As Letras das músicas estão perdendo emoção_ - Cultura Alternativa

As letras das músicas estão perdendo emoção?

As letras das músicas estão perdendo emoção?

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As letras das músicas estão perdendo emoção? Uma pesquisa da Michigan State University, nos Estados Unidos, identificou uma redução das palavras ligadas diretamente aos sentimentos e às relações humanas. O levantamento examinou, ao todo, 38.467 canções de 230 artistas, lançadas entre 1947 e 2024, e acompanhou quase oito décadas de transformações na música popular.

A universidade divulgou o estudo em 16 de outubro de 2026. A pesquisa, por sua vez, foi publicada na revista Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts e analisou diferenças entre períodos históricos e mudanças ocorridas ao longo da carreira de cada artista. Cerca de 30 assistentes, além disso, conferiram manualmente as discografias reunidas para o trabalho.

Os resultados mostram uma diminuição das referências explícitas a emoções positivas e negativas, amizades, familiares e outros vínculos sociais. As palavras associadas à ansiedade, entretanto, tornaram-se mais frequentes, enquanto aquelas relacionadas à tristeza diminuíram. Essa descoberta não significa, contudo, que os compositores tenham perdido a sensibilidade, mas revela uma possível mudança na maneira de expressar sentimentos.

Menos palavras emocionais não significam menos sentimento

Uma composição pode, certamente, falar sobre solidão sem utilizar essa palavra. O autor, por exemplo, pode descrever um quarto vazio, uma mensagem sem resposta ou uma pessoa caminhando sozinha. Essas imagens comunicam abandono e distância afetiva, embora o vocabulário analisado por programas de computador nem sempre reconheça toda a emoção existente na narrativa.

A linguagem poética trabalha, muitas vezes, com metáforas, ironias, comparações e situações abertas a diferentes interpretações. Uma frase aparentemente simples pode, portanto, esconder sofrimento, saudade ou esperança. Quando uma pesquisa conta palavras associadas aos sentimentos, ela encontra tendências importantes, mas, ainda assim, não consegue alcançar todos os sentidos presentes na obra.

A canção também depende da melodia, da harmonia, do ritmo, da interpretação e do timbre da voz. Um verso curto ganha, às vezes, enorme intensidade por causa da maneira como o cantor o apresenta. O silêncio entre duas frases, da mesma forma, pode emocionar mais do que uma declaração direta. A letra representa, desse modo, apenas uma parte dessa experiência.

O que mudou ao longo das décadas

A equipe da Michigan State University encontrou dois movimentos. O primeiro surgiu, inicialmente, na comparação entre artistas de diferentes épocas. O segundo apareceu, posteriormente, dentro das trajetórias individuais, mostrando como o vocabulário de um mesmo intérprete ou compositor se transformou com o passar dos anos.

As diferenças históricas, de modo geral, foram maiores do que as mudanças ocorridas dentro das carreiras. Artistas clássicos do soul e do rock inicial, como Marvin Gaye e The Supremes, apresentaram maior presença de emoções positivas e referências sociais. Intérpretes antigos do country e do blues, por outro lado, concentraram mais palavras relacionadas à tristeza e aos sentimentos negativos.

Os pesquisadores esperavam, no entanto, encontrar outro comportamento. As pessoas costumam desenvolver maior equilíbrio emocional e valorizar relações significativas à medida que envelhecem. Nas letras, contudo, as expressões positivas e as referências sociais diminuíram ao longo das carreiras. Fatores culturais, escolhas artísticas e exigências da indústria musical podem, assim, ajudar a explicar essa transformação.

A Geração Z expressa os sentimentos de outra maneira

Relacionar o resultado diretamente à Geração Z exige cuidado. O estudo não entrevistou jovens nem analisou, exclusivamente, o repertório preferido desse público. Para compreender essa relação, seria necessário cruzar as letras com idade, hábitos de escuta, contexto social, plataformas utilizadas e interpretações dos ouvintes.

As músicas contemporâneas abordam, ainda assim, experiências reconhecidas pelos jovens. Ansiedade, medo de rejeição, relacionamentos instáveis, dificuldade de pertencimento e solidão aparecem em diferentes estilos. Esses sentimentos podem surgir, por exemplo, de forma direta ou por meio de relatos sobre festas, mensagens digitais, afastamentos, encontros passageiros e expectativas frustradas.

As plataformas também modificaram, profundamente, o contato com as canções. O público descobre faixas por vídeos curtos, listas automáticas e recomendações personalizadas. A composição precisa, em muitos casos, conquistar atenção rapidamente. Essa dinâmica pode favorecer refrões imediatos, frases curtas e repetições, embora, por outro lado, não impeça a existência de trabalhos profundos, confessionais e emocionalmente complexos.

Amor e tristeza permanecem na música brasileira

Uma pesquisa disponível no repositório da Universidade Federal de Santa Catarina analisou letras de artistas entre os mais ouvidos no Spotify Brasil entre 2014 e 2023. O estudo identificou, principalmente, emoções e assuntos relacionados ao amor e à tristeza. As narrativas afetivas, portanto, continuam ocupando um lugar central na produção musical brasileira contemporânea.

Outro trabalho, desenvolvido por José Matheus do Nascimento Gama na Universidade Federal de Campina Grande, utilizou processamento de linguagem natural para examinar emoções e temas da música popular brasileira. A investigação destacou, igualmente, a permanência do amor como assunto recorrente, embora também tenha encontrado mudanças na linguagem emocional ao longo das décadas.

Esses levantamentos brasileiros não podem ser comparados diretamente com o estudo norte-americano, pois utilizaram seleções e métodos diferentes. Eles revelam, mesmo assim, que os sentimentos não desapareceram das composições nacionais. Amor, sofrimento, desejo, separação e saudade continuam presentes, ainda que apareçam em novas formas de escrita e em gêneros musicais variados.

Ansiedade e angústia também aparecem nas canções

A revista Fórum Linguístico publicou, em 2020, um artigo de Thâmara Soares de Moura e Francisco Vieira da Silva sobre letras de Clarice Falcão e Tiago Iorc. Os pesquisadores analisaram, nesse trabalho, trechos dos álbuns Tem conserto e Reconstrução para compreender como as obras apresentam sujeitos ansiosos, deprimidos, cansados e desmotivados.

O estudo encontrou, dessa maneira, uma escrita marcada pela angústia, pela exaustão e pelo sofrimento emocional. A análise, entretanto, ficou concentrada em duas composições e não representa toda a música brasileira. Sua contribuição está, sobretudo, em mostrar como a criação artística transforma experiências difíceis em versos capazes de despertar reconhecimento e identificação.

Os métodos quantitativos e qualitativos, nesse sentido, podem trabalhar juntos. A contagem de milhares de palavras revela tendências amplas, enquanto a leitura atenta permite perceber metáforas, ambiguidades e emoções escondidas. Uma investigação completa precisa considerar os números, mas também deve, consequentemente, ouvir as canções e compreender os ambientes culturais nos quais elas surgiram.

A emoção pode ter mudado de linguagem

A pesquisa da Michigan State University levanta uma questão importante sobre a cultura contemporânea. As letras ficaram menos explícitas ao falar de sentimentos e vínculos sociais, porém isso não prova que os artistas atuais sejam frios ou menos sensíveis. O resultado mostra, na realidade, uma mudança de linguagem, não o desaparecimento da emoção.

A ansiedade ganhou espaço, ao mesmo tempo que a tristeza passou a receber menos referências diretas. Essa diferença pode indicar, portanto, que novas gerações nomeiam suas inquietações de outra maneira. Também pode refletir transformações sociais, tecnológicas e comerciais que influenciam tanto o processo criativo quanto a circulação das obras.

Antes de afirmar que as canções perderam sentimento, é necessário perguntar como elas o apresentam. A emoção pode estar na palavra, na metáfora, na voz, no ritmo ou até no silêncio. As letras talvez estejam dizendo menos diretamente, mas continuam, afinal, oferecendo caminhos para falar sobre amor, angústia, solidão, amizade e experiências afetivas.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa
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