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Alimentação sustentável: pequenas mudanças podem transformar uma cidade?

Uma cidade inteira precisa se tornar vegetariana para diminuir o impacto ambiental de sua alimentação?

A experiência de Ghent, na Bélgica, sugere outro caminho: mudar aos poucos, oferecer alternativas saborosas e fazer da alimentação sustentável um hábito possível.

Desde 2009, a cidade promove a chamada Quinta-feira Vegetariana. Nesse dia, escolas municipais, creches e serviços públicos oferecem refeições sem carne.

A iniciativa, porém, não ficou restrita a um único dia da semana. Ao longo dos anos, restaurantes, empresas e instituições passaram a ampliar a presença de alimentos de origem vegetal nos cardápios.

O resultado ajuda a mostrar que pequenas decisões, quando adotadas coletivamente, podem produzir efeitos relevantes.

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Alimentação sustentável

Um dos aspectos mais interessantes da experiência de Ghent está na maneira como a mudança foi conduzida.

Em vez de exigir que a população abandone completamente os alimentos de origem animal, a cidade investiu na ampliação das opções vegetais, em oficinas culinárias, na capacitação de restaurantes e em ações educativas.

Nas escolas, além das refeições vegetarianas às quintas-feiras, os demais dias passaram a utilizar preparações nas quais a quantidade de proteína animal pode ser reduzida e combinada com ingredientes vegetais.

Sabor e aceitação também fazem parte da estratégia. Afinal, uma alimentação ambientalmente responsável dificilmente se tornará permanente se as pessoas não tiverem prazer em comer.

Os números ajudam a dimensionar o efeito dessa transformação.

Segundo a prefeitura de Ghent, entre 2018 e 2022 houve redução de 38% nas emissões de CO₂ associadas às refeições escolares. A diminuição da compra de carne vermelha teve papel importante nesse resultado.

A cidade também estabeleceu como objetivo avançar para uma proporção alimentar composta por 60% de proteínas vegetais e 40% de origem animal.

Portanto, a estratégia não está baseada necessariamente na exclusão, mas na mudança de proporção.

Essa talvez seja uma das lições mais interessantes da experiência belga.

Alimentação sustentável

Quando pensamos em políticas ambientais urbanas, normalmente lembramos de transporte público, reciclagem, energia ou áreas verdes.

Entretanto, aquilo que uma cidade coloca no prato de milhares de pessoas todos os dias também produz efeitos ambientais.

Escolas, hospitais, universidades, restaurantes populares e outros equipamentos públicos compram grandes volumes de alimentos.

Consequentemente, pequenas alterações nesses cardápios podem alcançar uma escala que escolhas individuais dificilmente atingiriam sozinhas.

Além disso, mudanças na alimentação podem estimular produtores locais, reduzir desperdícios e ampliar o consumo de legumes, verduras, cereais e leguminosas.

O país já possui uma estrutura capaz de tornar essa discussão especialmente relevante: o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE.

As normas atualizadas em 2026 reforçam a oferta de alimentos in natura e minimamente processados, a sustentabilidade dos cardápios e o respeito aos hábitos e à cultura alimentar de cada região.

Além disso, pelo menos 45% dos recursos destinados à compra de alimentos devem ser direcionados à agricultura familiar, conforme as regras atuais do programa.

Isso significa que a busca por refeições mais sustentáveis não precisa importar modelos estrangeiros.

Arroz, feijão, mandioca, milho, abóbora, verduras, frutas e inúmeras preparações regionais já oferecem uma base para ampliar a presença dos vegetais sem abandonar a identidade da cozinha brasileira.

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Ghent também ensina algo importante sobre comportamento.

A reportagem do The Guardian mostra restaurantes nos quais muitos clientes nem sequer são vegetarianos. Eles escolhem determinados pratos porque gostam do sabor, e não necessariamente porque seguem uma identidade alimentar específica.

Essa mudança de perspectiva pode ser decisiva.

Em vez de perguntar se todas as pessoas deveriam deixar de comer carne, talvez seja mais produtivo perguntar quantas refeições poderiam ganhar mais vegetais ao longo da semana.

Uma segunda-feira sem carne, uma preparação com metade da quantidade habitual de proteína animal ou a descoberta de novas receitas com feijão, lentilha e grão-de-bico parecem decisões pequenas.

Multiplicadas por escolas, restaurantes, empresas e milhões de casas, porém, deixam de ser pequenas.

Talvez a alimentação sustentável comece exatamente assim: não pela obrigação de mudar tudo de uma vez, mas pela descoberta de que é possível comer de outra maneira — e continuar sentindo prazer à mesa.

REDAÇÃO SITE CULTURA ALTERNATIVA

Fontes

Prefeitura de Ghent — o programa iniciado em 2009 mantém refeições vegetarianas às quintas-feiras e informa redução de 38% nas emissões das refeições escolares entre 2018 e 2022. 

The Guardian — reportagem de Rachel Dixon, publicada em 21 de outubro de 2026, sobre a transformação da alimentação em Ghent e a expansão do comportamento flexitariano. 

FNDE — a Resolução nº 4/2026 atualizou as regras do PNAE e reforçou alimentação saudável e sustentável, alimentos in natura e minimamente processados e participação da agricultura familiar.