TEM QUE TER MUITA CORAGEM PARA BOTAR O BLOCO NA RUA

ney matogrosso

Eu quero é botar meu bloco na rua… grita o refrão da música de Sérgio Sampaio que Ney Matogrosso canta na abertura de seu novo show. O artista tem como prática optar por não fazer discursos políticos em público, mas deixa claro em sua viagem poético-musical de sutilezas, um espetáculo de muito bom gosto, discurso coerente de posicionamento político concreto e realista, retratado pelas letras das canções que interpreta, que nos convida a embarcar numa reflexão sobre a realidade brasileira e a busca de uma conscientização das problemáticas do momento atual em que o país se encontra, sem partidarismo, sem discursos panfletários, apenas os fatos, a realidade pura como ela é.

Ney Matogrosso, aos 77 anos, tem muita energia e uma forma física invejável. Após cinco anos com a sua mais longa turnê, o show “Atento aos Sinais”, traz para o palco agora “Bloco na Rua”, que estreou há quatro meses no Rio de Janeiro, passando por São Paulo, Vitória, Salvador, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Brasília e levará até Portugal.

Traz em seu repertório, com a sensibilidade a flor da pele, um passeio por entre hits do passado e desejos de futuros sucessos, utilizando arranjos inusitados, dando uma roupagem contemporânea, orgânica, visceral, um verdadeiro convite emocional para colocarmos juntos, todos nós, o bloco na rua, lutar por um país melhor, sem fanatismos nem radicalismos, com os pés bem fincados no chão, com coragem para seguir em frente e pôr nossas asas para fora nessa babilônia urbana, até porque “quem não chora daqui, não mama dali”, como diz Rita Lee numa canção que Ney canta…

Ao cantar “Pavão Misterioso” de Ednardo, traz a lucidez para a necessidade de não se enganar com as ilusões dos discursos políticos, que tenta nos vender mentiras como a pura verdade, pois os ditos pavões não sabem voar, mas são mestres na arte de enganar, ludibriar, são capazes de imobilizar, alienar, censurar se não ficarmos atentos aos seus movimentos. Porém, nos mostra que é possível um final feliz. Oferece a utopia de um país feliz, justo e propõe um pensamento concreto e real do que é certo, porque o certo é certo e o errado, sempre será errado, não importando o referencial político, como diz Coração Civil, música de autoria de Milton Nascimento, um hino à justiça social, de consciência cívica, da sociedade vivendo em paz.

Em “Tem gente com fome”, música do seu antigo grupo, Secos e Molhados, o cantor mostra seu incômodo com a quantidade de brasileiros que padecem com fome, enquanto são priorizadas outras questões pelas políticas públicas. Por outro lado, é impagável a desconstrução harmônica no arranjo de “Último Dia”, de Paulinho Moska, trazendo a tragédia do fim do mundo, dialogando a letra com a musicalidade, de forma teatral, tensa e envolvente, rompendo a simplicidade com que o autor imprime em sua versão, mas dando um colorido diferente que anuncia uma catástrofe, mesclando sentimentos antagônicos como alegria, ironia, sensualidade, espanto, felicidade e deboche. É um dos momentos apoteóticos, pois joga em nossa cara toda hipocrisia social e a futilidade que valorizamos muito mais que a responsabilidade com as nossas relações pessoais e o cuidado com o outro.

Os anos fez muito bem a esse polêmico artista, ousado, carismático e irreverente, mas de personalidade forte e marcante. Sua voz imprime em nossa memória a magia que só a música nos faz recordar. Sua voz, afinadíssima, única, tem juventude, energia, vitalidade, potencia e assertividade, num exercício pleno percorrendo toda escala musical e mais ainda, traz a sutileza de tons suaves e agudos em contraponto dos acordes mais altos e potentes, numa explosão de emoção e vibração. Seus back vocals é um show a parte, pois conseguem se destacar sem apagar o brilho da voz principal, transitando em uma harmonia de beleza e sensibilidade. O figurino, uma marca registrada do trabalho do cantor, sempre chama a atenção, e desta vez, quem assina é o estilista Lino Villaventura. Ney sempre foi ousado e transgressor, nunca se repetiu, sempre exibindo algo novo, diferente do que já mostrou em qualquer concerto anterior e nesse show não seria diferente, é surpreendente.

As performances cênicas e coreografias impecáveis é outro detalhe impressionante, a iluminação aconchegante, vídeos coerentes com cada música fazem um perfeito casamento…, é prazer, é sedução e denuncia – No beco escuro corre a violência… arranjo elaborado com uma sensibilidade muito aguçada traz percepções emotivas aos ouvintes, provocadas pelas letras cantadas, exprime calor e frio, o bater forte do coração, emocionar. As releituras das músicas ficaram extraordinariamente teatrais, fortes e representativas, legitimando ainda mais o discurso proposto na poesia. Em “Inominável”, de Dan Nakagawa, a única interpretação inédita do repertório, surge totalmente afinado com a coerência de quem continua narrando uma história a ser contada.

Ney interage com maestria pela musicalidade de cada sonoridade, escorregando seu corpo sensual por entre as notas musicais, um espetacular duelo entre sua bela voz e os arranjos que nos envolve num discurso único, sensações de que aquele bloco que o artista quer pôr na rua está saindo e seguindo rumo ao país ideal que ele tanto ama, e que para o espectador é impossível deixar de segui-lo, sem mergulhar na intensidade e interatividade que Ney nos presenteia com sua música. Imperdível, escandalosamente maravilhoso, arrebatador, sedutor, um menestrel que nos influencia ao chamar todos nós para por o bloco na rua.

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Escritor, Redator, Publicitário,
Designer Gráfico e Fotógrafo.

Ney Matogrosso – Turnê “ Bloco na Rua”

Set List:

Eu quero é botar meu bloco na rua, (Sérgio Sampaio).
Jardim da Babilônia (Rita Lee), 

O beco (Herbert Vianna e Bi Ribeiro),

Álcool (Bolero Filosófico) (DJ Dolores),

Já sei (Itamar Assumpção)

Pavão Mysterioso (Ednardo)

Tua cantiga (Chico Buarque), 

Mais feliz (Cazuza e Bebel Gilberto), 

A maçã (Raul Seixas), 

Yolanda (Chico Buarque e Pablo Milanez)

Postal de amor (Fagner e Fausto Nilo)

Ponta do lápis (Rodger Rogério e Clodo Ferreira)

Tem gente com fome (Solano Trindade)

Corista de Rock (Rita Lee)

Já que tem que (Itamar Assumpção).

Último Dia (Paulinho Moska)

Inominável, Dan Nakagawa, (única inédita)
Sangue latino (João Ricardo e Paulinho Mendonça).

Bis:

Coração civil (Milton Nascimento e Fernando Brant), 

Mulher barriguda (Solano Trindade e João Ricardo) 

Como dois e dois (Caetano Veloso), 

Feira moderna (Beto Guedes)