Sarau Cultura Alternativa reúne Mauro Rocha e Anand Rao em encontro de poesia, cinema e memória
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O Sarau Cultura Alternativa 2026 promoveu um encontro marcado por poesia, música, cinema, literatura e lembranças da produção artística de Brasília. Mauro Rocha participou de uma conversa conduzida por Anand Rao que, ao longo de quase uma hora, percorreu diferentes momentos da criação independente. A descontração, entretanto, não afastou discussões sobre o papel do escritor, a circulação dos livros e a necessidade de manter a atividade cultural próxima das pessoas.
A música abriu o programa e estabeleceu o ambiente informal característico da atração. O anfitrião recuperou uma composição antiga, falou sobre trabalhos realizados ao longo de décadas e, ao mesmo tempo, transformou o estúdio em espaço para revisitar a própria trajetória. Entre violão, vinho, queijo e conversa, o encontro assumiu deliberadamente uma atmosfera doméstica.
O convidado, por sua vez, trouxe experiências profissionais que ultrapassam a literatura. Formado em Turismo, trabalhou no aeroporto de Brasília, passou pela antiga VASP e participou do início das operações da Gol na capital federal. A escrita, contudo, permaneceu presente durante essas etapas, aparecendo nos intervalos do trabalho, na faculdade e em diferentes momentos de sua formação.
Tabela de conteúdos
Literatura perto das pessoas
A conversa avançou para a função das academias de letras. O escritor defendeu instituições capazes de ultrapassar reuniões internas e cerimônias formais. Uma entidade literária, segundo sua perspectiva, ganha relevância, sobretudo, quando ocupa ruas, cafés, supermercados, centros culturais, feiras e outros ambientes frequentados pela comunidade.
A Academia Cruzeirense de Letras apareceu, nesse contexto, como exemplo dessa aproximação. A instituição já realizou saraus em diferentes espaços e mantém iniciativas voltadas à circulação da produção local. Além disso, a Feira Literária do Cruzeiro foi lembrada como parte de um trabalho construído durante mais de uma década.
A dedicação necessária para integrar organizações culturais também entrou em debate. Para o poeta, participar de inúmeras entidades pode, em determinadas circunstâncias, fragmentar o tempo disponível. O compromisso artístico, portanto, deveria envolver não apenas o pertencimento institucional, mas ações capazes de divulgar escritores, estimular leitores e estabelecer vínculos com a cidade.
Do mimeógrafo às redes sociais
As lembranças conduziram o programa às décadas de 1970 e 1980, quando autores independentes percorriam Brasília oferecendo livros diretamente ao público. O apresentador recordou que chegou a organizar grupos para comercializar poesia em bares, ruas e outros pontos da capital. Naquela época, entretanto, grandes tiragens eram praticamente indispensáveis para reduzir o custo de impressão.
A realidade editorial mudou profundamente. Hoje, pequenas quantidades podem ser produzidas sem a necessidade de milhares de exemplares. As redes sociais, paralelamente, abriram novas possibilidades para divulgação, leitura e relacionamento entre autores e público. O livro impresso continua relevante, porém deixou de ser o único caminho para quem deseja tornar sua obra conhecida.
Nesse ponto, surgiu uma pergunta essencial: por que publicar? O entrevistado ressaltou que cada autor precisa compreender o objetivo de colocar uma obra no mundo. Vender pode ser importante, contudo alcançar leitores, provocar sentimentos, receber críticas e construir diálogo também fazem parte dessa experiência.
Cine Poema aproxima literatura e cinema
Uma das obras apresentadas durante a gravação foi Cine Poema, projeto que utiliza títulos cinematográficos como ponto de partida para a criação poética. A proposta, entretanto, não consiste simplesmente em resumir filmes. As referências funcionam como portas para outras interpretações, associações e imagens construídas pelo autor.
Um dos momentos de destaque ocorreu com a leitura inspirada em Central do Brasil, produção dirigida por Walter Salles. O texto reúne referências a diferentes títulos do cinema brasileiro e, ao mesmo tempo, estabelece uma composição própria. Dessa maneira, quem conhece as películas pode reconhecer conexões, enquanto quem ainda não as assistiu encontra um estímulo para descobri-las.
A experiência também evidencia a relação entre linguagens artísticas. Cinema e literatura, nesse caso, deixam de ocupar territórios isolados. A poesia funciona como ponte e, consequentemente, permite que uma lembrança cinematográfica se transforme em verso, provocação ou convite para uma nova leitura.
O que transforma um poema em bom poema?
A definição de qualidade poética ocupou uma das discussões mais interessantes do encontro. O apresentador afirmou não acreditar em uma classificação absoluta capaz de determinar quais versos merecem reconhecimento. Um texto pode, afinal, emocionar determinada pessoa e não provocar qualquer reação em outra.
O participante concordou e recordou que até autores consagrados enfrentaram resistência. Carlos Drummond de Andrade apareceu na conversa como exemplo de escritor cuja produção nem sempre foi imediatamente compreendida. O reconhecimento posterior, portanto, mostra como a recepção artística pode se modificar conforme o tempo e o olhar do público.
A reflexão conduziu a outra ideia: quando alguém se apropria emocionalmente de um poema, aquela composição passa também a integrar sua história. O leitor, nesse sentido, deixa de ocupar uma posição passiva. Ele recria significados, estabelece relações com suas próprias experiências e, assim, prolonga a existência da obra.
Escrever também exige exercício
O trabalho cotidiano da escrita ganhou espaço quando o convidado relembrou exercícios realizados desde a juventude. Criava desafios envolvendo dias da semana, meses, pecados capitais ou títulos extensos para estimular a imaginação. A prática, dessa forma, funcionava como treinamento permanente.
Ser escritor não dependeria apenas da publicação de livros. A atividade pressupõe, sobretudo, continuidade, leitura, observação e produção. Mesmo uma linha escrita diariamente pode manter ativo o vínculo com a linguagem e, consequentemente, alimentar projetos maiores.
Essa perspectiva dialogou com a própria transformação do anfitrião, que apresentou um volume publicado em 1979 e confeccionado em mimeógrafo. Ao revisitar versos antigos, fotografias e lembranças daquela época, ele mostrou como a criação artística também funciona como arquivo afetivo e registro de diferentes fases da existência.
Música, improvisação e liberdade artística
O violão retornou ao centro do programa com uma composição feita em parceria com Cristina Bastos. A execução, entretanto, não buscou a perfeição de uma gravação de estúdio. Pequenas hesitações e comentários foram incorporados naturalmente à apresentação, reforçando o caráter espontâneo da proposta.
A partir disso, surgiu uma reflexão sobre desafinação e inovação. O erro, dependendo do contexto, pode abrir possibilidades inesperadas. Experimentar, portanto, significa admitir riscos e escapar de modelos rígidos que muitas vezes limitam músicos, escritores, cineastas e demais criadores.
O visitante ampliou essa discussão ao defender que as pessoas não abandonem interesses apenas por causa de críticas. Cantar, escrever, produzir cinema ou desenvolver qualquer atividade artística exige coragem para continuar. A opinião alheia, embora possa oferecer aprendizado, não deveria necessariamente determinar os limites da criação.

Vida, memória e afetividade
A dimensão humana atravessou toda a gravação. Logo no início, o sarau foi dedicado à memória de Dona Maria Emília, mãe do entrevistado. Mais tarde, Cecília e Clarice, filhas do poeta, também receberam uma homenagem. A cultura, assim, apareceu ligada aos afetos familiares e às histórias que permanecem depois das perdas.
A passagem do tempo igualmente motivou reflexões. O anfitrião falou sobre envelhecimento, solidão e a maneira como as gravações vêm criando novas oportunidades de convivência. O projeto, nesse aspecto, não funciona somente como conteúdo audiovisual: também estabelece encontros e recupera trajetórias de pessoas que continuam produzindo.
Já o convidado defendeu a necessidade de saber viver, e não simplesmente atravessar os dias obedecendo à sequência trabalho-casa-trabalho. Experimentar caminhos diferentes, conversar, criar, estudar e construir histórias próprias seriam, portanto, maneiras de transformar a rotina em experiência.
Paris Texas encerra o encontro
A despedida ocorreu novamente pela poesia. O autor escolheu uma composição de Cine Poema inspirada em Paris Texas, clássico cinematográfico dirigido por Wim Wenders. No texto, um coração é apresentado metaforicamente como imóvel disponível para locação, com cláusulas, condições e espaço para sentimentos inesperados.
Humor, romantismo e referências cinematográficas se misturam na composição. O encerramento, desse modo, sintetizou boa parte do programa: literatura dialogando com outras linguagens, memória convivendo com experimentação e arte tratada como experiência cotidiana.
Ao final, prevaleceu uma palavra repetida durante a conversa: respeito. O Sarau Cultura Alternativa 2026 procura, justamente, construir um ambiente no qual diferentes trajetórias, gerações e maneiras de produzir possam compartilhar o mesmo espaço sem a obrigação de seguir um único padrão estético.
Assista o Sarau
O encontro completo com Mauro Rocha e Anand Rao está disponível na TV Cultura Alternativa, no YouTube. O público pode assistir no horário que desejar e acompanhar integralmente as músicas, poemas, histórias e reflexões apresentadas durante o programa.
Assista ao Sarau Cultura Alternativa 2026 pelo endereço:
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Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa

