A inteligência artificial já ajuda empresas a executar tarefas que antes faziam parte da rotina de profissionais iniciantes.
Isso não significa que ela tenha eliminado o emprego dos jovens.
No entanto, pesquisas recentes levantam uma pergunta importante: se as vagas de entrada mudarem, como os trabalhadores ganharão experiência?
Antecipe a leitura
- A inteligência artificial ajuda em tarefas de iniciantes, mas não elimina empregos, levantando preocupações sobre a experiência profissional.
- Estudos mostram que jovens de 18 a 29 anos com maior exposição à IA tiveram queda na ocupação e remuneração, enquanto os trabalhadores mais velhos sofreram menos impacto.
- A tecnologia altera funções antes de causar demissões, como demonstrado pelo banco BV, onde os agentes de IA atuam em 85% da gestão de cobranças.
- Empresas que adotam IA tendem a aumentar o emprego de profissionais seniores, reduzindo a participação de juniores nas equipes, mas sem queda significativa no emprego geral.
- A formação profissional precisará se adaptar, proporcionando supervisão e desafios, já que a IA assume parte das atividades iniciais.
O que os dados mostram no Brasil
Um estudo sobre o mercado de trabalho brasileiro comparou, entre 2022 e 2025, pessoas com diferentes graus de exposição à inteligência artificial generativa.
Entre os jovens de 18 a 29 anos, os perfis mais expostos apresentaram uma queda relativa na probabilidade de estar ocupados e na remuneração.
Já entre trabalhadores de 30 a 59 anos, os efeitos médios sobre a ocupação foram menores e, em geral, sem evidência estatística robusta.
Isso não permite afirmar que a IA causou o desemprego de todos esses jovens. A pesquisa identifica efeitos iniciais associados à exposição à tecnologia, não contabiliza pessoas substituídas diretamente por ferramentas digitais.
Ainda assim, o resultado chama atenção para a porta de entrada do mercado.
Organizar informações, resumir documentos e cumprir etapas padronizadas são atividades que ajudam muitos iniciantes a aprender uma profissão. Agora, parte delas também pode ser feita com IA.
Inteligência artificial e emprego dos jovens
A mudança já aparece nas empresas
Na prática, a tecnologia pode alterar funções antes mesmo de provocar demissões. O banco BV, por exemplo, informou que agentes de IA passaram a participar de 85% da gestão de sua principal carteira de cobrança com atrasos de cinco a 15 dias. Segundo o banco, a equipe humana pode se dedicar a negociações mais complexas.
O percentual, porém, descreve a operação de cobrança, não uma redução de 85% nos empregos. Para entender o impacto sobre os trabalhadores, seria necessário acompanhar contratações, desligamentos e mudanças nas atribuições da equipe.
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Profissionais experientes ganham espaço?
Um estudo internacional analisou registros de emprego e anúncios de vagas em 41 países. Nas empresas avaliadas que adotaram IA, o emprego de profissionais seniores cresceu 6,7% em relação ao grupo de comparação.
O emprego júnior ficou 2,5% menor, mas essa estimativa isolada não foi estatisticamente significativa.
O sinal mais consistente foi outro: a participação dos juniores nas equipes diminuiu, principalmente porque o número de profissionais seniores cresceu.
Os pesquisadores também identificaram redução dessa participação no recorte brasileiro analisado. Portanto, o estudo sugere uma mudança na composição das equipes, não uma queda generalizada do emprego.
Inteligência artificial e emprego dos jovens
Quem formará os profissionais de amanhã?
É nesse ponto que a discussão vai além dos números. Profissionais experientes desenvolveram seu julgamento ao executar tarefas, receber orientação e corrigir erros.
Se a IA assumir parte dessas atividades, empresas e instituições de ensino precisarão criar outras formas de aprendizagem.
Por isso, um estágio não pode se resumir a pedir que o jovem produza mais com uma ferramenta. Ele também precisa oferecer supervisão, desafios progressivos e oportunidades de avaliar quando a resposta da IA está errada.
A tecnologia pode ampliar a produtividade. Contudo, se as empresas deixarem de investir em quem está começando, poderão encontrar mais adiante um problema criado no presente: a falta de profissionais preparados para assumir as funções de maior responsabilidade.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes
- FGV Ibre: estudo de Daniel Duque sobre IA, ocupação e renda no Brasil.
- Stanford Digital Economy Lab: estudo sobre demanda de trabalho em 41 países.
- Entrevista sobre o uso de IA na cobrança do banco BV.
- Podcast O Essencial: “A IA tirou seu emprego?”, 23 de setembro de 2026.
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