O ônus e o bônus de ser canhoto
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O ônus e o bônus de ser canhoto envolvem muito mais do que escolher a mão esquerda para escrever. A lateralidade humana, nesse contexto, desperta interesse da genética, neurociência, psicologia, ergonomia e até das ciências do esporte. Embora os canhotos constituam uma minoria relativamente pequena da população, estudos com milhões de participantes mostram que essa característica aparece em diferentes culturas e atravessa a história humana.
Uma das maiores meta-análises sobre o assunto reuniu dados de aproximadamente 2,4 milhões de pessoas. A melhor estimativa encontrada pelos pesquisadores apontou que 10,6% da população é canhota. Dependendo do critério utilizado para classificar a lateralidade, entretanto, a prevalência variou de 9,3% a 18,1%. Além disso, sexo, ancestralidade, período histórico e metodologia utilizada influenciam os resultados.
A questão também faz parte da vida cotidiana da Cultura Alternativa. Nossa editora-chefe, Agnes Adusumilli, é canhota e integra, portanto, uma parcela da população que diariamente utiliza objetos e ambientes concebidos majoritariamente para destros. Nesse sentido, compreender a canhotice significa observar tanto possíveis vantagens quanto dificuldades concretas impostas pelo desenho do mundo ao redor.
Tabela de conteúdos
Uma característica que começa no cérebro
Ser canhoto não corresponde simplesmente a um hábito aprendido. A lateralidade está relacionada à especialização dos hemisférios cerebrais e resulta, em grande medida, de uma combinação complexa entre genética, desenvolvimento embrionário e outros fatores. Um estudo publicado em 2024 na Nature Communications analisou dados genéticos de 38.043 canhotos e 313.271 destros do UK Biobank e identificou associação entre variantes raras do gene TUBB4B e a preferência pela mão esquerda.
Os pesquisadores ressaltam, contudo, que não existe um único “gene da canhotice”. Estudos anteriores já haviam encontrado dezenas de regiões genômicas relacionadas à lateralidade. Ao mesmo tempo, estimativas baseadas em gêmeos indicam herdabilidade em torno de 25%. Assim, embora exista participação genética evidente, uma parcela considerável da explicação depende de mecanismos biológicos e ambientais ainda investigados pela ciência.
Também precisa cair um antigo mito: o cérebro do canhoto não funciona simplesmente ao contrário do cérebro do destro. Pesquisas de neuroimagem mostram diferenças estatísticas de lateralização, sobretudo nas redes relacionadas à linguagem; por outro lado, existe grande diversidade individual. Dessa maneira, a mão utilizada para escrever oferece uma pista sobre a organização cerebral, mas não determina isoladamente inteligência, personalidade, talento ou capacidade profissional.
O bônus aparece claramente nos esportes
Uma das vantagens mais documentadas surge em modalidades competitivas nas quais dois adversários interagem diretamente. Canhotos aparecem, proporcionalmente, em quantidade superior aos cerca de 10% observados na população em esportes como tênis, esgrima, tênis de mesa, beisebol e modalidades de combate. A explicação mais aceita, entretanto, não atribui aos atletas esquerdinos uma superioridade motora generalizada.
O chamado efeito de raridade oferece uma interpretação interessante. Como um atleta destro enfrenta majoritariamente outros destros, acumula, em consequência, menos experiência contra adversários canhotos. O esquerdino, ao contrário, compete constantemente contra destros. Consequentemente, golpes, saques, movimentos e ângulos menos familiares podem proporcionar vantagem estratégica, especialmente em situações nas quais existe pouco tempo para reagir.
Um estudo publicado em 2026 na Scientific Reports acrescentou outro elemento ao debate. Ao analisar 1.129 participantes, pesquisadores italianos encontraram associação entre maior preferência pela mão esquerda e determinados indicadores de competitividade. Os canhotos apresentaram, nesse levantamento, maior orientação hipercompetitiva e menor tendência a evitar competições por ansiedade. Os próprios autores, porém, alertam que associação não significa causalidade e que novas pesquisas são necessárias.
Criatividade não é privilégio dos canhotos
Leonardo da Vinci, Jimi Hendrix, Paul McCartney e inúmeros artistas contribuíram para disseminar a ideia de que canhotos seriam naturalmente mais criativos. A hipótese ganhou, ao longo do tempo, tanta força cultural que muitas vezes aparece como fato científico. Pesquisas recentes, no entanto, colocam uma importante ressalva nessa associação.
Uma revisão acompanhada de meta-análises, publicada em 2025 no Psychonomic Bulletin & Review, examinou testes de pensamento divergente e a presença de canhotos em profissões criativas. Os pesquisadores não encontraram, de modo geral, evidências de que canhotos ou pessoas com lateralidade mista sejam mais criativos que destros. Em um dos testes padronizados analisados, inclusive, os destros tiveram resultado estatisticamente superior.
Curiosamente, canhotos e destros tendem a acreditar no estereótipo da criatividade esquerdina. Além disso, a pesquisa identificou alguma sobrerrepresentação de canhotos e pessoas de lateralidade mista em áreas como arte e música, mas não no conjunto das profissões consideradas criativas. Portanto, o bônus científico da canhotice não deve ser construído a partir de generalizações atraentes, porém não comprovadas.
O ônus de viver em um mundo para destros
Talvez a desvantagem mais facilmente verificável esteja nos objetos cotidianos. Tesouras convencionais, abridores de lata, apontadores, carteiras escolares com apoio lateral, instrumentos musicais, utensílios culinários, réguas, mouses ergonômicos e diferentes equipamentos profissionais seguem, frequentemente, configurações destinadas à mão direita.
A tesoura representa um exemplo particularmente didático. Não basta trocar o objeto de mão, porque a disposição das lâminas interfere, na prática, na visibilidade da linha de corte e na maneira como a pressão dos dedos aproxima as superfícies cortantes. A questão chega ao ambiente profissional: autoridades de segurança ocupacional recomendam, por exemplo, que empregadores disponibilizem tesouras próprias para trabalhadores canhotos em atividades que envolvem cortes repetitivos.
Produtos específicos existem, mas constituem um mercado menor. Há tesouras invertidas, cadernos com espiral posicionada para não pressionar a mão esquerda, réguas com graduação adaptada, canetas que facilitam a visualização da escrita, guitarras, abridores e periféricos de informática. Ainda assim, o canhoto pode enfrentar, consequentemente, menor variedade disponível e necessidade de procurar versões especializadas.

Escrever também exige adaptação
A própria escrita ocidental cria uma particularidade ergonômica. Como português, inglês, espanhol e diversos outros idiomas avançam da esquerda para a direita, a mão do canhoto passa, muitas vezes, sobre a região recém-escrita. Em determinadas situações, portanto, isso pode borrar tinta e dificultar a visualização das palavras.
Cadernos espiralados também podem incomodar porque o arame geralmente fica justamente na área onde repousam mão e antebraço durante a escrita na página direita. Carteiras escolares com apoio exclusivo para o braço direito representam, da mesma forma, outro exemplo clássico. Nesse contexto, pequenas escolhas de design transformam uma característica biológica normal em dificuldade funcional.
O mesmo raciocínio vale para ferramentas industriais, equipamentos e estações de trabalho. Ergonomia adequada não significa obrigar o usuário a adaptar seu corpo ao objeto, mas permitir, em contrapartida, que o equipamento acompanhe suas características. Por isso, oferecer alternativas ambidestras ou específicas para canhotos constitui uma questão de desenho inclusivo e, dependendo da atividade, também de segurança ocupacional.
Nem vantagem absoluta, nem deficiência
Estudos econômicos também produziram resultados contraditórios. Uma pesquisa encontrou vantagem salarial entre homens canhotos altamente escolarizados, mas não entre mulheres. Outro levantamento, utilizando bases norte-americanas e britânicas, encontrou resultados diferentes e estimou, em determinados grupos, rendimentos anuais menores entre canhotos. As divergências demonstram, dessa maneira, quanto fatores educacionais, sociais, culturais e metodológicos interferem nessas comparações.
A ciência contemporânea recomenda cautela diante das listas populares que atribuem genialidade, maior inteligência, personalidade especial ou dificuldades inevitáveis aos esquerdinos. Canhotice é, essencialmente, uma variação humana relativamente comum, não uma habilidade extraordinária nem uma deficiência. Entretanto, viver como minoria lateral pode produzir experiências diferentes porque grande parte dos objetos foi padronizada para a maioria destra.
O verdadeiro ônus está, portanto, menos na mão esquerda e mais em um ambiente que nem sempre considera quem a utiliza como dominante. O bônus aparece, sobretudo, onde a raridade produz vantagens específicas, como determinados confrontos esportivos, além da capacidade cotidiana de adaptação exigida por ferramentas padronizadas. Para aproximadamente uma em cada dez pessoas, inclusive Agnes Adusumilli, ser canhota significa participar de uma minoria que continua oferecendo à ciência pistas sobre genética, evolução, cérebro, comportamento e diversidade humana.
Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

