Senado Memorável: Virgínia Malheiros Galvez
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Virgínia Malheiros Galvez construiu uma trajetória singular no jornalismo brasileiro, na comunicação pública e na preservação da memória institucional do Senado Federal. Jornalista formada pela Universidade de Brasília, ela iniciou sua carreira em 1979, no Jornal de Brasília, como estagiária no fechamento da editoria de Economia.
Naquele ambiente, aprendeu a importância da matéria correta, bem editada e capaz de comunicar o fato com clareza. Também assimilou o valor do título jornalístico, elemento que, segundo ela, deve exprimir a ideia central do texto. A prática diária, somada aos excelentes professores da UnB, consolidou sua formação antes mesmo da graduação, concluída em 1981.
Depois, a jornalista passou pelo Correio Braziliense e pelo Estado de S. Paulo, cobrindo temporariamente a área de Cidades. Em 1981, foi contratada como repórter de Geral em O Globo, em Brasília, onde passou a conviver diretamente com o poder na Esplanada dos Ministérios. Em 1983, recebeu convite da Folha de S. Paulo para atuar como setorista no Ministério da Justiça.
Tabela de conteúdos
- Senado Memorável: Virgínia Malheiros Galvez
- Da redemocratização ao Diário da Constituinte
- A janela da democracia
- Da TV Globo à Câmara dos Deputados
- Luís Eduardo Magalhães, Fernando Lyra e o aprendizado institucional
- A chegada ao Senado e os primeiros anos da TV Senado
- A revolução digital e a preservação da memória
- A expansão da TV e da Rádio Senado pelo Brasil
- A integração da Comunicação Social do Senado
- O impeachment de Dilma Rousseff e a consolidação da transparência
- As Fallas do Throno e o resgate da história do Império
- Cultura Alternativa agradece
Da redemocratização ao Diário da Constituinte
Na Folha de S. Paulo, a profissional acompanhou momentos decisivos da redemocratização brasileira, como a anistia, o movimento das Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves e a turbulência causada por sua morte. Ela recorda a tensão de uma manifestação na Esplanada dos Ministérios, quando o general Newton Cruz, então comandante Militar do Planalto, percorria a área a cavalo, símbolo temido da ditadura militar.
Também relembra a tentativa de invasão ao antigo Departamento Nacional de Telecomunicações, o Dentel, no Ministério das Comunicações. Por pouco, escapou de ser presa. Durante a agonia de Tancredo Neves, acompanhou, no Ministério da Justiça, as articulações conduzidas pelo ministro Fernando Lyra, que recebia lideranças da chamada Nova República, como Fernando Henrique Cardoso e José Paulo Sepúlveda Pertence.
Em 1987 e 1988, viveu uma das experiências mais marcantes de sua carreira: o Diário da Constituinte. O programa institucional, exibido diariamente por cinco minutos em rede nacional, antes do Jornal Nacional, mostrava ao Brasil os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. O projeto tinha o apoio decisivo de Ulysses Guimarães, que considerava essencial a participação popular e a ampla divulgação dos debates.
A janela da democracia
No Diário da Constituinte, atuou como repórter e chefe de reportagem. Entrevistou parlamentares de diferentes correntes, inclusive políticos que raramente tinham espaço nos grandes veículos nacionais. Entre eles, cita José Genoíno e outros nomes que, à época, não apareciam com frequência na televisão.
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Abert, resistiu à veiculação obrigatória do programa, mas não conseguiu impedir sua transmissão. O Diário da Constituinte tornou-se, segundo a entrevistada, uma verdadeira “janela da democracia”. As equipes cobriram reuniões, sessões, entrevistas, manifestações e até a pajelança dos povos indígenas realizada no alto do Congresso Nacional.
O Salão Verde da Câmara dos Deputados virou ponto de gravação. Parlamentares formavam fila para defender emendas, comentar acontecimentos ou mandar recados ao país. A equipe chamava internamente aquele momento de “fila do leite”. No fim da tarde, começava a corrida para fechar o programa e levar a fita à Radiobrás, na Torre de TV, para exibição às 19h45. Em 3 de outubro de 1988, a repórter chorou ao ver Ulysses Guimarães erguer a Constituição da Cidadania.
Da TV Globo à Câmara dos Deputados
A experiência na Constituinte consolidou seu encanto pela comunicação pública e pela televisão. Após passagem pelo programa Estação Ciência, da Ema Vídeo, em Brasília, seguiu para a TV Globo Brasília. Trabalhou na edição do DFTV e, depois, na produção da editoria Nacional.
Era o período de inflação elevada, remarcação constante de preços, tensão nos supermercados e instabilidade econômica. Com a eleição de Fernando Collor, vieram medidas drásticas, como o confisco, que impactaram profundamente a população brasileira.
Para reforçar o orçamento doméstico, passou a trabalhar também na Câmara dos Deputados, onde assumiu sozinha a assessoria de imprensa da Liderança do PFL. Ali criou, escreveu e editou um boletim diário impresso, usado para divulgar os temas do dia e as orientações do líder Ricardo Fiuza à bancada nas votações do Plano Collor.
Luís Eduardo Magalhães, Fernando Lyra e o aprendizado institucional
Depois, integrou a assessoria do deputado Fernando Lyra, então titular da Segunda Vice-Presidência da Câmara dos Deputados, responsável pela Corregedoria. Ao lado da jornalista Amália Maranhão, ex-colega da Folha, administrou a relação com a imprensa durante os processos dos deputados envolvidos no escândalo dos “Anões do Orçamento”.
Essa experiência reforçou sua convicção de que jornalistas podem realizar trabalho técnico e competente para figuras da direita ou da esquerda sem abandonar suas próprias convicções. Em 1995, com a nova Mesa da Câmara, passou a integrar a assessoria de imprensa do recém-eleito presidente da Câmara, deputado Luís Eduardo Magalhães.
Naquele gabinete, acompanhou articulações políticas importantes, como debates relacionados à reeleição presidencial. Trabalhou ao lado de Ronaldo Paixão, então diretor da Secretaria de Comunicação da Câmara, colega que recorda com admiração.
A chegada ao Senado e os primeiros anos da TV Senado
Em 1997, a jornalista prestou concurso para a TV Senado. Foi aprovada em boa colocação e assumiu no início de 1998. A emissora havia sido inaugurada em 5 de fevereiro de 1996, por iniciativa do jornalista Fernando Cesar Mesquita, com apoio do então presidente do Senado, José Sarney.
A TV Senado ainda enfrentava dificuldades técnicas, escassez de equipamentos e poucos repórteres. A nova servidora dividiu a chefia de reportagem com Marba Furtado e Leila Daher, amiga e parceira dos tempos do Diário da Constituinte.
Ela guarda lembranças especiais da repórter Solange Calmon, posteriormente reconhecida nacionalmente pelo programa Inclusão. Também destaca o trabalho de profissionais como Silvio Schmidt, Max Fabiano, Arthur da Távola, Helival Rios, Agnaldo Scardua e tantos outros que contribuíram para consolidar a emissora. Nesse processo de evolução tecnológica e administrativa, contou ainda com o apoio de Agaciel Maia, então diretor-geral do Senado. Henrique Lima Santos Filho, conhecido como Reco, não integrava a equipe da TV Senado: ele é presidente do Clube do Choro e participou de outra importante parceria cultural desenvolvida com a emissora.
A revolução digital e a preservação da memória
Outro capítulo marcante de sua trajetória foi a implantação do sistema digital de produção e veiculação da TV Senado. A então diretora participou diretamente da modernização tecnológica que transformou o acervo analógico em um dos mais importantes bancos digitais de memória institucional do país.
O trabalho envolveu jornalistas, técnicos, engenheiros de televisão e especialistas do Prodasen. A migração permitiu preservar cerca de 100 mil horas de conteúdos produzidos pela TV Senado, Rádio Senado e Agência Senado, protegendo documentos históricos de riscos de deterioração.
A iniciativa deu origem ao Centro de Documentação Multimídia do Senado, tornando muito mais fácil localizar imagens, áudios e registros históricos da atividade legislativa brasileira.
A expansão da TV e da Rádio Senado pelo Brasil
A servidora também coordenou, ao lado do engenheiro João Carlos Barizon, a expansão da TV Senado e da Rádio Senado para diversas regiões do país. O projeto buscava aproximar o cidadão brasileiro do trabalho legislativo por meio de transmissões gratuitas.
As equipes percorreram capitais, visitaram assembleias legislativas e buscaram parcerias para instalação de transmissores e antenas. Posteriormente, acordos com a Câmara dos Deputados permitiram ampliar a cobertura nacional utilizando a tecnologia digital.
A expansão fez crescer significativamente a audiência dos veículos do Senado. Muitos parlamentares passaram a perceber diretamente o impacto da comunicação institucional junto aos cidadãos de seus estados.
A integração da Comunicação Social do Senado
Ao assumir a direção da Secretaria de Comunicação Social do Senado Federal, a convite do presidente Renan Calheiros, a experiente comunicadora promoveu uma ampla integração dos veículos de comunicação da Casa.
Com o apoio do jornalista Luís Carlos Fontelles e de diversas equipes, fortaleceu a Assessoria de Imprensa institucional e aprimorou processos internos para garantir mais rapidez e qualidade na divulgação das atividades legislativas.
Entre suas principais realizações está a criação do Portal Multimídia, atualmente Senado Multimídia, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Taquigrafia. A ex-diretora destaca especialmente a participação de Quésia Cunha e Glebson Moura da Silva no desenvolvimento da plataforma.
O sistema passou a oferecer transmissões ao vivo, acesso a vídeos, áudios, notas taquigráficas e mecanismos avançados de pesquisa para qualquer cidadão interessado em acompanhar o trabalho parlamentar. Dessa maneira, qualquer pessoa passou a poder acompanhar pelo computador, ao vivo ou posteriormente por meio das gravações, as reuniões das comissões e as sessões plenárias, sem depender exclusivamente da programação da televisão. O recurso tornou-se especialmente relevante diante da quantidade de eventos legislativos realizados simultaneamente, que tornaria impossível exibir todo esse conteúdo ao mesmo tempo em um único canal da TV Senado.
O impeachment de Dilma Rousseff e a consolidação da transparência
Um dos maiores desafios de sua gestão foi a cobertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016.
A TV Senado transmitiu integralmente as reuniões da comissão especial e os debates finais no plenário. Nos dois últimos dias do julgamento, a emissora permaneceu cerca de 60 horas consecutivas no ar.
A cobertura registrou números expressivos para a época. Milhões de visualizações foram contabilizadas na internet. Além disso, o Senado recebeu mais de 1.500 jornalistas nacionais e estrangeiros, que acompanharam o processo e tiveram plenas condições de trabalho oferecidas pela estrutura da Casa para realizar a cobertura dos acontecimentos.
Para a gestora, aquele episódio demonstrou a importância de uma comunicação pública profissional, transparente e acessível à sociedade.
As Fallas do Throno e o resgate da história do Império
Após deixar a Secretaria de Comunicação, passou a atuar no Arquivo Histórico do Senado, sob a coordenação da arquivista Rosa Vasconcelos.
A investigação ampliou significativamente o número de documentos catalogados e permitiu recuperar discursos assinados por d. Pedro I, d. Pedro II, princesa Isabel, padre Antônio Feijó e outros regentes do Império.
O trabalho envolveu consultas ao Senado Federal, Câmara dos Deputados, Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Fazenda e diversas outras fontes históricas.
Lançada em 3 de maio de 2023, durante sessão solene que comemorou os 200 anos do Poder Legislativo, a obra foi publicada em quatro volumes pela Gráfica do Senado Federal.
Para Virgínia Malheiros Galvez, o projeto representou uma jornada intelectual fascinante e uma oportunidade única de compreender com profundidade a formação da nacionalidade brasileira, o funcionamento do Império e a construção das instituições políticas do país.
Cultura Alternativa agradece
O Portal Cultura Alternativa agradece à jornalista Virgínia Malheiros Galvez pela riqueza das informações compartilhadas para o Projeto Senado Memorável. Seu depoimento preserva momentos importantes da história da imprensa brasileira, da Assembleia Nacional Constituinte, da comunicação pública e da evolução institucional do Senado Federal.
Registramos também nosso reconhecimento ao trabalho de Fernando Araújo, coordenador do Grupo de Criação em Arte do Projeto Senado Memorável. Sua dedicação tem sido fundamental para organizar, preservar e divulgar relatos que ajudam a construir a memória do Parlamento brasileiro.
Ao reunir depoimentos de profissionais que participaram diretamente de acontecimentos históricos, o projeto contribui para que futuras gerações compreendam melhor a evolução das instituições democráticas do Brasil e o papel desempenhado por homens e mulheres que ajudaram a registrar essa trajetória.
Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa

