileiro precisa ser testado no Brasil
Já existem avaliações envolvendo medicina em português. Um estudo analisou modelos de linguagem em 148 questões de uma prova portuguesa de acesso à residência médica e encontrou diferenças de precisão entre os sistemas avaliados. Entretanto, responder questões formais é muito diferente de conversar com um paciente brasileiro.
No cotidiano, alguém pode dizer que está “zonzo”, “com gastura”, “quebrado”, “com o peito chiando” ou “com uma dor que vai e volta”. Além disso, sotaques influenciam sistemas que transformam voz em texto. Pesquisa publicada também na npj Digital Medicine identificou erros associados a diferentes sotaques em transcrições clínicas, mostrando que essa dimensão precisa entrar nos testes.
A questão se torna ainda mais relevante quando a tecnologia atende pessoas com menor escolaridade, dificuldades de escrita ou baixo letramento em saúde.
IA médica em português
Diversidade brasileira vai muito além do português
O Brasil não possui uma realidade linguística homogênea. Segundo o Censo 2022, o país registrou 295 línguas indígenas, faladas ou utilizadas por indígenas nos domicílios. Em Brasília, por exemplo, foram declaradas 60 línguas indígenas.
Há ainda Libras, diferenças regionais, sotaques, vocabulários locais e maneiras distintas de descrever o próprio corpo.
Consequentemente, desenvolver uma tecnologia destinada à saúde brasileira exige bancos de dados e avaliações que representem essa diversidade.
Quem deve testar a IA antes do paciente?
Essa talvez seja a questão central.
Pesquisadores brasileiros já defendem que a incorporação da inteligência artificial ao SUS considere equidade, justiça algorítmica, desigualdades regionais, letramento digital e supervisão adequada.
Um estudo publicado em 2026 na Revista Brasileira de Epidemiologia lembra que a IA não é neutra e pode reproduzir desigualdades existentes.
Assim, médicos e engenheiros não deveriam trabalhar sozinhos. Linguistas, profissionais de comunicação em saúde, especialistas em acessibilidade e, principalmente, pacientes de diferentes regiões e contextos sociais precisam participar dos testes.

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IA médica em português
Entender português não significa entender o brasileiro
A inteligência artificial pode se tornar uma aliada importante na saúde. Porém, sua qualidade não deve ser medida somente pelo desempenho em bases internacionais ou por respostas produzidas em inglês.
Uma IA médica em português precisa compreender o português realmente falado no país, inclusive seus sotaques, regionalismos, erros, abreviações e diferentes níveis de escolaridade.
Caso contrário, surge um paradoxo: uma tecnologia criada para ampliar o acesso à informação pode justamente compreender pior quem mais precisa dela.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes principais: npj Digital Medicine/Nature, IBGE, Revista Brasileira de Epidemiologia, SciELO e estudos acadêmicos sobre modelos de linguagem aplicados à medicina.
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