Alexandra Rodrigues transforma palavra em liberdade e educação
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A escritora portuguesa-brasileira Alexandra Rodrigues construiu uma trajetória marcada pela literatura, pela educação e pela defesa da expressão humana como instrumento de transformação social. Vivendo em Brasília desde 1985, encontrou no Brasil não apenas uma nova pátria, mas também uma ampliação sensível da própria linguagem. Psicóloga, professora universitária e autora, converteu experiências acadêmicas, culturais e afetivas em uma produção conectada à escuta, à subjetividade e à potência das palavras.
Ao longo de quase quatro décadas em território brasileiro, desenvolveu um olhar crítico sobre colonialismo, identidade cultural e processos educativos. Além disso, sua obra atravessa poesia, crônicas e prosa poética, sempre valorizando liberdade criativa e encontros entre memória e descoberta. A intelectual também consolidou atuação em projetos pedagógicos inovadores, oficinas literárias e coletivos femininos voltados à valorização da escrita.
Tabela de conteúdos
- Alexandra Rodrigues transforma palavra em liberdade e educação
- Entre Portugal, Brasil e a travessia da linguagem
- Literatura, docência e o encontro definitivo das vocações
- A força da escrita como expressão humana
- Educação, autonomia e liberdade de aprender
- Oficinas literárias e a reconstrução do prazer de escrever
- Mulheres, literatura e novos projetos
- Cultura Alternativa Agradece
Entre Portugal, Brasil e a travessia da linguagem
A autora costuma afirmar que possui “pátria e mátria”. Nascida em Lisboa, encontrou no Brasil uma relação transformadora com a língua portuguesa, especialmente pela musicalidade da oralidade brasileira e pela influência cultural africana e indígena presente no país. Segundo ela, essa travessia atlântica ampliou sua percepção sobre identidade, ancestralidade e diversidade cultural.
Além disso, viveu em Portugal durante o período anterior à Revolução dos Cravos, ocorrida em 1974. Essa experiência permitiu compreender posteriormente os impactos históricos do colonialismo europeu sobre o território brasileiro. O contato com debates relacionados ao racismo estrutural, à reparação histórica e às cosmologias indígenas aprofundou ainda mais sua visão crítica acerca da sociedade contemporânea.
Por outro lado, suas referências literárias nasceram tanto da tradição portuguesa quanto da produção brasileira. Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa, Jorge de Sena e António Gedeão convivem, em sua formação intelectual, com Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Ferreira Gullar e Mario Quintana. A entrevistada também recorda a importância simbólica de “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello, presente durante muitos anos em sua juventude. Esse encontro de universos ajudou a construir uma escrita marcada por observação, delicadeza e reflexão.
Literatura, docência e o encontro definitivo das vocações
Durante muitos anos, manteve separadas a atuação acadêmica e as incursões literárias. A psicóloga dedicava-se intensamente à formação docente e aos estudos sobre linguagem. Enquanto isso, a criadora de poemas e crônicas permanecia em espaços mais íntimos e reservados.
Entretanto, a participação nas oficinas do Núcleo de Literatura do Centro Cultural da Câmara dos Deputados alterou completamente essa dinâmica. O trabalho era coordenado pelo professor Marco Antunes. As aulas de poesia, conto e crônica, os saraus realizados no Teatro Sesc Garagem e no Teatro Nacional, além da convivência com autores brasilienses, fortaleceram seu vínculo com o universo artístico e estimularam a publicação de livros.
Posteriormente, essa experiência chegou à Universidade de Brasília, especialmente à Faculdade de Educação e ao Instituto de Psicologia da UnB, por meio da disciplina “Oficina de formação do professor leitor/escritor”. A proposta aproximava estudantes universitários do cenário cultural brasiliense. Também promovia encontros com escritores, apresentações literárias e debates sobre criação artística. A entrevistada participou ainda do “Encontro com o Autor”, realizado na Biblioteca da Câmara, além do projeto “Canto das Letras”, em 2009 e 2013. Desde então, educadora, psicóloga e autora passaram a caminhar juntas de forma inseparável.
A força da escrita como expressão humana
“O Nome das Coisas”, primeira obra publicada por Alexandra Rodrigues, marcou sua estreia na prosa poética. No livro, trabalha a linguagem como território emocional, simbólico e existencial. Segundo ela, escrever representa “fazer o parto das ideias e dos sentimentos”. Dessa maneira, experiências humanas encontram voz por meio das palavras.
