Senado Memorável Maria Ignez Cavalcanti de Souza - Cultura Alternativa

Senado Memorável: Maria Ignez Cavalcanti de Souza

Senado Memorável: Maria Ignez e sua trajetória no Senado

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De Brasília pioneira ao serviço público

Maria Ignez Cavalcanti de Souza chegou a Brasília em 1962, quando a nova capital ainda consolidava sua estrutura urbana. Transferida do Rio de Janeiro com a família, encontrou a Asa Norte cercada pela característica terra vermelha. Naquele período, enquanto o comércio das quadras ainda estava em implantação, caminhões percorriam diariamente a região levando leite e pão fresco aos moradores.

A formação escolar começou em instituições católicas e, depois da mudança para a Asa Sul, em 1969, prosseguiu nos colégios Maria Auxiliadora e La Salle. A preparação profissional realizada no Senac, por sua vez, abriu caminho para o ingresso no Banco do Estado de Minas Gerais (BEMGE). Aos 19 anos, em 1979, iniciou a primeira experiência profissional e permaneceu cinco anos no setor bancário.

Uma oportunidade na Gráfica do Senado Federal, entretanto, modificou definitivamente sua trajetória. Após oito meses de estágio, foi contratada em 1984. Começava uma carreira marcada pela disposição para aprender novas atividades, circular por diferentes unidades e acompanhar importantes transformações institucionais, políticas e tecnológicas do Parlamento brasileiro.

A Gráfica do Senado como escola profissional

Na Gráfica, a servidora conheceu praticamente todas as etapas necessárias à produção de publicações. Passou pela Expedição e pelo Acabamento, aprendendo procedimentos de corte, refilamento, montagem, capa e encadernação. Posteriormente, acompanhou impressão, diagramação, digitação e revisão, compreendendo como os materiais utilizados pelos gabinetes e demais estruturas do Senado eram produzidos.

A experiência avançou, além disso, para as diretorias Industrial e Administrativa. Nessas unidades, acompanhava o recebimento das solicitações de publicações encaminhadas pelos diferentes órgãos da Casa e sua distribuição aos setores responsáveis pela execução. Profissionais como Marcus Vinícius, Petrus Elesbão, Luiz Carlos, Janete Nemetala, Alaide, Anita Aparecida, Neto, Ana Cecília e Elio Jorge fizeram parte de diferentes momentos desse percurso.

A Gráfica representou, portanto, uma verdadeira escola. O conhecimento não permaneceu restrito às atribuições formais, pois a convivência cotidiana permitia aprender diferentes ofícios. Essa cultura de transmissão prática de saberes tornou-se uma das principais referências de sua carreira e, posteriormente, ajudou-a a desempenhar atividades em áreas bastante distintas dentro da instituição.

Formação contínua abriu novas possibilidades

A qualificação profissional acompanhou toda a caminhada. A servidora estudou datilografia, redação, secretariado executivo e taquigrafia. Conforme as ferramentas mudavam, entretanto, incorporou informática, Windows, Word, sistemas de processamento e produção gráfica digital. Também buscou conhecimentos sobre orçamento público, licitações e contratos, gestão de cerimonial e relações internacionais.

Sua formação incluiu ainda fundamentos da educação a distância, espanhol, inglês e Photoshop básico. Posteriormente, concluiu Administração e o curso Superior de Tecnologia em Produção Gráfica Digital pela UNIP, em 2008. A especialização tecnológica, particularmente, nasceu da necessidade de acompanhar a digitalização da indústria gráfica.

Esse conjunto de competências ganhou aplicação em novas funções. Ao chegar ao Cerimonial, à Presidência do Senado e à Liderança do PMDB, percebeu que conhecimentos acumulados ao longo dos anos facilitavam a execução das tarefas. O aperfeiçoamento, dessa maneira, não representava apenas uma coleção de certificados: tornava-se instrumento efetivo para ampliar sua contribuição ao serviço público.

Presidência, Humberto Lucena e Constituinte

Durante oito anos, a profissional atuou na Liderança do PMDB com o senador Humberto Lucena, figura de destaque da política brasileira e presidente do Senado Federal em diferentes períodos, convivendo profissionalmente também com Mariângela, Ivana e Patrícia. Desse ciclo, quatro anos foram dedicados ao Cerimonial da Presidência, onde trabalhou com Marcos Parente. A rotina envolvia organização de compromissos, audiências, agendas institucionais e atividades relacionadas diretamente à Presidência do Senado e do Congresso Nacional.

A convivência com Humberto Lucena marcou positivamente sua trajetória. Naquele ambiente, ela acompanhou de perto a dinâmica parlamentar, as responsabilidades da Presidência e a intensa movimentação administrativa decorrente da renovação de diretores, secretários e assessores. Ao mesmo tempo, o trabalho proporcionou contato permanente com autoridades, servidores e profissionais envolvidos no funcionamento cotidiano de uma das principais instituições da República.

A Assembleia Nacional Constituinte, contudo, tornou-se uma experiência histórica singular. Enquanto deputados e senadores discutiam o texto que resultaria na Constituição de 1988, os servidores enfrentavam jornadas extensas. Os gabinetes permaneciam funcionando enquanto houvesse atividade parlamentar e, nos bastidores, ela acompanhou debates, divergências, negociações e acordos. Dessa forma, percebeu gradualmente a dimensão daquele processo e testemunhou um dos capítulos fundamentais da democracia brasileira.

Pesquisa preservou a memória das senadoras

Entre suas realizações mais significativas está a pesquisa cronológica dedicada às mulheres que ocuparam cadeiras no Senado. A tarefa surgiu durante participação em uma comissão possivelmente relacionada à Biblioteca, aos Recursos Humanos ou às Relações Públicas e exigiu muito mais que simples levantamento documental.

A pesquisadora procurou familiares, solicitou fotografias antigas, avaliou imagens, dimensões, resolução, ampliações, vidros antirreflexo e molduras. O projeto, além disso, mobilizou diferentes estruturas, incluindo Gráfica, Arquivo Morto, Material, Patrimônio e Marcenaria. A intenção era apresentar adequadamente as pioneiras da representação feminina parlamentar.

Naquele momento, o levantamento chegava até a senadora Marina Silva. Com o aumento posterior da presença feminina, entretanto, a apresentação passou por modernização e incorporou recursos digitais e QR Codes. Embora reconheça as vantagens tecnológicas, a responsável pelo trabalho considera importante preservar uma distinção visual para as precursoras que abriram espaço às gerações seguintes.

Prodasen, Interlegis e qualificação de servidores

A passagem pelo Setor de Treinamento proporcionou outra perspectiva do Senado. Ali, acompanhou ações voltadas aos funcionários que precisavam desenvolver novas competências, corrigir desvios de função ou encontrar atividades mais compatíveis com suas aptidões. O trabalho, portanto, contribuía para qualificação, aproveitamento de talentos e desenvolvimento profissional.

No Prodasen, por sua vez, conheceu mais profundamente a estrutura tecnológica da instituição. Posteriormente, acompanhou o Interlegis, iniciativa criada para fortalecer a integração e a modernização do Poder Legislativo. O programa utilizou recursos computacionais para aproximar Senado, câmaras municipais e estruturas legislativas espalhadas pelo país.

Essa expansão permitiu ampliar o acesso a leis, resoluções e informações orçamentárias, reduzindo distâncias entre municípios e Brasília. A utilização de equipamentos de informática, naquele contexto, representava uma inovação expressiva. Para uma servidora que começara trabalhando em processos gráficos essencialmente manuais, acompanhar essa integração nacional mostrou concretamente o alcance da revolução digital.

Segurança e experiência nos gabinetes

Outra etapa ocorreu na Segurança do Senado. Nesse setor, conheceu a organização de escalas e plantões, além da complexa logística necessária às posses da Presidência da Casa e da Presidência da República. A atividade envolvia planejamento de áreas internas e externas, pontos estratégicos, treinamento especializado e integração com policiais cedidos à instituição.

A trajetória alcançou igualmente os gabinetes parlamentares. Com Joberto Sant’Anna, no gabinete do senador Papaléo Paes, cardiologista eleito pelo Amapá, acompanhou um mandato direcionado às demandas daquele estado. Ela destaca iniciativas, emendas e recursos relacionados à saúde, inclusive esforços associados ao atendimento especializado em Macapá.

Depois, trabalhou com José Pimentel, representante do Ceará, a quem descreve como parlamentar centrado, respeitoso e dedicado. A passagem pelos gabinetes, consequentemente, ampliou sua compreensão sobre necessidades regionais e sobre a maneira como o trabalho desenvolvido dentro do Congresso pode produzir efeitos nos estados e municípios brasileiros.

Do papel ao Senado digital

Maria Ignez testemunhou uma das maiores transformações ocorridas na produção gráfica. Atividades antes distribuídas entre numerosos especialistas passaram gradativamente para equipamentos capazes de editar, diagramar, paginar, ordenar, dobrar, cortar, alcear, grampear, encadernar e finalizar publicações.

A automação reduziu determinadas funções, contudo também exigiu profissionais preparados para operar sistemas complexos. Um erro de programação pode comprometer uma grande tiragem, demonstrando que a tecnologia não elimina a responsabilidade humana. Ao mesmo tempo, a digitalização permitiu reduzir impressões desnecessárias e ampliar a eficiência.

Os Diários do Senado, por exemplo, tornaram-se acessíveis eletronicamente, diminuindo desperdícios e facilitando consultas. Assim, a trajetória daquela servidora acompanha a própria modernização institucional: começou entre papel, máquinas, revisão manual e encadernação; atravessou a chegada dos computadores; buscou formação especializada e viu o Parlamento ingressar definitivamente na era digital.

Cultura Alternativa Agradecimento

O Senado Memorável registra uma história que ultrapassa cargos ocupados. Ao transitar pela Gráfica do Senado, diretorias, Cerimonial, Presidência, Liderança do PMDB, Treinamento, Prodasen, Interlegis, Segurança e gabinetes parlamentares, Maria Ignez construiu uma visão privilegiada sobre diferentes engrenagens da instituição.

Sua memória também revela como o Senado mudou durante décadas. A Assembleia Nacional Constituinte, a ampliação da presença feminina, a modernização tecnológica e a integração legislativa nacional aparecem não somente como fatos históricos, mas como acontecimentos observados por quem trabalhava diariamente nos bastidores.

Aos novos servidores, ela deixa uma mensagem baseada na própria experiência: valorizem a oportunidade conquistada, aprendam continuamente e aproveitem a convivência profissional. Para quem chegou a Brasília quando a terra vermelha ainda dominava a paisagem e acompanhou o Senado entrar na era digital, permanece a percepção de que a carreira passa rapidamente, enquanto conhecimento, amizades e contribuição institucional permanecem.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa