Microplásticos no organismo: o que acontece depois que essas partículas entram no corpo?
Os microplásticos já chegaram a diferentes partes do corpo humano, mas a ciência ainda busca compreender o que ocorre depois que essas partículas atravessam as barreiras do organismo.
Uma nova pesquisa indica que elas podem interagir diretamente com células do sistema imunológico e provocar alterações que variam conforme o tamanho das partículas.
O estudo, publicado na revista Nature Metabolism, analisou microplásticos e nanoplásticos em modelos experimentais.
Os resultados chamam atenção principalmente para os macrófagos, células que reconhecem, capturam e eliminam partículas estranhas.
Antecipe a leitura
- Microplásticos já estão presentes em várias partes do corpo humano, e a ciência investiga como eles interagem com células do sistema imunológico.
- Estudos mostram que microplásticos podem afetar macrófagos no fígado, alterando sua função e o metabolismo hepático.
- O tamanho das partículas influencia as respostas biológicas: microplásticos maiores têm efeitos diferentes de nanoplásticos no organismo.
- Apesar de evidências em modelos experimentais, ainda não se pode afirmar que microplásticos causam doenças em humanos.
- Pesquisas futuras devem aprofundar a compreensão do impacto dos microplásticos no organismo ao longo da vida.
Microplásticos no organismo encontram células de defesa
Depois da ingestão, parte das partículas atravessou a barreira intestinal e alcançou outros órgãos. No fígado, os pesquisadores encontraram essas partículas principalmente nas células de Kupffer, um tipo de macrófago que atua na vigilância imunológica do órgão.
Além disso, a equipe identificou partículas no baço e no tecido adiposo marrom. No experimento de exposição aguda, partículas menores também chegaram ao cérebro em níveis reduzidos e apareceram principalmente em células da micróglia, que participam da defesa do sistema nervoso.
Entretanto, esse resultado não significa que toda exposição cotidiana produza o mesmo comportamento. Os pesquisadores trabalharam com animais e condições experimentais controladas.
O tamanho da partícula parece fazer diferença
Um dos achados mais interessantes envolve justamente o tamanho. Os cientistas compararam partículas classificadas como nanoplásticos, de 50 nanômetros, e microplásticos, de 500 nanômetros.
Após 12 semanas de exposição, os dois grupos provocaram respostas diferentes.
Os microplásticos maiores alteraram o perfil molecular dos macrófagos do fígado e reduziram a capacidade dessas células de realizar a fagocitose, processo usado para capturar materiais presentes no organismo.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram mudanças no metabolismo das células hepáticas, mesmo quando elas não acumulavam diretamente as partículas.
Portanto, os microplásticos no organismo podem produzir efeitos não apenas por sua presença física em um tecido, mas também pela comunicação entre diferentes tipos de células.

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Fígado e metabolismo também apresentaram alterações
Nos animais expostos aos microplásticos, os pesquisadores registraram alterações no armazenamento de glicogênio e maior acúmulo de gordura no fígado após exposição prolongada.
Já os nanoplásticos produziram outro padrão. Em determinadas condições experimentais, eles interferiram no metabolismo da glicose e no gasto energético.
Além disso, quando a equipe analisou um modelo de obesidade induzida pela alimentação, algumas alterações metabólicas apareceram com maior intensidade.
Esse resultado sugere que condições metabólicas preexistentes podem influenciar a resposta do organismo às partículas.
Ainda não é possível transformar o resultado em diagnóstico humano
Apesar dos achados, o estudo não demonstra que microplásticos provoquem obesidade, diabetes, doença hepática ou qualquer outra enfermidade em seres humanos.
A pesquisa utilizou principalmente camundongos machos e partículas específicas de poliestireno administradas em condições experimentais.
Portanto, existe uma distância importante entre esse modelo e a exposição humana cotidiana, que envolve diferentes tipos, formatos, concentrações e combinações de plásticos.
Curiosamente, os cientistas ainda constataram que parte das partículas permanecia nos tecidos meses depois do fim da exposição. Entretanto, várias alterações metabólicas que apareceram anteriormente já haviam desaparecido.
O que a ciência começa a descobrir
A discussão sobre microplásticos entrou em uma nova etapa. Durante anos, o foco esteve em descobrir onde essas partículas poderiam chegar.
Agora, as pesquisas procuram entender como elas interagem com células, tecidos e mecanismos metabólicos.
Nesse cenário, o novo estudo acrescenta uma informação relevante: células do próprio sistema imunológico podem reter partículas plásticas e modificar seu funcionamento após essa interação.
Ainda assim, permanece uma questão essencial. Identificar um possível mecanismo biológico não significa comprovar uma doença em seres humanos.
Por isso, novas pesquisas precisarão esclarecer qual é o impacto real dos microplásticos no organismo ao longo da vida.
Fonte
Nature Metabolism. Makdissi, N. et al. “Size-dependent plastic exposure disrupts macrophage function and tissue-specific metabolism”. Publicado em 29 de setembro de 2026.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
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