Cumprir um objetivo pode mudar o seu dia - Cultura Alternativa

Cumprir um objetivo pode mudar o seu dia

Cumprir um objetivo pode mudar o seu dia. Anand Rao reflete sobre procrastinação, pequenas conquistas e a importância de seguir em frente

Tempo de Leitura: 6 minutos

Cumprir um objetivo, mesmo que pequeno, pode modificar a maneira como encaramos o restante do dia. Essa é a reflexão apresentada por Anand Rao em novo programa do Cultura Alternativa. A partir de experiências pessoais, ele aborda procrastinação, disposição, relacionamentos e a satisfação provocada pela sensação de realizar algo que precisava ser feito.

A ideia surgiu de uma situação cotidiana vivida em Brasília. Em um domingo de clima muito seco, Anand percebeu que Agnes Adusso Mili, editora do Cultura Alternativa, parecia estressada. Ela decidiu sair para resolver uma questão pessoal em um shopping, enquanto ele permaneceu em casa trabalhando, produzindo conteúdos para o portal e cuidando de outras atividades da rotina.

Horas depois, Anand percebeu uma mudança. Agnes havia conseguido resolver aquilo que pretendia e, quando estava voltando para casa, perguntou se ele já havia tomado café. A conversa terminou com um coração azul enviado por mensagem. O episódio, então, despertou uma questão: até que ponto cumprir aquilo que planejamos interfere no nosso estado emocional?

Quando uma tarefa realizada produz satisfação

A experiência também aconteceu com o próprio apresentador. Anand pretendia gravar o programa pela manhã, mas outras atividades foram surgindo. Fez a barba, saiu para almoçar e somente durante a tarde conseguiu sentar-se diante da câmera para realizar aquilo que havia planejado.

A impossibilidade de gravar no momento inicialmente previsto provocou incômodo. A satisfação apareceu, entretanto, quando a tarefa finalmente foi realizada. Dessa experiência surgiu o tema do programa: “Cumprir um objetivo muda seu dia”.

A proposta não significa realizar imediatamente todas as tarefas. Anand defende, pelo contrário, que objetivos maiores possam ser divididos em etapas. Quando uma meta parece difícil, cumprir apenas uma parte já significa avançar. Se existem dez tarefas, realizar uma delas, portanto, representa uma pequena conquista concreta.

Procrastinação e emoções negativas

A literatura científica oferece evidências sobre a relação entre procrastinação e estado emocional. É necessário, contudo, interpretar corretamente os números apresentados. Os estudos científicos não demonstram que determinada porcentagem das pessoas automaticamente fica feliz quando cumpre um objetivo. Eles utilizam correlações, tamanhos de efeito e outros indicadores estatísticos.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychiatry reuniu pesquisas sobre procrastinação e emoções negativas. O trabalho encontrou uma associação moderada entre procrastinação e depressão, ansiedade e estresse. Os resultados reforçam, assim, a existência de uma relação relevante entre adiar tarefas e experimentar estados emocionais negativos.

A pesquisa reuniu dezenas de estudos e milhares de participantes de diferentes contextos. Os pesquisadores ressaltam, porém, que associação não significa necessariamente causalidade. A procrastinação pode contribuir para emoções negativas, ao mesmo tempo que ansiedade, estresse ou outros estados emocionais também podem favorecer o adiamento de tarefas.

Estresse e percepção da própria saúde

Outra pesquisa, publicada em 2026 no British Journal of Health Psychology, analisou 36 amostras e 8.603 participantes. O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores ligados à Durham University, no Reino Unido, e à Maynooth University, na Irlanda.

A procrastinação habitual apresentou associação com uma avaliação menos favorável da própria saúde. Os pesquisadores identificaram, além disso, que níveis mais elevados de estresse explicavam parte dessa relação. O estudo amplia, dessa forma, a discussão para além da simples produtividade.

Transformar constantemente atividades em pendências pode aumentar a pressão cotidiana. Uma tarefa adiada continua existindo e, consequentemente, pode permanecer ocupando espaço mental. Cumprir uma etapa não significa resolver todos os problemas, mas pode retirar uma pendência da lista e produzir uma percepção concreta de avanço.

É possível aprender a procrastinar menos

Uma terceira pesquisa, publicada em 2025 na revista Cognitive Behaviour Therapy, acompanhou 71 estudantes universitários com problemas de procrastinação. O estudo envolveu pesquisadores dos Países Baixos e da Suécia e avaliou uma intervenção baseada em terapia cognitivo-comportamental.

Os participantes submetidos à intervenção apresentaram uma redução significativa da procrastinação, com tamanho de efeito considerado grande. A autoeficácia também melhorou, embora o estudo não tenha encontrado mudança significativa no bem-estar geral. Esse resultado é importante para evitar uma conclusão exagerada de que deixar de procrastinar automaticamente produz felicidade.

A pesquisa demonstra, ainda assim, que comportamentos procrastinatórios podem ser modificados. Estratégias adequadas podem ajudar uma pessoa a enfrentar tarefas anteriormente adiadas e, com isso, aumentar sua capacidade de transformar intenção em ação.

Um objetivo de cada vez

A mensagem apresentada por Anand Rao é simples: não é necessário esperar por uma transformação extraordinária para começar. Arrumar algo pendente, terminar um texto, caminhar, telefonar para alguém ou resolver uma questão pessoal são ações aparentemente pequenas que, quando realizadas, representam movimento.

O próprio programa nasceu desse processo. A gravação deveria acontecer pela manhã e ocorreu somente à tarde. O planejamento inicial não foi cumprido integralmente, mas o objetivo principal foi alcançado. Mais importante do que executar uma agenda de maneira absolutamente rígida pode ser não abandonar aquilo que realmente importa.

“Você tem dez a cumprir? Cumpra um”, propõe Anand no encerramento. A ciência não permite afirmar que completar uma tarefa automaticamente tornará alguém feliz. As pesquisas mostram, por outro lado, relações consistentes entre procrastinação, emoções negativas, estresse e percepção de saúde. Um objetivo cumprido pode não transformar a vida inteira, mas pode ser o movimento necessário para começar a mudar o dia.

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Fernando Araújo & Colaboradores
Cultura Alternativa