Lucca Cafés Especiais - Cultura Alternativa

Lucca Cafés Especiais: gastronomia e café no Batel em Curitiba

Lucca Cafés Especiais: gastronomia e café no Batel

Tempo de Leitura – 11 minutos

Lucca Cafés Especiais, no Batel, em Curitiba, reúne gastronomia, métodos de extração, torrefação e uma carta dedicada a diferentes perfis de cafés brasileiros. Durante nossa passagem pela capital paranaense, visitamos a casa nesta segunda-feira, 10 de agosto de 2026, para conhecer uma proposta que coloca o café no centro da experiência e, ao mesmo tempo, desenvolve uma cozinha baseada em pães de fermentação natural, brunch, ovos, tartines, sanduíches e confeitaria.

O cardápio funciona, além disso, como instrumento de informação. Em vez de apresentar somente nomes de bebidas, descreve fazendas, produtores, municípios, altitudes, processos, variedades, pontuações e características sensoriais dos grãos. Essa organização aproxima o consumidor das etapas anteriores à xícara e, consequentemente, ajuda a compreender por que cafés cultivados em regiões distintas podem apresentar aromas, acidez, corpo, doçura e retrogostos diferentes.

A experiência gastronômica acompanha essa especialização, enquanto a casa oferece opções que vão do café da manhã às refeições leves. Nós escolhemos o Combo 6, composto por misto quente tradicional ou integral, suco de laranja e café filtrado do dia ou cappuccino. Nossa experiência com a combinação foi espetacular e, por sua vez, mostrou como preparações aparentemente simples podem dialogar diretamente com a identidade de uma cafeteria especializada.

Uma carta dedicada aos cafés brasileiros

O Lucca organiza parte dos cafés por características predominantes, como floral, cítrico, frutado, fermentado e chocolate. Entre os frutados está o café da Fazenda Bioma, de Campos Altos, no Cerrado Mineiro. Produzido por Flávio Márcio e Marcelo Nogueira, passa por fermentação induzida, utiliza a variedade Arara e alcança 88,25 pontos. A ficha sensorial indica flor, pêssego e maracujá no aroma, enquanto o sabor apresenta pêssego e maracujá com retrogosto de melado.

Na categoria dos fermentados, o Sítio Morro Preto, de Muzambinho, no Sul de Minas, apresenta pontuação 89. O café, contudo, assume perfil bastante diferente: a descrição aponta aromas de morango, vinho e hibisco, além de sabores de morango, vinho e chocolate e retrogosto de nibs de cacau. Já o Venturim, do semiárido capixaba, utiliza Conilon Diamante e, paralelamente, apresenta referências a noz-moscada, canela, açúcar mascavo, cacau e whisky.

Os perfis achocolatados ampliam ainda mais a seleção. O Espresso Naimeg, de Coromandel, traz chocolate, frutas secas, coco queimado e especiarias, enquanto o Blend Clássico aposta no chocolate equilibrado, baixa acidez e corpo cremoso. Por outro lado, o Blend Nero apresenta chocolate amargo, corpo alto e acidez baixa. Dessa maneira, o consumidor pode escolher o grão não apenas pela origem, mas também pela família sensorial que pretende explorar.

Métodos mudam a experiência na xícara

A carta de filtrados contempla Hario V60, Clever, Chemex, Origami, French Press, Kalita, Aeropress e Syphon. Cada método interfere, consequentemente, na relação entre água, moagem, tempo de contato e filtragem. O V60 favorece uma bebida limpa, enquanto a French Press mantém maior quantidade de óleos. A Chemex, em contrapartida, utiliza filtragem capaz de produzir uma xícara de perfil mais limpo.

O Aeropress combina infusão, filtragem e pressão, ao passo que o Syphon utiliza vácuo durante a extração. O Origami adota um desenho inspirado nas dobraduras japonesas, enquanto Clever e Kalita apresentam outras possibilidades para controlar fluxo e tempo. Assim, o cliente pode experimentar diferentes interpretações do mesmo universo de cafés especiais sem, entretanto, ficar restrito ao espresso tradicional.

A casa também oferece espresso, lungo, ristretto, doppio, cappuccino, café latte, doppio latte, café mocha, macchiato e outras receitas. Paralelamente, há uma seleção de cafés gelados, incluindo cold brew, iced latte, caramel mocha, mocha freddo e espresso tônica. A amplitude da carta, portanto, contempla desde quem procura uma extração sem leite até preparações mais elaboradas.

Pães de fermentação natural estruturam a cozinha

Um elemento importante da gastronomia do Lucca está nos pães de fermentação natural, ou sourdough. Segundo o próprio cardápio, os principais ingredientes são farinha, água, fermento natural e sal. A farinha utilizada é paranaense e vem diretamente da Moageira Irati, enquanto o desenvolvimento dos pães foi realizado, por sua vez, em parceria com Eduardo Freire, da própria moageira.

O processo, conforme explica a casa, ultrapassa 48 horas até o pão ficar pronto. A longa fermentação e a alta hidratação produzem, segundo a descrição apresentada no menu, casca mais fina e miolo úmido. Além disso, o escurecimento da superfície decorre da caramelização dos açúcares em altas temperaturas, fenômeno relacionado à reação de Maillard.

Esses pães aparecem em diferentes pontos da carta, principalmente nas tartines e nos sanduíches. O Caprese reúne pesto, tomate fresco, mozzarella de búfala e rúcula, enquanto o Avocado Toast acrescenta abacate, tomate, ovo cozido e cebollete. Já o Croque Madame combina presunto, mozzarella, gruyère, béchamel e ovos de codorna estrelados, demonstrando, desse modo, a presença de referências francesas na cozinha.

Brunch, ovos e sanduíches

A seção de ovos oferece alternativas que ultrapassam as preparações mais convencionais. O Benedict reúne pão de fermentação natural, dois ovos poché, bacon, rúcula, molho holandês e pimenta-do-reino. Há, ainda, omelete simples, omelete light e omelete de cogumelos, além do tradicional ovo estalado na manteiga.

Entre os sanduíches aparecem queijo quente, misto quente, bauru e bauru com rúcula. O Croque Monsieur mantém a referência francesa ao combinar pão de forma, queijo mozzarella, presunto, béchamel e gruyère. Outra preparação que chama atenção no cardápio é o Ambulante, feito com ciabatta, mignon, mozzarella, cebola caramelizada e, adicionalmente, mostarda Dijon.

A carta ainda reserva espaço para saladas e sopa. A salada de frango grelhado leva folhas, tomate-cereja, migas de pão e molho de mostarda, enquanto a versão com mignon incorpora cogumelo Paris fresco e lascas de parmesão. A vichyssoise de alho-poró, por sua vez, chega acompanhada de ovo poché e pão com queijo gruyère gratinado.

Combo 6: nossa escolha no Lucca

Escolhemos o Combo 6, formado por misto quente, suco de laranja e café filtrado do dia ou cappuccino. Nós optamos por experimentar essa composição justamente por reunir três elementos capazes de representar uma experiência clássica de cafeteria: sanduíche quente, bebida fresca e café. O resultado, para nós, foi espetacular e, sobretudo, mostrou equilíbrio dentro de uma proposta aparentemente simples.

O misto quente trabalha com uma combinação conhecida do público, enquanto sua inserção em uma casa que dá importância aos pães cria outra perspectiva para o preparo. O suco de laranja acrescenta o componente cítrico e refrescante, ao passo que o café fecha a sequência dentro da especialidade que define o estabelecimento. A combinação funciona, portanto, tanto para um café da manhã quanto para uma pausa durante o dia.

Nossa experiência também demonstrou que o cardápio não depende exclusivamente das preparações tecnicamente mais complexas para expressar sua proposta. Ao contrário, um combo relativamente tradicional permite perceber a integração entre cozinha e cafeteria. Nesse sentido, o Lucca consegue colocar o café especial ao lado de alimentos reconhecíveis sem, contudo, transformar a refeição em algo excessivamente formal.

Folhados, confeitaria e sobremesas

A confeitaria apresenta uma seleção ampla de bolos e folhados. Entre os destaques estão croissant, pain au chocolat, croissant de amêndoas, Danish de mirtilo e amora, Pain Suisse, pão de mico e galette lorraine. O cardápio inclui, igualmente, bolo em fatia, bolo de especiarias e bolo amanteigado.

Na seção de doces aparecem financier, brownie, tortas em fatia, éclair, tartelettes, barrinha de caramelo, sorvete artesanal, canelé, macaron e cookie. Há também brownie servido com sorvete e calda. Dessa forma, a confeitaria cria possibilidades de harmonização com diferentes perfis de espresso ou filtrados apresentados pela casa.

O affogato al caffè talvez seja a preparação que simbolize de maneira mais direta essa aproximação entre sobremesa e cafeteria. A receita reúne sorvete e café, portanto coloca novamente o grão como elemento gastronômico, e não apenas como bebida complementar. Essa presença recorrente ajuda, consequentemente, a manter unidade entre as diferentes seções do menu.

Arquitetura mistura referências industriais e contemporâneas

A arquitetura do Lucca combina elementos industriais com referências de cafeterias urbanas contemporâneas. A estrutura metálica aparente, as colunas escuras e a cobertura com perfis pretos estabelecem uma linguagem industrial, enquanto o piso claro, dividido por linhas geométricas escuras, organiza visualmente os diferentes ambientes. Ao mesmo tempo, a madeira empregada no balcão, nas mesas e nas cadeiras introduz uma camada mais acolhedora.

O grande balcão funciona como um dos centros visuais do salão. As paredes em tom alaranjado criam contraste com estruturas pretas e equipamentos metálicos, enquanto luminárias pendentes descem sobre a área de preparo. A abertura lateral, por outro lado, favorece a entrada de iluminação natural, e a vegetação junto às áreas envidraçadas suaviza, simultaneamente, a presença dos materiais industriais.

A torrefação visível acrescenta outra dimensão arquitetônica ao espaço. Sacas de café, recipientes com grãos e a própria máquina de torra deixam parte da cadeia produtiva exposta ao visitante. Assim, equipamentos normalmente associados aos bastidores passam a integrar a paisagem da cafeteria, reforçando visualmente, por consequência, a relação entre origem, processamento, torra, preparo e consumo.

Lucca Lab amplia a experiência com educação

O Lucca também mantém um laboratório no mezanino, equipado, segundo as informações disponíveis na própria casa, com máquinas de espresso, máquina de torra, métodos para café filtrado, chaleiras elétricas e utensílios especializados. O espaço foi desenvolvido para aulas e, além disso, para atividades relacionadas ao universo dos cafés especiais.

O Lucca Lab informa integrar a Specialty Coffee Association e atuar na formação de baristas desde 2009. Segundo o material apresentado no estabelecimento, mais de 200 alunos já receberam certificação por meio do Coffee Skills Program. A programação inclui, entre outras possibilidades, introdução aos cafés especiais, barista de café espresso, barista de café filtrado, análise sensorial e torra.

Essa vertente educacional complementa a proposta gastronômica porque permite acompanhar várias etapas que antecedem a bebida pronta. Enquanto o salão apresenta diferentes grãos e métodos ao consumidor, o laboratório aprofunda os aspectos técnicos para profissionais e interessados. A cafeteria, desse modo, funciona simultaneamente como espaço gastronômico, torrefação e ambiente de aprendizagem.

Atendimento de João Vitor

Durante nossa visita, João Vitor ficou responsável pelo atendimento da mesa. O serviço foi espetacular, marcado pela atenção durante a permanência no estabelecimento e pela disponibilidade para acompanhar nossa experiência. Em uma cafeteria com uma carta extensa e tecnicamente detalhada, a atuação de quem atende pode, certamente, fazer diferença na compreensão das inúmeras possibilidades disponíveis.

João Vitor conduziu o atendimento de maneira compatível com uma casa na qual o cliente encontra cafés de diversas origens, processos e perfis sensoriais. Além disso, a variedade gastronômica exige conhecimento suficiente para relacionar os diferentes setores do cardápio e, ao mesmo tempo, esclarecer as escolhas apresentadas.

Nossa passagem pelo Lucca Cafés Especiais mostrou, finalmente, uma cafeteria em que gastronomia, torrefação, arquitetura e conhecimento sobre o café convivem no mesmo endereço. O Combo 6 proporcionou uma experiência espetacular, enquanto a diversidade do menu revelou inúmeras possibilidades para outras visitas. No Batel, o estabelecimento apresenta, dessa maneira, o café brasileiro desde a identificação da fazenda e do produtor até a bebida servida à mesa.

Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa