Cérebro não é multitarefa - Cultura Alternativa

O cérebro não é multitarefa: o custo de dividir a atenção

O cérebro não é multitarefa: o custo de dividir a atenção

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O cérebro não é multitarefa quando precisa executar simultaneamente atividades que exigem atenção consciente. A impressão de eficiência criada por responder mensagens, acompanhar uma reunião, consultar redes sociais e escrever um documento quase ao mesmo tempo esconde outro fenômeno: na maior parte dessas situações, a mente alterna rapidamente entre tarefas. Essa troca, por consequência, cobra um preço cognitivo mensurável, aumenta a possibilidade de erros e pode transformar a disponibilidade permanente em inimiga da produtividade.

A ciência distingue tarefas automáticas de atividades que disputam os mesmos recursos mentais. Caminhar enquanto conversamos, por exemplo, costuma ser possível porque parte dos movimentos ocorre de forma automatizada. Escrever um texto enquanto se acompanha atentamente uma conversa, entretanto, exige processamento consciente nas duas atividades. Nesse caso, em vez de trabalhar plenamente nos dois conteúdos, o cérebro precisa administrar prioridades e, ao mesmo tempo, realizar sucessivas mudanças de foco.

Essa diferença tornou-se particularmente relevante na sociedade conectada. Smartphones, aplicativos corporativos, e-mails, redes sociais, vídeos curtos e notificações disputam continuamente um recurso limitado: a atenção humana. A questão, portanto, deixou de ser apenas quanto tempo permanecemos diante das telas. Importa também saber quantas vezes interrompemos aquilo que estamos fazendo e, além disso, quanto esforço será necessário para reconstruir o raciocínio depois.

Trocar de tarefa tem um custo para o cérebro

Experimentos clássicos conduzidos pelos pesquisadores Joshua Rubinstein, David Meyer e Jeffrey Evans demonstraram que participantes perdiam tempo sempre que precisavam alternar entre tarefas. O prejuízo aumentava, sobretudo, quando as atividades eram mais complexas ou pouco familiares. A mudança envolve processos de controle executivo e, nesse sentido, obriga a mente a abandonar temporariamente um objetivo, compreender a nova demanda e ativar as regras necessárias à atividade seguinte.

Cada interrupção isolada pode parecer insignificante. Contudo, dezenas ou centenas de mudanças durante uma jornada acumulam pequenos custos de processamento. Esses bloqueios mentais, consequentemente, podem consumir uma parcela relevante do tempo produtivo em determinadas circunstâncias. Assim, a velocidade aparente proporcionada pela execução de várias atividades pode produzir justamente o resultado contrário: demora, esforço adicional e maior incidência de equívocos.

Pesquisas sobre o trabalho cotidiano acrescentam outra dimensão. Estudos conduzidos por Gloria Mark e colaboradores, na Universidade da Califórnia, Irvine, verificaram que pessoas interrompidas conseguiam compensar parte da perda trabalhando mais rapidamente. Essa recuperação, porém, vinha acompanhada de maior estresse, frustração, pressão de tempo e esforço. Em outras palavras, concluir uma atividade depois de sucessivas interrupções não significa, necessariamente, que o custo psicológico tenha desaparecido.

Nossa atenção nas telas dura cada vez menos

A pesquisadora Gloria Mark acompanha há anos o comportamento de trabalhadores diante de computadores. Dados reunidos por sua equipe indicaram, em medições recentes, permanência média de aproximadamente 47 segundos em uma tela antes de a atenção migrar para outra. Além disso, depois de uma interrupção, retomar integralmente determinada atividade pode exigir vários minutos, especialmente quando o trabalho depende de raciocínio complexo.

O celular adicionou uma variável especialmente poderosa a esse cenário: nem sequer precisamos tocá-lo para perder concentração. Experimentos demonstraram que notificações de chamadas e mensagens podem prejudicar o desempenho em atividades que exigem atenção, mesmo quando os participantes não interagem com o aparelho. Consequentemente, o simples alerta sonoro ou visual pode introduzir pensamentos alheios ao objetivo que estava sendo executado e, dessa maneira, fragmentar a concentração.

Há, entretanto, maneiras de modificar esse ambiente. Um experimento de campo com 237 participantes avaliou diferentes formas de entrega de notificações. Aqueles que receberam alertas agrupados em três momentos do dia relataram maior atenção, sensação de produtividade e controle sobre o telefone. Curiosamente, eliminar completamente as notificações não produziu os mesmos resultados e, em contrapartida, aumentou a ansiedade e o receio de perder informações entre alguns participantes.

