Pesquisa da Embrapa revela que cereal obtido do cruzamento entre trigo e centeio pode substituir a farinha de trigo em biscoitos, bolos e outros produtos alimentícios.
O cultivo do triticale no Cerrado brasileiro começa a ganhar espaço como alternativa para diversificar a produção agrícola e ampliar as possibilidades da indústria alimentícia.
Uma pesquisa divulgada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 13 de outubro de 2026, apresenta resultados promissores para o aproveitamento desse cereal na alimentação humana.
Além de apresentar características favoráveis ao cultivo, o triticale demonstrou potencial para substituir parcial ou totalmente a farinha de trigo em diferentes receitas. Dessa forma, a descoberta pode abrir oportunidades para agricultores, fabricantes de alimentos e consumidores.
Segue o fio 🌾
- A pesquisa da Embrapa mostra que o cultivo do triticale no Cerrado pode substituir a farinha de trigo em diversos produtos alimentícios.
- O triticale, um cereal resultante do cruzamento entre trigo e centeio, apresenta características favoráveis como adaptação a solos difíceis e tolerância à seca.
- Estudos indicam que a farinha de triticale pode ser usada em até 100% em biscoitos, preservando a qualidade.
- Apesar dos resultados promissores, a substituição do trigo não é viável para todos os produtos, especialmente na panificação.
- A Ampliação do cultivo do triticale ainda enfrenta desafios como adaptação de cultivares e organização da cadeia produtiva.
O que é o triticale e por que ele desperta interesse?
O triticale é um cereal de inverno desenvolvido a partir do cruzamento entre trigo e centeio. Seu nome reúne referências às denominações científicas dos dois cereais.
Enquanto o trigo oferece características importantes para a produção de alimentos, o centeio contribui com rusticidade e adaptação a determinadas condições ambientais.
No Brasil, o triticale começou a ser cultivado na década de 1980. Inicialmente, sua utilização ficou concentrada na alimentação animal, principalmente na produção de rações para suínos e aves.
Entretanto, novas pesquisas indicam que o cereal também pode conquistar espaço na alimentação humana, especialmente na fabricação de biscoitos e produtos de confeitaria.
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Pesquisa identifica aplicações na indústria alimentícia
A Embrapa Trigo, em parceria com a empresa mineira Vilma Alimentos, avaliou a utilização da farinha de triticale em 11 produtos alimentícios.
Os resultados demonstraram viabilidade de utilização em seis deles. Além disso, em dois tipos de biscoito, os pesquisadores conseguiram substituir integralmente a farinha de trigo sem comprometer a qualidade.
Entre os principais resultados, destacam-se:
- Biscoitos moldados: substituição de até 100% da farinha de trigo.
- Biscoitos de maisena: utilização de até 30% de farinha de triticale, preservando textura, cor e sabor.
- Bolos, pizzas e wafers: possibilidade de substituição parcial.
- Pães: mistura de 50% de trigo e 50% de triticale, adequada a produtos de baixo crescimento.
Segundo a pesquisadora Jane Machado, da Embrapa Trigo, o cereal também contribui para características como crocância e firmeza dos biscoitos.
Consequentemente, sua utilização pode dispensar determinados aditivos empregados para alcançar esses atributos, dependendo da formulação.
Cultivo do triticale no Cerrado apresenta resultados promissores
A adaptação agrícola representa outra frente importante da pesquisa.
Em 2026, experimentos conduzidos em Carandaí, na Zona da Mata mineira, avaliaram oito cultivares de triticale em lavouras irrigadas.
Algumas parcelas registraram produtividade superior a cinco toneladas por hectare. Como referência, a Embrapa informa que a produtividade média do triticale irrigado no Cerrado varia entre três e quatro toneladas por hectare.
Além disso, pesquisadores identificaram características favoráveis ao cultivo em determinadas condições de solo e disponibilidade de água.
O cereal apresenta raízes profundas, tolerância à seca e capacidade de adaptação a solos ácidos e arenosos.
Entretanto, essas características não significam que todas as variedades sejam adequadas ao Cerrado. A escolha da cultivar e o manejo agrícola continuam determinantes para o desempenho das lavouras.
O triticale pode substituir completamente o trigo?
Apesar dos resultados positivos, a substituição não funciona igualmente para todos os alimentos.
Na panificação, por exemplo, a farinha de triticale apresenta menor força de glúten, o que dificulta a produção de pães volumosos.
Por outro lado, essa característica pode favorecer produtos que não precisam de grande expansão da massa, como determinados biscoitos.
Outro esclarecimento importante: o triticale contém glúten. Portanto, não constitui alternativa segura para pessoas com doença celíaca.
Além disso, sua utilização não transforma automaticamente um alimento industrializado em uma opção mais saudável. O valor nutricional depende da composição completa do produto.
Quais são os desafios para ampliar a produção?
Embora os resultados sejam animadores, o cultivo do triticale no Cerrado ainda não aparece nas estatísticas agrícolas oficiais de produção.
Para alcançar escala comercial, será necessário avançar na adaptação de cultivares, na organização da cadeia produtiva e na identificação de mercados consumidores.
Ao mesmo tempo, a indústria precisará avaliar custos, disponibilidade regular de matéria-prima e aceitação dos produtos.
A pesquisa aponta, portanto, uma oportunidade de diversificação agrícola, mas ainda não comprova vantagens econômicas ou ambientais generalizadas.

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Uma nova perspectiva para a alimentação brasileira
O avanço das pesquisas com triticale demonstra como a ciência agrícola pode transformar um cereal tradicionalmente associado à alimentação animal em matéria-prima para novos produtos.
Além disso, a iniciativa evidencia a importância de aproximar agricultores, pesquisadores e empresas alimentícias.
O próximo desafio será transformar os resultados experimentais em produtos comercialmente viáveis, mantendo qualidade, segurança alimentar e transparência nas informações oferecidas aos consumidores.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes
Embrapa, 13 de outubro de 2026: Cultivo do triticale no Cerrado amplia oportunidades para a indústria de alimentos.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): Rotulagem de alimentos.
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