Exercícios de Gratidão - Cultura Alternativa

Gratidão melhora o bem-estar, mas ciência revela limites

Gratidão melhora o bem-estar, mas ciência revela limites

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Exercícios de gratidão podem produzir efeitos mensuráveis sobre o bem-estar, o humor e a maneira como as pessoas enxergam a própria vida. Uma das maiores pesquisas internacionais já realizadas sobre o tema reuniu 10.696 participantes de 34 países e comparou seis práticas de agradecimento com três atividades de controle. O trabalho, publicado em maio de 2026 na revista científica PNAS, encontrou, além disso, melhora imediata nas emoções positivas, no otimismo e na satisfação com a vida.

A dimensão do estudo chama atenção porque boa parte das pesquisas anteriores sobre psicologia positiva utilizava amostras menores e concentradas em determinados países. Os pesquisadores recrutaram inicialmente 15.499 pessoas e chegaram, posteriormente, à amostra analisada de 10.696 participantes após aplicar os critérios metodológicos. No Brasil, 598 voluntários participaram do projeto, enquanto pesquisadores de diferentes instituições colaboraram para ampliar a diversidade cultural da investigação.

Os resultados, contudo, pedem uma interpretação equilibrada. A gratidão não apareceu como fórmula capaz de transformar radicalmente a existência de quem a pratica. Os efeitos variaram conforme o país, o exercício utilizado e o indicador psicológico avaliado. Ainda assim, a pesquisa acrescenta evidências importantes a uma área que investiga uma pergunta aparentemente simples: agradecer pode, de fato, modificar a maneira como experimentamos a vida?

O que aconteceu com mais de 10 mil participantes

Os voluntários realizaram práticas como escrever uma mensagem para alguém por quem sentiam gratidão, elaborar listas de coisas pelas quais eram agradecidos e refletir sobre experiências positivas. Os pesquisadores avaliaram, em seguida, indicadores relacionados ao estado emocional, às perspectivas sobre a vida e às relações sociais. Comparadas às tarefas de controle, as atividades produziram aumento das emoções positivas e redução das negativas.

A magnitude dos resultados ajuda, entretanto, a separar evidência científica de promessas exageradas. O efeito sobre emoções positivas alcançou d=0,37, enquanto o otimismo apresentou d=0,24. Para satisfação com a vida, o resultado foi mais discreto, d=0,12. Também houve redução das emoções negativas, d=-0,22, e da inveja, d=-0,16. Portanto, agradecer demonstrou capacidade de alterar determinados estados psicológicos, porém não com a mesma intensidade em todas as dimensões analisadas.

Outro aspecto relevante surgiu quando os cientistas compararam os países. As respostas não foram uniformes, indicando que contexto cultural e características da prática interferem nos resultados. Dessa forma, aquilo que funciona de maneira significativa em determinada sociedade pode provocar impacto menor em outra. Os próprios autores consideram, nesse sentido, que a melhora das emoções positivas constitui o resultado mais consistente quando uma intervenção é aplicada em diferentes contextos culturais.

A ciência já acumulava evidências sobre gratidão

O megastudo de 2026 não surgiu isoladamente. Uma meta-análise publicada em 2025 examinou 145 trabalhos, 163 amostras, 727 estimativas de efeito e 24.804 participantes de 28 países. Os pesquisadores encontraram, como resultado, aumento geral pequeno, porém estatisticamente significativo, do bem-estar após intervenções de gratidão, com tamanho de efeito Hedges’ g=0,19.

Os pesquisadores observaram, além disso, diferenças consideráveis entre países. O benefício mostrou-se maior quando os estudos mediram emoções positivas, combinaram diferentes exercícios de gratidão ou utilizaram ensaios randomizados. Esse resultado reforça, por consequência, uma conclusão importante: não basta perguntar se gratidão “funciona”. É necessário investigar qual prática funciona, para quem, durante quanto tempo e em qual ambiente cultural.

Outra revisão, publicada em 2023, analisou 64 ensaios clínicos randomizados. O conjunto das evidências apontou melhora na saúde mental, redução de sintomas de ansiedade e depressão e aumento de emoções positivas entre participantes submetidos às intervenções. Nesse sentido, a repetição de resultados em diferentes pesquisas sugere que o fenômeno merece atenção científica, embora a magnitude dos benefícios varie bastante.

Agradecer alguém pode fortalecer vínculos

Uma explicação possível para parte dos benefícios está na dimensão social da gratidão. Agradecer não significa apenas reconhecer mentalmente que algo positivo aconteceu. Quando uma pessoa dirige seu reconhecimento a outra, ela transforma, ao mesmo tempo, uma experiência individual em interação social. Assim, uma carta, mensagem ou conversa de agradecimento pode reforçar vínculos enquanto desperta emoções positivas.

Essa característica ajuda a entender, por outro lado, por que diferentes exercícios não necessariamente apresentam resultados idênticos. Fazer uma lista privada envolve reflexão pessoal, enquanto manifestar gratidão diretamente a alguém acrescenta reciprocidade e contato humano. O megastudo internacional testou, justamente, diferentes maneiras de estimular esse sentimento e encontrou variações conforme a prática utilizada.

A gratidão pode atuar, portanto, em mais de uma camada da experiência humana. Ela direciona atenção para acontecimentos percebidos como positivos e, em determinadas circunstâncias, aproxima pessoas. Isso não significa ignorar dificuldades, injustiças ou sofrimento. Pelo contrário, reconhecer algo valioso pode coexistir, simultaneamente, com uma avaliação realista dos problemas cotidianos.

Cinco coisas boas não são uma fórmula mágica

Uma das práticas mais conhecidas consiste em anotar periodicamente acontecimentos pelos quais a pessoa se sente agradecida. Apesar da popularidade dos chamados diários de gratidão, a literatura científica recomenda, todavia, cautela diante de afirmações absolutas. Uma revisão sobre satisfação com a vida encontrou forte associação entre gratidão e satisfação, mas destacou que ainda existem dúvidas sobre causalidade e sobre a superioridade dessas práticas diante de outras atividades positivas.

O mesmo cuidado aparece quando pesquisadores analisam saúde física. Uma revisão de 19 estudos randomizados encontrou sinais de melhora na qualidade subjetiva do sono em cinco de oito trabalhos que avaliaram esse indicador. Entretanto, resultados relacionados a pressão arterial, controle glicêmico, inflamação e outros desfechos físicos permaneciam, até então, insuficientes para conclusões firmes.

A mensagem científica fica, desse modo, mais interessante justamente porque abandona os extremos. Gratidão não constitui tratamento milagroso nem simples moda sem fundamento. Existem efeitos psicológicos mensuráveis, especialmente sobre emoções positivas, porém eles tendem a ser pequenos ou moderados e dependem, consequentemente, do contexto, da metodologia e da atividade realizada.

Como incorporar exercícios de gratidão à rotina

Uma prática possível consiste em registrar situações específicas que tiveram significado durante o dia, evitando respostas automáticas e genéricas. Outra alternativa envolve escrever para alguém explicando por que determinada atitude foi importante. Nesse caso, a pessoa transforma, dessa maneira, reconhecimento em comunicação e acrescenta uma dimensão social ao exercício.

A regularidade também merece atenção. Uma revisão dedicada a trabalhadores encontrou resultados favoráveis para estresse percebido e depressão em vários estudos, enquanto os efeitos sobre bem-estar foram inconsistentes. Curiosamente, intervenções que utilizaram listas de gratidão quatro vezes ou menos não apresentaram mudanças significativas nos desfechos avaliados. A frequência e a continuidade podem, portanto, influenciar os resultados.

O conhecimento disponível aponta, finalmente, para uma ideia simples e menos espetacular do que muitas promessas de autoajuda: direcionar deliberadamente a atenção para aspectos valorizados da existência pode melhorar determinados componentes do bem-estar. Quando esse reconhecimento alcança outra pessoa, acrescenta-se, ainda, a possibilidade de fortalecer relações. A ciência não promete felicidade permanente, mas mostra que agradecer, quando transformado em prática consciente, pode produzir pequenas mudanças reais na experiência cotidiana.

Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa