Luís Turiba - Um Mestre - Cultura Alternativa

Luís Turiba – Um Mestre

Luís Turiba – Um Mestre

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A despedida de uma voz múltipla

Luís Turiba foi uma dessas figuras que recusaram fronteiras entre jornalismo, literatura, política, música e vida cultural. O poeta, jornalista, editor e ativista morreu em Salvador, aos 76 anos. Sua história, entretanto, se confunde profundamente com Brasília, cidade onde trabalhou por décadas, criou projetos, participou intensamente da cena artística e recebeu o título de Cidadão Brasiliense.

Nascido Luiz Artur Toribio, no Recife, em 1950, passou parte da juventude no Rio de Janeiro e chegou à capital federal no fim dos anos 1970. Ao longo das décadas, além disso, construiu uma produção que reuniu livros, crônicas, reportagens, revistas, videodocumentários e parcerias musicais. Deixa cinco filhos e seis netos.

A dimensão de sua trajetória impede definições estreitas. Turiba escrevia versos, apurava notícias, editava publicações e articulava encontros culturais. A palavra, nesse sentido, tornou-se simultaneamente instrumento de trabalho, intervenção e invenção. Sua morte mobiliza amigos, profissionais da imprensa, escritores, músicos e leitores porque encerra uma presença marcante em diferentes momentos da cultura brasileira.

Jornalismo, política e dois Prêmios Esso

Turiba começou a trabalhar como repórter aos 23 anos. Passou por O Globo e pela Editora Bloch, responsável pela revista Manchete, antes de seguir para a Gazeta Mercantil e mudar-se para Brasília. Na capital, posteriormente, atuou também no Jornal de Brasília e no Correio Braziliense, acumulando experiência em política, investigação, reportagem urbana e cobertura de grandes acontecimentos nacionais.

O reconhecimento profissional incluiu dois Prêmios Esso. Em 1980, no Jornal de Brasília, recebeu a premiação por uma reportagem envolvendo um encontro entre o então estagiário Renato Manfredini, futuro Renato Russo, e o ministro da Agricultura Delfim Netto. Em 1995, por sua vez, integrou no Correio Braziliense a equipe vencedora do Esso Regional Centro-Oeste pela série A Máfia do Condomínio, investigação sobre ocupação e legalização irregular de áreas públicas do Distrito Federal.

A política atravessou sua vida profissional de outras maneiras. Cobriu a campanha de Tancredo Neves e trabalhou em comunicação pública durante a redemocratização. Anos depois, igualmente, colaborou com a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, participando de trabalhos relacionados aos Pontos de Cultura, ao livro Do-In Antropológico e a produções audiovisuais ligadas à atuação internacional do ministério e à capoeira.

Bric-a-Brac, edição e invenção cultural

Em 1985, Turiba ajudou a criar em Brasília a Bric-a-Brac, revista experimental dedicada à poesia, fotografia, artes gráficas, ensaios e entrevistas. O projeto nasceu coletivamente com João Borges, Lúcia Leão e o designer Luis Eduardo Resende, o Resa. A publicação, dessa maneira, ultrapassou o circuito local e colocou a produção brasiliense em diálogo com autores, artistas e pensadores de projeção nacional.

As edições reuniram nomes como Augusto de Campos, José Mindlin, Paulinho da Viola, Manoel de Barros, Nise da Silveira, Pierre Verger e Caetano Veloso. A Bric-a-Brac combinava, ao mesmo tempo, texto, fotografia e experimentação gráfica num período em que o Brasil retomava a democracia. O próprio Turiba relacionou a publicação à efervescência cultural daquele processo histórico. Décadas depois, o projeto ganhou uma edição comemorativa em 2022.

Sua vocação editorial apareceu também na revista DF Letras, da Câmara Legislativa do Distrito Federal, na qual atuou como editor. Turiba, sobretudo, não se limitava a publicar a própria obra: criava espaços para outros autores, promovia a circulação de ideias e aproximava diferentes linguagens. Essa capacidade de reunir pessoas e projetos fez dele uma referência da vida cultural brasiliense para além de sua produção individual.

Poesia, experimentação e liberdade

A estreia literária ocorreu em 1977, com Kiprokó. Depois vieram obras como Clube do Ócio, Luminares, Realejos, Cadê?, Bala, MeiaOito, Qtais e Poeira Cósmica. Cadê?, posteriormente, conquistou o Prêmio Candango de Literatura, em 1998. Sua poesia explorava concisão, humor, jogos verbais, visualidade, cotidiano, política e afeto.

O olhar do jornalista encontrava frequentemente a liberdade do poeta. Turiba conseguia, dessa forma, observar a realidade concreta e transformá-la em matéria literária sem perder espontaneidade. Brasília tornou-se presença recorrente nessa produção: céu, arquitetura, poder, ruas e personagens apareciam em poemas, reportagens e projetos editoriais, compondo uma espécie de cartografia afetiva da capital.

A palavra encontrou ainda a música. Turiba escreveu Bico da Torre, musicado por Renato Matos e gravado por Zélia Duncan, quando ainda assinava Zélia Cristina, e por Célia Porto. Poesia e canção, portanto, dialogavam naturalmente em sua trajetória. O ritmo das palavras, a oralidade e a experimentação aproximavam sua literatura de compositores, intérpretes e artistas que circulavam pela intensa cena cultural brasiliense.

Parceria

Minha relação com Luís Turiba também passou pela música. Eu, que assino este artigo, musiquei seu poema Amor de Estrada, numa experiência que guardo com especial carinho. Quando mostrei a composição ao poeta, Turiba recebeu a canção, por sua vez, com a energia, a sensibilidade e aquela espécie de magia que costumava levar para os encontros, as conversas e a própria criação artística.

Infelizmente, a composição nunca foi gravada e não está disponível na internet. A experiência permanece, contudo, como um registro afetivo dessa parceria e, principalmente, da profunda admiração que tenho por seu trabalho. Sua poesia sempre me interessou pela força das imagens, pela liberdade, pelo ritmo e pela maneira singular como transformava observação, sentimento e inquietação em palavra.

Essa lembrança ganha agora um significado ainda maior. Ao recordar Amor de Estrada, recordo também o poeta, o jornalista, o editor, o agitador cultural e, acima de tudo, a pessoa que Luís Turiba era e sempre será na memória de quem conviveu com ele. Ele possuía, afinal, algo difícil de definir e fácil de sentir: aproximava pessoas, atraía ideias, criava vínculos e irradiava uma energia própria. Para mim, permanece a imagem de um amigo ímã.

Desacontecimentos

Ao pesquisarmos no YouTube registros da trajetória de Luís Turiba, encontramos o programa Desacontecimentos, realizado com Maurício Mello Júnior, também nosso amigo. O reencontro com Turiba por meio dessas imagens, de sua voz e de suas ideias nos emocionou profundamente e, por isso, decidimos compartilhar aqui esse documento que ajuda a preservar sua presença e sua memória.

O programa permite acompanhar Turiba falando de maneira direta, algo que, neste momento de despedida, ganha uma dimensão ainda mais especial. A conversa, além disso, recupera um pouco da personalidade, do pensamento e da sensibilidade de um criador que fez da palavra uma companheira permanente. É também uma oportunidade para leitores que não conviveram com ele conhecerem sua maneira de se expressar.

Publicamos o registro como parte desta homenagem e como convite para que sua voz continue circulando. O vídeo, nesse sentido, transforma-se também em documento de uma época e preserva gestos, ideias e lembranças que a palavra escrita não consegue reproduzir integralmente. O programa está disponível no YouTube:

Ditadura, resistência e reconhecimento

Sua biografia carregou também as marcas da ditadura militar. Militante estudantil na juventude, teve os estudos interrompidos, foi preso, condenado pela Justiça Militar e relatou ter sofrido torturas físicas e psicológicas no DOI-Codi. A repressão política, entretanto, não interrompeu sua disposição para participar da vida pública, produzir cultura e defender a liberdade.

Em 2024, a Comissão de Anistia reconheceu por unanimidade a perseguição política sofrida por Turiba entre 1970 e 1987. O processo demonstrou, além disso, que órgãos do aparato repressivo continuaram monitorando suas atividades durante os anos 1980. O Estado brasileiro formalizou então um pedido de desculpas pelas violações cometidas contra ele.

A decisão representou um reconhecimento institucional de uma história que atravessou repressão, redemocratização e liberdade de expressão. Turiba transformou, ao longo desse percurso, experiência pessoal e consciência política em matéria para o jornalismo e para a literatura. Sua trajetória permite compreender, portanto, como criação artística e participação democrática podem caminhar juntas.

Um mestre que permanece

Nos últimos anos, Turiba continuou escrevendo, participando de encontros e mantendo vínculos com artistas, jornalistas e escritores. Sua obra demonstra que a cultura não se constrói apenas com livros publicados ou prêmios recebidos. Ela nasce, igualmente, dos encontros promovidos, das pessoas estimuladas, das conversas iniciadas e dos projetos que alguém ajuda a colocar no mundo.

Jornalista premiado, poeta experimental, editor, produtor cultural, articulador e defensor da democracia, Luís Turiba atravessou linguagens sem abandonar a curiosidade. Sua contribuição, por isso, ultrapassa qualquer profissão isoladamente. Ele pertence àquela categoria de criadores cuja obra se mistura à própria capacidade de movimentar o ambiente cultural ao redor.

A morte encerra uma presença física, mas não apaga uma trajetória. Permanecem os poemas, as reportagens, os livros, a Bric-a-Brac, as canções, as histórias, as amizades e a memória de quem encontrou nele um interlocutor inquieto e generoso. Luís Turiba deixa, enfim, uma marca particular na cultura de Brasília e do Brasil. Para quem teve o privilégio de conhecê-lo, permanece também algo que nenhuma biografia consegue medir inteiramente: a energia de um amigo ímã. Um mestre.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa