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Viajar sozinha pode ser muito divertido!

Seja bem-vinda, você acaba de embarcar numa viagem.

Mas esqueça marido, filhos e cachorro (claro que você os ama, mas é só por um tempo). Esta jornada é só sua. Desta vez, você vai viajar sozinha. Ah, não venha dizer que não gosta de solidão. Se você pensa assim, está na hora de rever seus conceitos, quem sabe preconceitos. Sim, mais do que em alguns lugares do mundo, existe aqui no Brasil a mania de achar que se alguém está sozinho é por falta de opção. Quase nunca passa pela cabeça das pessoas que é justamente o contrário: uma escolha consciente de dar um tempo para ficar com você mesmo, se abrir para os lugares e as pessoas e, se perigar, até se conhecer melhor.

Se a idéia de viajante solitária, expressão (mal) traduzida do inglês, provoca calafrios em você, pense em viajante independente. Começou a gostar da idéia? A ideia é que, pelo menos uma vez, você tenha a experiência de sair por aí, dona do seu próprio nariz. E, se for bom, repetir quantas vezes puder, por que não?

O caminho para o novo

Em seu livro A Fruitful Darkness (Uma escuridão frutífera, sem tradução no Brasil), a ecologista e antropóloga budista Joan Halifax diz que todo mundo tem uma geografia própria,que pode ser usada para mudanças. “É por isso que viajamos para lugares distantes. Precisamos renovar nós mesmos em territórios frescos e selvagens. Para alguns, essas são jornadas em que mudanças ocorrem intencional e cuidadosamente”, escreve.

A história é prova disso. O filósofo, teólogo e humanista Erasmo de Roterdã (1465- 1536) viveu e trabalhou em diversas partes da Europa em busca de conhecimento, experiências e idéias que, para ele, apenas o contato com o novo poderia trazer. Assim, virou o precursor da mobilidade acadêmica européia. Hoje existe, inclusive, um programa de intercâmbio entre universidades da União Européia com seu nome.

Porém, para a maioria das pessoas atualmente, esse sentido de sair em busca do novo, do fresco, do desconhecido, está meio de lado. Ainda que sobrevivam exemplos como os intercâmbios acadêmicos e os períodos “sabáticos”, a viagem exploratória há muito cedeu lugar à pura distração. Vivemos na chamada cultura da embriaguez, onde o que vale é o prazer. As pessoas viajam para descansar, se divertir, não para encontrar o desconhecido ou encontrar a si mesmas.

Nada contra a mordomia, o único problema é tornar a viagem um prolongamento da vida cotidiana. “As viagens hoje em dia são superprotegidas, as pessoas se armam, querem levar todo seu conforto.É cada vez mais difícil elas se soltarem ao risco, estenderem a borda do limite”, diz o psicanalista da Faculdade de Educação da USP Rinaldo Voltolini.

Agora é com você

Mas para ser transformadora, a viagem deve proporcionar um corte, uma perda de referências. E um acompanhante é sempre uma referência, talvez a mais forte de todas. “Viajar sozinho ajuda você a experimentar esse corte a que, se a realidade não lhe impõe, fica mais difícil chegar com as próprias pernas. Freud já dizia: o psiquismo é conservador, quando encontra um caminho não muda”, afirma Voltolini.

Mas não adianta olhar tudo como um turista. Para valer o efeito, é preciso entrar no clima, abrir espaço para o novo, e também para o improviso. Está aí algo a que não estamos acostumadas: dar oportunidade para o imprevisível. Tudo bem traçar um roteiro de viagem, mas nada de se prender a ele. A todo tempo a viagem pode se reinventar. Até parece que a cada dia é uma nova viagem, pois você nunca sabe as histórias e as pessoas que vão cruzar seu caminho.

Os outros

Quando está sozinha, você se abre mais para as pessoas. Primeiro nasce uma ânsia de se comunicar, afinal ninguém consegue passar horas ou dias a fio sem falar com ninguém. Depois você precisa saber onde dormir e comer ou onde fica a trilha para a montanha. E, assim, podem nascer amizades pelo caminho.
“Pessoas são pessoas em qualquer lugar. Mas, às vezes, no cotidiano, a gente perde essa dimensão humana. Viajando você desperta o novo no olhar”, diz o oceanógrafo paulista Antônio Soares, que não se lembra de ter feito alguma vez na vida uma viagem em grupo.

Tão encantador quanto a facilidade de se conectar com as pessoas é o desapego a elas. Muito bom se relacionar com as pessoas. Melhor ainda se isso não se tornar uma dependência. Pois no dia seguinte virão novas histórias com novos personagens. E assim a viagem volta ao início, à espera de um novo acaso que mude o dia, a semana, as férias e, no limite, a própria vida.

Viajar sozinha faz você ter mais tempo para se dedicar ao trajeto – e às suas próprias emoções

Só, somente só

Há momentos em que nos sentimos entregues a nós mesmos, sem ninguém para compartilhar uma emoção. Porém, vem junto uma sensação de cumplicidade, de que você é a única testemunha daquela história. “Existe uma imersão nos próprios sentimentos. Você fica mais sensível e tem mais tempo para se dedicar aos acontecimentos”, diz o terapeuta de orientação antroposófica Corrado Bruno, de São Paulo.

A terapeuta e artista plástica Paula Marques, de São Paulo, já viajou muito sozinha. A intenção sempre foi curtir uma ocasião apenas dela, um momento de silêncio em que pudesse parar para prestar atenção no corpo, aquietar a mente. “As pessoas têm uma busca louca por estar sempre fazendo coisas, não perdendo tempo. Não olham para dentro”, diz.

Na Idade Média, no Japão, acreditava-se que as dificuldades de uma viagem eram desafios que se transformavam em poesia e canção. E, por que não, em filmes ou apenas em belas memórias. Se você quer encontrar sua própria história, escolha o destino e pegue a estrada. De verdade.

LIVROS
. Viagem à Itália, J. W. Goethe, Companhia das Letras
. A Arte da Peregrinação, para o Viajante em Busca do que lhe é Sagrado, Phil Cousineau, Ágora
. Viajante Solitário, Jack Kerouac, L&PM Pocket
. Guia Criativo para o Viajante Independente na Europa, Zizo Asnis e Os Viajantes, O Viajante/Trilhos e Montanhas

FONTE Fonte vidasimples

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