Da mesma forma, explorou a crônica em “Minha avó botou um ovo”. A publicação nasceu de memórias familiares e de acontecimentos aparentemente simples que revelam profundidade humana. A escritora afirma sentir necessidade de narrar episódios verdadeiros que muitas vezes parecem invenção. Nesse aspecto, recorda uma reflexão de Manoel de Barros: “Há coisas que, de tão verdadeiras, parece que foram inventadas”.
Enquanto isso, em “Fragmentos d’escola”, utilizou poemas curtos e reflexivos para questionar modelos tradicionais de ensino. Também defendeu uma aprendizagem mais criativa, acolhedora e sensível. O trabalho funciona como manifesto literário sobre a escola contemporânea e valoriza a poesia dentro do ambiente educacional.
Educação, autonomia e liberdade de aprender
As ideias do educador Paulo Freire exerceram profunda influência sobre sua caminhada intelectual. A entrevistada destaca especialmente o conceito de “palavramundo”, no qual linguagem e realidade dialogam continuamente. Para ela, ensinar e aprender são movimentos inseparáveis construídos coletivamente.
Além disso, a professora defende uma formação baseada em autonomia, escuta sensível, criatividade e problematização. Em sua experiência universitária, procurava partir das perguntas, curiosidades e interesses dos próprios alunos. Assim, valorizava o protagonismo estudantil no processo educativo. Em sua sala, mantinha uma imagem acompanhada de uma frase de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.
Mais tarde, essa visão inspirou o Projeto “Diálogos com Experiências Educacionais Inovadoras – Projeto Autonomia”. A iniciativa surgiu em 2011, criada por professoras da Faculdade de Educação e do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. O projeto reuniu docentes, estudantes e famílias em torno de debates sobre novas práticas pedagógicas. O programa ainda criou fóruns permanentes de troca entre profissionais interessados em transformar a escola tradicional.
Oficinas literárias e a reconstrução do prazer de escrever
Ao longo dos anos, percebeu que muitos ambientes escolares desenvolvem uma relação traumática com a escrita. Segundo ela, existe uma cultura educacional excessivamente focada no erro, na cobrança e na avaliação quantitativa. Esse cenário acaba afastando crianças e jovens do prazer de ler e produzir textos.
Diante disso, suas Oficinas da Palavra surgiram como espaços de reencontro com autoria, criatividade e expressão subjetiva. Nessas experiências, participantes eram incentivados a experimentar a linguagem de maneira mais livre, afetiva e sensível. Dessa forma, rompiam com modelos rígidos de produção textual.
Consequentemente, a pesquisadora acredita que educadores e estudantes podem reconstruir juntos uma relação mais humana com leitura e escrita. Para ela, desenvolver autoria significa permitir que cada indivíduo encontre sua própria voz e compreenda a força transformadora da linguagem.
Mulheres, literatura e novos projetos
Integrante do Coletivo Mulheres Maduras e da Academia de Letras e Música do Brasil, Alexandra Rodrigues também participa de movimentos voltados à valorização da produção feminina. A coletânea “Florescer na Palavra”, publicada em 2024, nasceu dessa convivência entre mulheres maduras apaixonadas pela literatura e pela troca de experiências culturais.
Além da produção artística, atuou como jurada de concursos, entre eles o concurso nacional de poesia do Celeiro Literário-Colheita 6. A experiência ampliou seu contato com novos talentos e diferentes estilos narrativos. Segundo a escritora, criatividade, originalidade e trabalho refinado com a linguagem continuam sendo aspectos capazes de seduzi-la no panorama literário contemporâneo.
Atualmente, prepara novos projetos. Entre eles estão o livro de poesia “Etéreos: tempo-palavra”, a coletânea de crônicas “FRAGILidades” e o conto “A Menina palavrinha”. Paralelamente, desenvolve uma obra dedicada às experiências acumuladas durante muitos anos com a Oficina da Palavra. Assim, reafirma sua crença na literatura como espaço de liberdade, escuta e transformação humana.

Cultura Alternativa Agradece
O Cultura Alternativa agradece à escritora Alexandra Rodrigues pela gentileza, profundidade das respostas e pela importante contribuição cultural e educacional compartilhada nesta entrevista exclusiva. Registramos também nosso agradecimento especial a Fernando Araújo e à equipe de Criação & Arte pelo apoio editorial e desenvolvimento deste trabalho.
Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