Multitarefa digital exige cautela nas conclusões

Um estudo de Stanford publicado em 2009 tornou-se referência ao comparar usuários intensivos e moderados de múltiplas mídias. Os pesquisadores observaram que participantes classificados como grandes multitarefas de mídia apresentavam maior dificuldade para ignorar estímulos irrelevantes. Surpreendentemente, eles também tiveram desempenho inferior em determinadas tarefas de alternância e, a partir daí, a fragmentação da atenção ganhou espaço no debate científico sobre hábitos digitais.

A ciência posterior, todavia, mostrou que o fenômeno é mais complexo. Uma meta-análise publicada em 2017 reuniu dezenas de resultados e encontrou associação fraca entre multitarefa de mídia e distração. Depois de determinados ajustes estatísticos, inclusive, essa associação perdeu significância. Outros trabalhos encontraram conclusões distintas conforme a tarefa analisada e, portanto, não existe base científica sólida para afirmar simplesmente que usar várias mídias necessariamente provoca deterioração permanente da capacidade cognitiva.

Essa ressalva é fundamental. O conjunto das evidências sustenta com muito mais segurança o custo imediato da alternância entre tarefas do que alegações de que a multitarefa digital estaria, por si só, danificando o cérebro. Estudos sobre cognição apontam limitações estruturais e gargalos de processamento e, nesse contexto, mostram por que o desempenho tende a cair quando diferentes atividades competem simultaneamente pelos mesmos recursos mentais.

Notificações transformaram interrupção em rotina

A conectividade permanente criou um ambiente no qual a interrupção deixou de ser excepcional. A Organização Mundial da Saúde chamou atenção, em relatório de 2025 dedicado ao ambiente digital de crianças e jovens, para os efeitos da conectividade permanente e dos mecanismos concebidos para capturar atenção. Embora o documento trate especialmente das novas gerações, notificações e alertas, por outro lado, fazem parte da rotina digital de praticamente todas as faixas etárias.

Um experimento de campo com trabalhadores oferece uma pista prática. Pesquisadores acompanharam 247 participantes e compararam pessoas que mantiveram seus alertas habituais com aquelas orientadas a desativar notificações de comunicação durante um dia de trabalho. A redução das interrupções provocadas pelos avisos esteve associada, dessa forma, à melhora de desempenho e à diminuição da tensão, embora características individuais também tenham influenciado os resultados.

Outro estudo randomizado, publicado em 2025, foi ainda mais longe. Pesquisadores bloquearam o acesso à internet móvel dos smartphones durante duas semanas, mantendo chamadas e mensagens de texto disponíveis. Entre participantes que efetivamente cumpriram a intervenção, foram observadas melhorias na atenção sustentada e no bem-estar subjetivo. O resultado, entretanto, não significa que abandonar a internet seja uma prescrição universal; demonstra, sobretudo, que modificar o ambiente digital pode interferir na qualidade da atenção.

Fazer menos coisas pode significar produzir mais

Proteger a atenção não exige necessariamente rejeitar a tecnologia. Significa utilizá-la deliberadamente. Reservar períodos sem notificações para atividades complexas, concentrar respostas a mensagens em determinados horários e evitar alternâncias desnecessárias são medidas simples. Dessa maneira, separar momentos de produção daqueles destinados ao consumo de informações pode reduzir a quantidade de mudanças cognitivas realizadas durante o dia.

A mudança mais importante, porém, talvez seja cultural. Durante décadas, estar permanentemente ocupado tornou-se símbolo de produtividade. Hoje, entretanto, a abundância de estímulos transforma a capacidade de selecionar em competência tão importante quanto a capacidade de executar. Escolher uma tarefa implica temporariamente renunciar às demais e, justamente por isso, cria melhores condições para concentração, memória e raciocínio aprofundado.

O cérebro humano possui extraordinária capacidade de adaptação, mas a atenção continua sendo um recurso limitado. A tecnologia multiplicou aquilo que podemos fazer, enquanto o dia permaneceu com as mesmas 24 horas. Nesse cenário, portanto, produtividade não significa necessariamente encaixar mais estímulos em cada minuto. Significa decidir quais deles merecem acesso à nossa mente e, acima de tudo, compreender que fazer tudo ao mesmo tempo pode resultar em não fazer nenhuma atividade com toda a atenção que ela merece.

Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa