Arte & Letra - Cultura Alternativa

Arte & Letra celebra 20 anos entre livros, café e criação

Arte & Letra celebra 20 anos entre livros, café e criação

Tempo de Leitura – 10 minutos

Arte & Letra celebra 20 anos em Curitiba consolidada como um espaço no qual publicação, livraria, cafeteria e laboratório gráfico convivem em torno dos livros.

Em agosto de 2026, o Cultura Alternativa visitou a casa e entrevistou Frede Tizzot, um dos proprietários, para conhecer a trajetória construída com o irmão Thiago Tizzot e compreender como uma iniciativa independente conseguiu, ao longo do tempo, atravessar duas décadas de profundas transformações no mercado editorial.

A história começou antes da abertura da loja. Tizzot contou que o selo surgiu há aproximadamente 23 anos, inicialmente sem grandes pretensões comerciais.

Designer gráfico e ilustrador, ele começou publicando trabalhos acadêmicos e, posteriormente, interessou-se especialmente pela dimensão visual das obras. Thiago, publicitário, escritor e ligado à redação, juntou-se ao projeto. Assim, enquanto um se concentrou na concepção gráfica, o outro assumiu progressivamente a atividade editorial e a curadoria do acervo.

A livraria nasceu em 2006 dentro de uma cafeteria e ocupava inicialmente apenas duas paredes. Posteriormente, o empreendimento conquistou espaço próprio e incorporou o café à operação. A própria empresa define atualmente sua estrutura como um “ecossistema”, justamente porque reúne seleção de originais, contato direto com leitores, comércio de rua e produção artesanal em um mesmo projeto.

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Uma livraria de rua que virou ponto cultural

A decisão de apostar numa loja física ocorreu justamente quando grandes redes ganhavam espaço e muitos estabelecimentos tradicionais desapareciam das ruas.

O entrevistado explicou ao Cultura Alternativa que os irmãos escolheram o caminho contrário: queriam um ambiente onde escritores, leitores e artistas pudessem permanecer, conversar e desenvolver projetos. Com efeito, diversas ideias posteriormente transformadas em publicações nasceram, segundo ele, nas mesas da cafeteria.

Essa vocação permanece na sede da Rua Desembargador Motta, 2011. O endereço reúne acervo literário, produção editorial, café e laboratório gráfico. Além disso, a programação ultrapassa a literatura e inclui encontros relacionados à música, artes e gastronomia.

O espaço funciona de segunda-feira a sábado, das 10h às 19h, segundo informações atuais da empresa e, por sua vez, dispõe de jardim, mesas externas, wi-fi, acessibilidade e estrutura pet friendly.

O estabelecimento também se relaciona com a memória literária curitibana. Autores como Dalton Trevisan, Paulo Leminski e outros escritores projetaram nacionalmente a produção da cidade, embora Curitiba nem sempre tenha contado com uma indústria do livro proporcional à força de seus autores. Nesse contexto, iniciativas independentes contribuíram, portanto, para criar canais locais de publicação e circulação.

Produção local conectada ao mundo

A valorização da literatura paranaense tornou-se um dos eixos da casa. Atualmente, o selo declara buscar escritores com voz própria, experiências e territórios particulares. Entretanto, essa atenção ao cenário regional não significa isolamento. Durante a conversa, o designer relatou que o catálogo incorpora traduções e, ao mesmo tempo, estabelece relações com criadores estrangeiros, sobretudo latino-americanos.

Na entrevista, foram citados projetos envolvendo versões do espanhol, francês, holandês e inglês. Da mesma forma, apareceram exemplos de escritores uruguaios e argentinos que participaram de atividades em Curitiba. A estratégia combina, portanto, identidade regional e circulação internacional, preservando as raízes do empreendimento enquanto amplia suas conexões.

A marca também mantém presença nacional. Seu site relaciona dezenas de livrarias parceiras em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Florianópolis, Goiânia e Maceió, além de diversos pontos no Paraná. Paralelamente, distribuidores ajudam a colocar os títulos em diferentes mercados brasileiros e, consequentemente, ampliam o alcance das obras lançadas.

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Livro artesanal como identidade

Uma das características mais particulares do empreendimento está no Laboratório Gráfico. Em vez de considerar a publicação somente um suporte para o texto, a equipe trabalha papel, capa, textura, formato, costura e encadernação como componentes da experiência literária. Dessa maneira, parte da produção preserva procedimentos manuais em plena expansão da leitura digital e da automação.

Essa filosofia ganhou uma experiência concreta em janeiro de 2026. A casa promoveu um evento no qual leitores puderam escolher características de determinados títulos e acompanhar sua fabricação. Os exemplares personalizados eram montados artesanalmente e, inclusive, passavam por uma prensa de ferro antes da entrega. O laboratório, visível ao público, permitia observar o nascimento físico de cada volume.

O modelo também possibilita trabalhar com quantidades menores. Reportagem publicada em 2025 registrou que as tiragens costumavam ficar entre 150 e 200 exemplares, permitindo novas impressões conforme a procura. Consequentemente, essa lógica reduz a necessidade de grandes estoques e, ao mesmo tempo, aproxima produção, demanda e experimentação gráfica.

A casa assume o risco das obras selecionadas

Outro aspecto abordado pelo Cultura Alternativa foi a relação financeira com os escritores. O sócio explicou que a empresa prefere o modelo tradicional do setor. A equipe seleciona a obra, adquire os direitos, assume os custos de publicação e, posteriormente, trabalha comercialmente o lançamento. Portanto, não estrutura seu catálogo prioritariamente pela cobrança para que o próprio autor financie sua edição.

Os manuscritos passam pela avaliação dos irmãos e podem ser analisados por integrantes de um conselho editorial. Atualmente, inclusive, existe no site um canal para recebimento de originais. A proposta declarada é selecionar trabalhos nos quais seus responsáveis acreditam como profissionais do livro e, sobretudo, também como leitores.

Ao mesmo tempo, a comercialização preserva forte componente presencial. O entrevistado afirmou que a loja virtual concentra principalmente títulos do próprio selo, enquanto o estabelecimento físico trabalha com obras provenientes de diversas casas publicadoras. A distribuição também alcança outros pontos comerciais e, dessa forma, plataformas digitais complementam a presença nas ruas.

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Inteligência artificial desafia o processo criativo

A inteligência artificial ocupou parte importante da conversa. Frede evita tanto uma visão apocalíptica quanto uma adesão irrestrita à tecnologia. Para ele, a IA deve ser compreendida como ferramenta. Contudo, sua principal preocupação está menos no resultado produzido pela máquina e, principalmente, mais na eventual perda do processo necessário para chegar até ele.

No design, essa diferença torna-se evidente. Criar envolve enfrentar a página vazia, testar soluções, errar, desenhar, refazer e desenvolver repertório. Uma ferramenta generativa pode, por outro lado, reduzir drasticamente esse percurso. Ainda assim, paradoxalmente, o domínio das técnicas tradicionais continua valorizado. O profissional contou ter recebido proposta de uma plataforma internacional interessada em pessoas capazes de produzir entre 50 e 70 capas mensais inicialmente, com possibilidade de ultrapassar uma centena, utilizando recursos automatizados.

A companhia, porém, procurava ilustradores que soubessem trabalhar sem inteligência artificial. Para o designer, aí está uma indicação relevante para estudantes e novos profissionais: é necessário aprender composição, ilustração e fundamentos visuais antes de depender da automação. Ao mesmo tempo, ignorar essa tecnologia também não parece razoável, porque ela tende, cada vez mais, a integrar o cotidiano profissional.

Futuro preserva presença física e encontros

Os 20 anos não foram construídos sem tentativas e recuos. O negócio chegou a operar outras unidades, teve espaços exclusivamente dedicados aos livros ou ao café e manteve uma operação na Biblioteca Pública do Paraná. A pandemia também levou ao fechamento de uma loja. Além disso, surgiram propostas de expansão para shopping centers e até possibilidades de franquia, mas os responsáveis decidiram preservar seu modelo.

Porém, nenhuma dessas alternativas substituiu aquilo que os irmãos consideram essencial. A iniciativa continua baseada na proximidade entre publicações, leitores, escritores, cafeteria e produção gráfica. Nesse sentido, crescer não significa necessariamente multiplicar endereços. Pode significar, em contrapartida, ampliar a rede cultural sem perder a escala humana.

A terceira edição da Feira Literária de Curitiba, a FliCu, realizada em 2026, ilustra essa direção. Organizada com participação da Arte & Letra, a iniciativa procura divulgar literatura paranaense e aproximar escritores, ilustradores, revisores, editores, pesquisadores, livreiros e tradutores. Dessa forma, o projeto amplia sua atuação e, simultaneamente, mantém Curitiba como centro de sua identidade.

Cultura Alternativa encontra resistência cultural

A visita do Cultura Alternativa terminou com emoção. Para Anand Rao, integrante da geração marginal e da chamada geração mimeógrafo, encontrar um empreendimento independente produzindo exemplares artesanalmente despertou lembranças de uma época em que escritores imprimiam, distribuíam e vendiam diretamente suas obras em bares, ruas e pequenos espaços culturais. Nesse sentido, o encontro aproximou experiências separadas por diferentes gerações.

Ao final da entrevista, essa identificação transformou-se em música. Anand improvisou uma composição dedicada à casa curitibana, aos irmãos Tizzot, ao laboratório gráfico e às duas décadas da livraria. Foi, portanto, uma maneira espontânea de registrar aquilo que números empresariais dificilmente conseguem traduzir.

Depois de 20 anos, a Arte & Letra permanece pequena por escolha de escala, mas ampla em sua articulação cultural. Entre uma máquina de escrever, uma xícara de café, volumes costurados manualmente e discussões sobre inteligência artificial, o estabelecimento demonstra que tradição e tecnologia não precisam, necessariamente, ocupar lados opostos. Em Curitiba, afinal, elas podem compartilhar a mesma mesa.

Assista ao programa

A TV Cultura Alternativa apresenta a entrevista completa com Frede Tizzot, realizada dentro do espaço cultural curitibano. No programa, além da história do empreendimento, a conversa percorre literatura independente, mercado editorial, produção artesanal, design gráfico, inteligência artificial e os projetos para o futuro.

Assista ao programa pelo endereço:

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Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa